TERÇA-FEIRA, 23-05-2017, ANO 18, N.º 6324
José Neto
Espaço Universidade
Futebol – Cultura …vida … e festa!... Um Jogo Solidário (artigo José Neto, 36)
20:45 - 25-08-2016
José Neto
Nota de abertura – Praticamente ao iniciar-se a época 2016/17 e estando as competições de carater nacional e internacional a tomar as opções de linha da frente, o meu desejo para que da sua prática sobrem notícias de paz, de generosidade e duma inatacável honestidade de processos para os bons caminhos do relacionamento humano entre as pessoas que fazem deste belo jogo, cultura … vida … e festa!...

O Futebol torna-se nos dias de hoje, como por vezes nos dias de ontem, agressivo no trato das palavras e das ideias, demente entre as pessoas que o consomem e até pré- histórico nas ameaças que espreitam o conflito e dele se alimentam. O jogo de Futebol é indiscutivelmente nos dias de hoje como o tem sido ao longo dos tempos, a modalidade desportiva de maior impacto na sociedade, capaz de orientar a imagem que a mesma representa, sendo quantas vezes influenciado por ela. A essência do jogo reside no seu carácter lúdico transposto para um patamar cultural indispensável na formação duma sociedade, apelando ao despertar duma inteligência colectiva numa exigente adaptação às regras dum bem entender para um bem - fazer.... E é nessa viagem do tempo que encontramos a magia da bola transferida do sinal do sol ou da lua feita luz no iluminar dos caminhos do progresso, empurrada com o pé no ano 2597 a.C., mais tarde jogada em templos sagrados, que acompanha a história, entretendo, preparando para a guerra, educando pela dinâmica dum jogo, festejado pelo rito da fertilidade de um povo.

…Essa bola cravada numa época dos finais do sec.XIX, mais propriamente datada de 26/Outubro/1863, quando 11 dirigentes provindos das universidades de Eton, Oxford, Cambridge, se reuniram na Free Maison´s Tavern e fundaram a Footeball Association – rolou essa bola impossível de parar!... e quando a bola rola há como que uma labareda de emoções em que o humano impõe a sua marca. Por isso, a expressão de uma prática para o ser em toda a plenitude, exige uma solidária capacidade de relação onde aparece o homem e o seu aporte físico, biológico, social, político, cultural e onde a ciência e a consciência não se limitam à degradação dos gastos energéticos e neuromusculares, apelando ao compromisso duma ampla solidariedade.

Um Jogo Solidário: no crescer para render – onde as crianças e jovens cedo aprendem, pela sua prática a controlar as suas emoções, capazes de comungar uma partilha de dar e receber, quase sempre com um sorriso misturado de suor e canseiras repetidas e cujos limites apenas ao nível dos processos de crescimento, capacidade de esforço e complemento maturacional se deixam envolver e onde paixão, a alegria e a motivação sempre farão coisas admiráveis.

Um Jogo Solidário: no apoio aos não adaptados – como expressão de afetos envoltos numa coreografia de gestos técnicos que surpreendem pela magia, gente que não vê, gente que não fala, gente que não anda, gente que não ouve … mas que joga e se deixa elevar pela graciosidade do gesto técnico no passe, no drible, no remate, acumulando vivências admiráveis, com um sorriso coberto de suor e afetos.

: em que “por detrás das grades existe gente” – para gente que arrancam das suas celas de 3x2 para um espaço de liberdade, exercitando através do simples jogo, as regras do respeito, do fair play, de um saber estar que transita para o modelo comportamental do dia - a - dia da população prisional, também portadora de valores que uma sociedade tipo ora lhes faculta, ora lhes recusa.
Habituar-se através de um cumprimento da regra de jogo, a cumprir a regra da sociedade que um dia foi violada, é, sem dúvida, um dos aspetos mais relevantes da prática deste jogo solidário, que é o Futebol.

Um Jogo Solidário: na recuperação de lesionados – onde entronca uma fórmula integrada do movimento para o comportamento para a consecução de objetivos de conquista, nomeadamente de quem esteve envolvida na adversidade que uma lesão provoca, qualificando quantos, como e porquê, de uma forma sustentada, podem concorrer para um projeto congregador de princípios, deveres e garantias, enfim para o renascimento de um “deus caído”, na conquista de uma excelência provisoriamente perdida.

Um Jogo Solidário: na competição e no rendimento – como expoente do maior espetáculo do mundo e como refere Marias, J. (2000) “ onde não basta ganhar, mas ganhar sempre.Um escritor, um arquitecto, um músico, numa obra apenas, podem dormir uma sesta depois de criar um grande romance, um maravilhoso edifício, um disco inesquecível... e adianta: o Futebol não aceita o descanso. Ter sido ontem o melhor, não chega se não continuar a ganhar”!... e conclui: a alegria passada nada pode fazer para a angústia do presente … também não há durante muito tempo tristeza ou indignação, que de um dia para o outro se podem ver substituídas pela euforia e santificação. Mas, constata Valdano, J. (1999): “ jogar bem não chega quando se não ganha...ganhar também não basta quando não se joga bem e ganhar e jogar bem pode não chegar senão houver jogadores de alto nível e ao alto nível não se chega, jogando apenas bom Futebol”.
Por isso, entendemos que no Futebol, para ser um jogo solidário, terá que sempre existir uma aliança do saber experimentado, com o fazer teorizado, conduzindo uma última síntese da harmonia de todas as coisas. Um Jogo que para ser Solidário, terá de mobilizar num permanente e incessante compromisso:

Os Jogadores – Os fiéis intérpretes da dinâmica que o desenvolvimento do jogo promove a todo o instante? Aqueles que colocados no estádio, as suas esperanças e medos são expostos em frente de milhares de espetadores e capazes de fazer coisas simplesmente extraordinárias? Aqueles que convertem a vontade de vencer numa questão de treino e a maneira de vencer numa questão de honra? Ou aqueles que, independentemente de eventuais mordomias ou contratos chorudos, privilegiam o lado humano da vivência dialógica que o próprio jogo faculta? … e tantas são as vezes que os jogadores carregam uma cruz duma vida virtualmente fácil, abnegada e talvez incompreendida!...

Os Treinadores – Que estejam sempre preparados para rentabilizar os aspetos humanos de uma forma justa. Que sejam capazes de auto classificar-se e sempre disponíveis para medir a auto cítica de uma forma séria e descomprometida e que sejam também capazes de exigir e compreender, motivar para o triunfo e aceitar o fracasso, sempre disponíveis para administrar os valores da honestidade e a firmeza das convicções, procurando ser conselheiros com um modelo de comportamento exemplar, segundo o qual se permitam corrigir sem ofender e orientar sem humilhar.

Os Árbitros – Emitir juízos com a máxima brevidade de tempo e confirmar o caráter irreversível da decisão tomada não é tarefa fácil nem facilmente compreendida. É evidente que a crítica do árbitro é necessária e indispensável. Mas as possibilidades técnicas do esclarecimento deveriam ser aproveitadas no Futebol, com sensibilidade, isto é, deveria cuidar-se sempre de salvaguardar a credibilidade do árbitro no contexto agonístico do jogo, evitando, a todo o custo, que a sua figura seja anulada pelo primado exclusivo da tecnologia. O estado do comportamento humano do árbitro, a sua personalidade, os seus valores, os seus critérios, deverão prevalecer sobre qualquer questão meramente técnica – porque antes do árbitro há a pessoa. É por isso que o árbitro deverá ter no jogo uma capacidade de estima e não o abuso do poder que por vezes desorienta quem joga e estimula negativamente quem ao jogo assiste.

O árbitro perante o jogo deverá estar sempre numa disposição de colaboração e de serviço ao jogo e à verdade. Colaboração, usando a competência como juízo de valor técnico; Colaboração, usando a imparcialidade como juízo de valor humano; Colaboração, usando a autoridade como juízo de valor técnico e humano. No entanto, e de quando em vez, irrompem dos degraus da bancada ou dos socalcos do peão, gritos de discórdia na torrente catártica de consciências em desalinho, arrastando-se até às áreas protetoras (chamam-lhe o espelho dos cobardes), esses heróis da festança. … e ainda salta para a praça pública a ocasião para o desempenho do juiz do jogo; arrumam-se mesas redondas repletas de entendidos em tudo e no que mais, que de futebol todos sabem, estendendo o dedo acusatório perante o febril interesse clubístico a propósito das faltas que viram no campo sem lá terem estado ou que porventura nem sequer viram quando lá estiveram. Tarefa difícil, a do árbitro.

Os Dirigentes – Quando arrancam do seu labor ocasião e forma de protagonizar para o seu clube o tesouro dos maiores entre os grandes?!... Ou quando percorrem de forma intempestiva os corredores do poder, tendo o futebol como exercício compensatório de personalidades falhadas no campo pessoal e profissional, desprezando as regras adjacentes do bom senso e da razão?!... Ainda existe uma urgente necessidade para uma resposta às grandes questões que o empreendimento desportivo reclama no que respeita à competência, à humanidade e profissionalismo dos seus agentes!...

Os Adeptos – Quando gritam e vibram com o peso da sua bandeira numa profunda relação de afetos no apoio participativo. No entanto verifica-se de forma frequente, situações conflituosas, confirmando ou contrariando expectativas do resultado, dando sempre lugar à cólera e à euforia perante as suas fases mais relevantes – marcação ou não dum penalty, o golo falhado, a falta inexistente – e o estádio transforma-se por vezes numa labareda de opiniões com efeitos dramáticos. “Intensamente vivido na sociedade portuguesa, o futebol desperta paixões e anima sociabilidades em quase todas as áreas e espaços sociais, menos onde seria suposto fazê-lo com maior facilidade e impacto: nos estádios” Coelho, J.N.;(2006). Daí a expressão de uma prática de futebol ser o reflexo e o projeto de uma sociedade donde nasce: o reflexo, porque nele está a sociedade que o gerou; o projeto, porque também o futebol pode (e deve) ajudar à transformação da sociedade.

Futebol como cultura …vida e festa – um jogo solidário, de onde pela sua prática do BELO JOGO possam sobrar notícias...notícias de paz e generosidade e duma inatacável honestidade de processos, podendo ver-se aglutinadas um nível superior de relação entre as pessoas, onde as noções do belo, do estético e do ético possam estabelecer acordos duma admirável existência. De facto e se repararmos bem, o jogo de Futebol dispõe de uma magia inigualável – durante 90 minutos é possível condensar muitas histórias e reproduzir muitas das graças e desgraças da vida. Daí um dos seus principais encantos. Futebol, um Jogo, uma obra de arte cuja magnitude social muitos pseudo intelectuais ainda não entenderam, mas por muito que lhe queiram sugar a seiva que lhe dá vida e cor … ficam por aí encostados às “grades da ocasião”!...

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador/ Instrutor F.P.F. – U.E.F.A.; Docente Universitário.

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