QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
José Neto
Espaço Universidade
Jogos Olímpicos e Paraolímpicos: Tão iguais quanto a diferença… (artigo José Neto, 37)
20:33 - 19-09-2016
José Neto
Os Valores do Olimpismo; A qualificação da prática desportiva; a miragem do rendimento; o significado do resultado.

A qualificação para estados ótimos do rendimento desportivo, vive geralmente ancorada a obstáculos em que o talento, o esforço e a dedicação se transferem para um simples sonho, coberto pela incerteza de ter ultrapassado em provas as linhas do horizonte. Qualquer projeto de qualificação olímpica deve nascer nas entranhas de quem se coloca na luta e seja capaz de espiritualizar as forças, apurar os sentidos e sublimar os impulsos à luz dos valores da civilidade, da ética, da solidariedade e da paz
.
Fazendo um pouco de história e de forma naturalmente muita resumida, os jogos olímpicos surgiram em Olímpia – Grécia Antiga em 776 a.C., como honra e dádiva ao deus Zeus, perdurando até 393 d.C., tendo o imperador Teodósio decretado a sua eliminação pela prática e uso dos cultos pagãos. Nos jogos da antiguidade clássica apenas a corrida, o pentatlo (saltos, disco e dardo), boxe, luta livre e eventos equestres, tinham acento.

Nos finais do séc. XIX, com o reviver duma França revolucionária, o barão Pierre de Coubertin, fez eclodir o espírito dos jogos da antiguidade, tendo sido levada a efeito a 1ª olimpíada moderna em 1896 em Atenas, reunindo 14 nações e 241 atletas de várias modalidades.

Seu lema CITIUS, ALTIUS, FORTIUS (mais rápido, mais alto e mais forte), procurou o seu criador assim expressar no juramento olímpico: “a coisa mais importante nos jogos olímpicos não é vencer, mas participar, assim como a coisa mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta. O essencial não é ter vencido, mas ter lutado bem.”

É claro que à medida da evolução do tempo toda esta filosofia ia morrendo de forma lenta mas segura e a definição outrora do atleta como “cavalheiro aristocrático”, viu-se ultrapassada. A profissionalização iniciou o seu bastião, bem protegido pelas nações que potenciavam os seus argumentos políticos, pelas razões que as medalhas lhes iam conferindo. Não será possível nos dias de hoje dissociar a evolução das tendências do desporto olímpico sem o comparar aos modelos económico – financeiros, típicos do economicismo que nos governa. Qualquer participante segue uma marca, com uma cor, com um desejo, mas também com a obrigação de conquistar uma medalha. O participante funciona a maior parte das vezes como meio, sendo o lucro o objetivo primeiro.

Tivemos no Rio de Janeiro/2016, 92 atletas, tendo conseguido 1 medalha de bronze, obtendo ainda 10 diplomas e 15 resultados entre os 16 primeiros lugares, confirmando o 2º melhor lugar na história de Portugal em jogos olímpicos.

Discute-se: mais exigência? … mais medalhas?...

É claro que por vezes somos levados a libertar uma consciência de vencedores antecipados e nessa elevada expectativa poderá ter residido uma exigência, que também pode ter funcionado como garrote e de difícil justificação. Mas o que se pode pedir mais a um País em que o Desporto é quase um bem esquecido e apenas alguns o tem disponibilizado na sua prática ?!...

O desporto pré-escolar e universitário é praticamente inexistente. O desporto escolar, uma bandeira a rastejar pela agrura de muito oportunismo onde os valores do passatempo são mais justificáveis do que os valores técnico pedagógicos e sociais que deveriam ser inseridos numa obrigatoriedade participativa, valorizada e qualificada para efeitos de carreira… etc … e se não fossem os clubes, as misérias batiam de porta em porta!...

Segundo dados dos últimos anos, refere-se que apenas 36% dos portugueses pratica desporto (os que menos fazem desporto na Europa, com exceção da Bulgária e Malta), sendo que 21% o fazem de forma regular e 15% de forma ocasional. Ainda a título de curiosidade, 34 em 100 homens o fazem e 7 em 100 mulheres o exercem, enquanto 77% dos portugueses utilizam como primeira opção, ver T.V., com uma grande percentagem nos big brothers e outros de corar a vergonha de quem por vezes clica desprevenido.

QUEREM MAIS MEDALHAS ???...

Só o poderemos admitir quando um verdadeiro programa desportivo, com a seriedade duma organização consagrada pela regra, pela regra exigida e convertida na disciplina, na disciplina autenticada no resultado e no resultado exaltado pelo sucesso. E … já agora, também e quando todos e especialmente quem diz que nos governa entender que o DESPORTO pode e deve funcionar como catalisador privilegiado para a constituição dum homem ( e mulher) mais libertador, saudável e consciente, requerendo pela sua prática uma maior sintonia entre o gasto do teor energético e a sua correspondência com a vida.

Poderemos assim converter o praticante desportivo numa imagem dum lutador sublime na procura serena, firma, duradoura e realista na pretensa e justa causa de podermos ver subir a bandeira das nossas cores, fazendo de cada qual um eleito, porque valente e imortal.

JOGOS PARAOLÍMPICOS

Viveu-se uma vez mais o maior evento mundial de pessoas com algum tipo de deficiência de mobilidade, cegueira, paralisia cerebral ou de deficiência mental. Surgiu este tipo de competições em Mandeville (Inglaterra), como forma de reabilitar os militares feridos na II guerra mundial, consagrando-se em Roma em 1960 os primeiros jogos paraolímpicos, sendo que a partir de 2001 se definiu que as cidades com sede dos jogos olímpicos passassem também a dar respostas aos jogos paraolímpicos.

Nos jogos que ontem (dia 18 de Setembro) tiveram o seu epílogo, Portugal havia-se apresentado no Rio de Janeiro com 37 atletas em várias modalidades, tendo obtido 4 medalhas de bronze e 26 diplomas de classificação honrosa, superando o registo de há 4 anos em Londres, mas longe das 15 medalhas de Sidney e 14 de Nova York, Seul e Atlanta.

Lá estamos nós com a conotação privilegiada e comparativa das medalhas!... Mas, quando vejo alguém competindo com total entrega e determinação, transportando na alma as pegadas da experiência vivida e no corpo as amarguras do sofrimento experimentado, qualquer podium serve para glorificar esta apaixonada dedicação, convertida pelo movimento em forma de arte, beleza, vida e festa.

Ali acontece a transposição do esforço em movimento como grito de alerta para a honestidade na competição desportiva, a lucidez para acudir ao máximo na prestação desportiva, transferindo as adversidades em oportunidades geralmente acompanhadas dum estado de alegria, humildade e paz. Entendo os discursos feitos desejos bem intencionais para as medalhas a conquistar, mas quanto a mim, o facto se envolverem numa exigente participação numa festa de desporto com esta dimensão, cada metro duma distância a percorrer, cada segundo dum tempo a converter, cada gesto numa prova a realizar é por si só uma medalha conquistada e que por isso eu (emocionalmente) não me cansarei de aplaudir.

A propósito, permitam-me recuar ao tempo de estudante do 5º ano do 1º curso de Educação Física da universidade do Porto (ISEF – 1976/81) e tendo por responsável da disciplina de Ensino Especial o Doutor Moura e Castro, um dos mais talentosos pedagogos da minha carreira universitária. Assim foi que, fiquei responsável pela readaptação neuro motora dum menino de seu nome Jerónimo, cego de nascença e com origem das proximidades de Bragança. No primeiro encontro, encontrei um corpo franzino, curvado e com o rosto vergado para o chão. Contaram-me que era normal aos domingos de manhã os familiares o transportarem para a porta da catedral e que todos os dias se via sentado no degrau da sua cozinha segurando um cartaz com a frase: “deixai uma esmolinha para o ceguinho”. O Instituto S. Manuel do Porto passou a ser a sua residência.

O serviço de higiene ao levantar e as primeiras deslocações para o refeitório era o nunca mais acabar, já que a super proteção exercida deixou marcas profundas e o movimento fino tornava-se penoso e deveras inquietante. De poucas palavras, de vez em quando quebrava-se-lhe o silêncio com um sorriso envergonhado entre uma voz meiga e ternurenta. O tempo gasto para a mudança de roupa para equipar era uma eternidade, tal a dificuldade em desapertar os botões da camisa e calçar as sapatilhas. Lento, muito lento este processo de recuperação, mas seguro e evolutivo em cada sessão de trabalho. Até que já caminhava sem qualquer apoio. Era um regalo vê-lo a girar os braços na conquista do seu espaço e correr em direção da sinalética onde rolava a bola, agarrando-a e de mediato lançando para o cesto ou colocando-a na baliza, sorrindo em grandes gargalhadas, quando a campainha anunciava mais um cesto ou golo marcado!...

Fomos evoluindo, estando o ano letivo para terminar. No último dia de aulas o Jerónimo após a eficácia resoluta em se equipar, cumprindo com toda a destreza o que lhe foi solicitado, tomou no final e como sempre o seu duche, agora cantarolando enquanto a água lhe banhava o corpo. Veio ao meu encontro para de mim se despedir. Agarrou a minha mão e me conduziu à biblioteca. Convidou-me a sentar, dirigiu-se para a prateleira da estante de onde retirou uma célula em Braille e de imediato com voz terna, serena e calma, começou: “era um dia de primavera … um passarinho estava à janela e cantou: piu piu … piu piu!”...

Ah …grande Jerónimo!...

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F. – U.E.F.A.; Docente Universitário.

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