QUINTA-FEIRA, 30-03-2017, ANO 18, N.º 6270
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Europa, Europa: a filosofia em teatro (artigo de Manuel Sérgio, 161)
17:45 - 12-09-2016
Da autoria de Filomena Vieira e Miguel Real, venho de ler a peça de teatro Europa, Europa, atualmente em cena na cidade de Sintra. O Miguel Real é, hoje, para mim, um pensador originalíssimo e (sem exagero) de espantosa erudição. A Filomena Vieira, sua mulher, completa-o, no tráfego da vida corrente, dando-lhe o sentido prático, a ousadia mesmo, que escasseiam, por vezes aos que, como Miguel Real, vivem no e do “mundo das ideias”.

Europa, Europa é uma crítica à civilização europeia dos nossos dias. Para tanto, os seus autores serviram-se do mito grego dos 12 trabalhos que Hércules foi forçado a superar e vencer, para chegar à imortalidade. No cartaz que anuncia Europa, Europa, pode ler-se que ela explora esteticamente “o atual estado civilizacional da Europa”, fundamentando-se nos lances dramáticos de um celebérrimo mito grego. “Assim também a Europa (representada por uma jovem com o nome Europa) terá de vencer os seus pecados civilizacionais (riqueza financeira especulativa, perversão ambiental, violência urbana de origem étnica e religiosa, individualismo feroz, consumismo, ausência de valores éticos firmes, tecnocracia impiedosa ou domínio desumano da tecnologia, desigualdades sociais, ausência de recursos naturais…) para conseguir a construção de uma unidade europeia futura realizável, porventura a maior das utopias do século XXI”. Bem longe de tantos intelectuais, que a aura pública levou a um autocentrismo exagerado, com a Europa, Europa Filomena Vieira e Miguel Real escolheram o caminho do esclarecimento das consciências, diante do esvaziamento daqueles valores, advenientes da filosofia grega, do espírito jurídico latino, da mensagem judaico-cristã e da crítica que o Iluminismo criou, que singularizavam (e até dulcificavam) o continente europeu. Num tempo de análises inseguras e decisões dolorosas, os autores desta peça de teatro apontam-nos o caminho, numa alegoria que chega ao radical fundante da crise que a Europa atravessa.

Em estilo forte de “missionários” de uma cultura que as gerações do computador e da televisão contemplam numa expressão cética ou amuada, Filomena Vieira e Miguel Real manifestam uma solidez doutrinária (sem ponta de fixismo ou integrismo) que surpreende, com toda a certeza, os que consideram a filosofia (e até as religiões que não se confundem com alienação) uma coisa já em desuso. Não podemos refugiar-nos numa zona de neutralidade, quando os valores que dão sentido à nossa própria vida merecem o casquinar ruidoso das gargalhadas e as bombas criminosas do terrorismo; quando se anda a reboque de receitas que o neoliberalismo fabrica; quando se põe a mensagem cristã ao serviço de causas que, pura e simplesmente, não humanizam, não salvam e não libertam. “Para o europeu, o princípio do pensamento e da ação reside em valores que a Igreja Católica, com todos os defeitos que possamos encontrar na sua hierarquia, me parece a mais segura guardiã”, disse-me um dia (numa viagem de avião, bem me lembro) um dos homens que mais admirei, ao longo da minha vida… que já não é curta! Refiro-me ao Prof. Barbosa de Melo, recentemente falecido, deputado da Constituinte e um dos dois nomes (o outro foi Jorge Miranda) indicados por Sá Carneiro para elaborar a lei eleitoral, que seria depois aprovada, em 1976. Nunca me poderei esquecer dos telefonemas que, de quando em vez, ele me fazia do alto da sua mesa de presidente da Assembleia da República e me perguntava, sempre com um sorriso de simpatia a nascer-lhe no rosto: “Ó Manuel Sérgio, qual é o livro que anda a ler?”. De facto, uma pessoa inolvidável: tão distante na sabedoria e tão acessível na generosidade!

José Tolentino de Mendonça, poeta e escritor, com obras de original fascínio, de memorável beleza, no seu livro Nenhum Caminho Será Longo (Paulinas, Prior Velho, 2012) diz-nos que “a atmosfera dos Evangelhos não deixa margens para equívocos: Jesus desenvolveu a sua missão fora do espaço sagrado profissional; o seu percurso amadurece-se de modo distanciado, em relação ao Templo, elegendo espaços religiosamente neutrais, como a casa, a praça, a margem, o caminho, lugares por excelência da coreografia do humano. Mas não foram apenas lugares novos e mais próximos das relações do quotidiano: foram também novos gestos e novas palavras” (p. 65). Repito o que li: “Foram também novos gestos e novas palavras”. O teatro de Filomena Oliveira e Miguel Real antecipa um futuro diferente, para uma Europa não só sem determinados valores, mas também sem sentido histórico. Este não envolve apenas o que no passado é passado, mas o que no passado pode ensinar o presente e o futuro. Ora, na Europa de hoje, conforme o sublinha uma personagem desta magnífica peça de teatro, “o mercado é tudo”. Até porque, como o refere outra personagem, um Empresário: “O mercado é feito de inovação. De ousadia. Avançar sempre”. No entanto, a Mulher, que atravessa esta alegoria, esforçada, honesta, virtuosa, reconhece: “Uma onda de conservadorismo varre a Europa. Cada família quer conservar o que tem e enriquecer mais. Atira os outros para o caixote do lixo. Manteiga para o lixo, sobras dos restaurantes para o lixo, carros velhos para o lixo, velhos acamados para o lixo. Mobílias usadas para o lixo”. Enfim, um teatro cujas raízes mergulham profundamente, no húmus vivo, esplêndido e perene da civilização europeia; um teatro que francamente se aplaude, não só pela erudição que manifesta, mas pelo bem que faz.

Sem as inequívocas qualidades de escritor e pensador de Miguel Real, sinto-me seu irmão pelo espírito. E agora, também, de Filomena Oliveira. De Miguel Real não poderei esquecer nunca o livro da sua autoria Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (Quidnovi, Lisboa, 2008) que me revelou, pela primeira vez, um ensaísta insigne, com relâmpagos de um invulgar talento. Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa tem a força vivificadora das obras que não têm idade. A partir deste livro, procuro ler e aprender em todas as obras, de rara qualidade conceptual, do Miguel Real. Europa, Europa é mais uma. Parabéns aos seus autores que não fazem “arte pela arte”, mas a arte ao serviço de um mundo mais solidário, mais justo, mais fraterno. Nas minhas aulas, há muitos anos já, eu procurava aconselhar o José Mourinho, o José Peseiro, o Rui Vitória (e tantíssimos mais) que aprendessem, nos grandes escritores e filósofos, a descobrir a matriz onde radica o próprio desporto. Digo o mesmo, em relação ao Miguel Real e a Filomena Vieira. Depois da leitura de Europa, Europa, a Europa do futebol e dos super-empresários e das contratações milionárias e dos atletas que a Informação e a Comunicação divinizam, surge tão verdadeira e tão exuberante, que lhes agradeço mais esta lição de apaixonante humanidade e… de viva inquietação filosófica!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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