SEGUNDA-FEIRA, 24-07-2017, ANO 18, N.º 6386
Moniz Pereira
Opinião
Mário Moniz Pereira: o artista-treinador!
22:50 - 31-07-2016
A arte e a ciência, embora em permanente relação dialéctica, parecem o contrário uma da outra. A arte descobre o mundo vivo e vivido; a ciência a lógica, as constantes tendenciais (ou as leis), a matemática dos fenómenos. No entanto, a essência das coisas não é uma verdade eterna a reconhecer, mas uma diferença a experimentar. O artista exprime, por isso, a forma sublime da vida, que é a superior afirmação da diferença. O artista não imita, não reproduz o Mundo que aí está, ou os métodos que lanigeramente se aceitam.

Ao invés: ele desorganiza o Mundo, rejeita os métodos tradicionais, questiona o inicial que se oficializou. E, porque o valor surge sempre como a medida do diferente, o que o artista faz vale! A superioridade da arte sobre a ciência reside aqui: o progresso da ciência é pela arte que acontece! Bachelard diz o mesmo doutra forma: «a ciência não é o pleonasmo da experiência» (Le rationalisme appliqué, p.38). Laboro em erro grave se acrescento: a ciência só o é verdadeiramente, se for arte também? Julgo bem que sim! A arte, quando em interdisciplinaridade com a ciência, acrescenta ao conhecimento científico o inesperado, o impensável, o inefável do que de mais puro há na criatividade humana.

Em Mário Moniz Pereira, o mais notável de todos os treinadores de atletismo, em todos os tempos e em todos os países, não havia nem uma só concessão ao preconcebido, ao tradicional, ao convencional. Os seus métodos de treino eram mais arte do que ciência, ou melhor, eram o resultado da sua prática mas, sobre o mais, da sua sensibilidade de artista. Em Mário Moniz Pereira, o treinador era a superestrutura do artista. E assim ele não era um treinador-artista, mas um artista-treinador.

Glorioso sobrevivente de uma geração que vivia o desporto com sinceridade e paixão, ele distinguiu-se dos demais, animado pela sagacidade rara do artista que tem, em si, a força criadora do génio. Mário Moniz Pereira compôs algumas das melodias mais belas da história do fado, que entusiasmaram intérpretes da estatura de Lucília do Carmo, de Carlos do Carmo, de Fernando Tordo, de Paulo de Carvalho, de Tony de Matos, de Carlos Ramos, etc., etc. Mário Moniz Pereira idealizou e liderou alguns dos momentos mais significativos, inesquecíveis mesmo, da história do atletismo, corporizados por Manuel Faria, Manuel Oliveira, Aniceto Simões, Fernando Mamede, o “primus inter pares” Carlos Lopes e ainda outros gloriosos nomes mais.

O compositor e o treinador resultavam, com esplendor inusitado, de uma alma onde a arte era o radical fundante de tudo o mais. E daí, também, a sua tocante e persuasiva ternura, por tudo o que é belo, incluindo a beleza moral.

Há quem julgue, dentro e fora do desporto, que o treinador deverá distinguir-se tão-só pela sua sapiência, no capítulo da teoria e metodologia do treino. Enganam-se! É o Homem que faz o treinador! Como em Mário Moniz Pereira! Em 1983, publiquei um livrinho, intitulado Ideário e Diário. Nele colhi o seguinte: “A lição viril de uma porfiada luta, em prol do atletismo português não sei onde encontrá-la com tanta exactidão, como no Mário Moniz Pereira. A leveza e a rapidez desta nótula não nos permitem pormenorizar (nem eu o saberia fazer) o que este homem, na sua despresumida simplicidade, tem dado ao atletismo e, por extensão, ao desporto nacional. Dizia-lhe eu, hoje (9 de Fevereiro de 1982), numa reunião na DGD (Direcção-Geral dos Desportos) em que ambos participámos: Encontrei a chave dos seus êxitos. E ele surpreso: Ah! Sim? Qual é? E eu: É que o meu amigo é tanto treinador como artista. Quero eu dizer: trabalha e põe arte e comunicação atraente no seu trabalho. O atleta recebe de si, não só conselhos de ordem técnica e tática, mas uma sensibilidade, uma emoção e motivação, que o levam, inevitavelmente, a transcender-se”.

Aos 95 anos de idade, faleceu Mário Moniz Pereira. Está de luto o desporto nacional! Se me é permitida uma nótula de caráter pessoal: não conheci nunca ninguém (eu, que fui seu colega no INEF e na Direção-Geral dos Desportos) que tanto amasse o desporto e dele fizesse o sentido da própria vida, como o Prof. Mário Moniz Pereira. À sua Família e ao Sporting Clube de Portugal, também os meus sentidos pêsames.



Manuel Sérgio

comentários

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SLB PAIXAO
31-07-2016 23:16
Qualquer amante de qualquer desporto terá sempre de admirar a determinação, conhecimento e inteligência que Moniz Pereira incutia nos seus atletas. Paz à sua alma, dum admirador Benfiquista

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