DOMINGO, 30-04-2017, ANO 18, N.º 6301
José Neto
Espaço Universidade
Transição de Carreira (2) – medidas com vista para o futuro (artigo José Neto, 35)
23:43 - 10-08-2016
José Neto
A transição da carreira desportiva deverá assumir-se como um processo dinâmico que necessia de ter o seu início nos primeiros anos da carreira (formação) e prosseguir ao longo da carreira profissional de futebol. É um processo que deverá ocorrer a um nível multidimensional envolvendo a interação de vários fatores: emocionais, psicossociais, comportamentais e cognitivos que afetam o indivíduo e seu ambiente.

Para que se possa experienciar uma transição de carreira desportiva, estimamos que o atleta se deve iniciar em atividades de preparação orientadas para desenvolver a atenção, compreensão e estratégias de coping associadas com a transição de carreira desportiva, antes do final da sua carreira profissional futebolística.

As estratégias sugeridas para mitigar o efeito negativo na transição da carreira desportiva, incluem:

- Fazer algum tipo de formação, ao nível académico (gestão desportiva, curso de treinador, scouting, etc…)

- Participar em aconselhamento e análise vocacional identificando e participando em áreas de interesse que possam não ser propriamente desportivas.

- Integrar o estudo e avaliação dum programa de apoio académico (ao nível das novas oportunidades) e programa de apoio para abertura de novas empresas ou negócios.

Como sabemos, os ex - atletas apresentam um grau de consciência bastante elevado, sendo por isso possível, sugerir, em função das preocupações transmitidas por estes, que os jogadores possam se avisados e aconselhados quanto aos desafios sociais, psicológicos e comportamentais passíveis de serem experienciados durante a sua transição de carreira desportiva da Liga Profissional de Futebol. As questões que precisam de ser equacionadas são principalmente:

- Identidade atlética – atletas que são capazes de se definirem a si próprio de uma forma vincada. Estes experienciam adaptações mais negativas no processo de transição de carreira, não tanto enquanto participantes ativos, mas na adaptação a novo estilo de vida.

- Dor física – incapacidade de responder fisicamente às exigências perante o “conflito” competitivo com duas respostas: ganhar e voltar a ganhar.

- Dor emocional – a modulação de resposta emocional também parece estar ligada a um certo lastro de segurança familiar e financeira – quem se auto perceciona como tendo recursos, projeta-se mais seguro no pós – competição. A contrária, é por isso, igualmente válida para aqueles que não se consideram tão bafejados pela sorte. Para estes, os riscos inerentes à imprevisibilidade do futuro aumenta significativamente.

- Perda de amizades, estatuto de celebridade, camaradagem.

-Risco de comportamentos negativos, como por exemplo, beber excessivamente, abuso de substâncias prejudiciais à saúde.

Se estas questões forem trabalhadas com qualidade, os jogadores poderão experienciar uma transição de carreira desportiva com muito sucesso.
Não devemos também esquecer a importância do contributo e da responsabilidade social dos clubes/SAD como forma de garantir a sustentabilidade do Homem que se encontra por detrás do jogador – estrela que se foi.

Esta área da Responsabilidade Social Corporativa (CSR) que tem atraído considerável interesse no que à gestão diz respeito a nível do estrangeiro, mas que raramente tem sido avaliado e explorado na área da pesquisa nacional. Segundo Breitbarth e Harris (2008) “ao realizar a literatura de markting, desporto e gestão, este artigo considera que o papel da CSR no negócio do futebol apadrinhará a competitividade do jogo e criará valor adicional para os acionistas”, propondo “ um modelo conceptual que delineie um papel de agente de futebol tendo em vista a criação de um valor humanitário, cultural, político, social e de segurança”.

Uma medida fundamental para que o processo da transição de carreira não conduza aos estados de declínio existencial referidos no número anterior e para além do que já foi mencionado, será a relevância à continuidade de prática desportiva, proporcionando o crescimento em termos de valores da amizade, responsabilidade, respeito, coesão de grupo, capacidade de superação, regímen alimentar e continuidade do respeito pelos hábitos de rotina, para além do fenómeno mais importante que é a contribuição pela prática desportiva para o estado de uma vida saudável.

Um apelo para que as organizações desportivas (Federações, Liga, Associações, Clubes, Sindicatos, Autarquias) assumam a sua responsabilidade social no enquadramento dos desportistas durante o seu ciclo de vida, preparando o Homem para o futuro, condição que garantirá o sucesso durante o período de transição pós carreira desportiva.
O desporto só pode ser visto como instrumento de formação para a qualidade de vida e não uma mera indústria, cuja principal matéria/prima são as pessoas e jamais devemos permitir que essas, que outrora enchiam os estádios com hossanas de encanto, venham a ser trituradas sem possível reciclagem. Outrora robustecidas por focos geradores duma paixão coletiva, passam de ícones de aplauso ao desencanto prostrado pelo silêncio do desconhecido.

Porventura todos observamos as exigências do tipo comercial (lei do mercado) que coisificam e degradam até à condição de mera mercadoria o atleta de alto rendimento.

A acompanhar tudo isto e em termos de formação, o ainda deveras preocupante no afã depósito de muitos pais e outros agentes, que ao detetarem numa criança sinais de talento, a fazem entrar à força numa espécie de forja de craques, sugando-lhe aquilo que para ela se torna mais importante: o espaço lúdico para crescer.

Quando se quer à viva força enxertar no homem o craque, este, a acontecer, é à custa do homem que aparece e após a fulguração da estrela cadente, o vazio, o abandono e a solidão!...

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário.

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