DOMINGO, 25-06-2017, ANO 18, N.º 6357
José Neto
Espaço Universidade
Transição de Carreira – causas versus consequências (artigo José Neto, 34)
23:18 - 29-07-2016
José Neto
Recordo este momento do ano transato onde evidenciei em alguns artigos, estudos referenciados da pré época e que a bola.pt muito me honrou tornar público e que ainda se encontram registados na página e que, já agora, aconselho a revisitar.

Agora que terminamos um espaço competitivo nivelado nalguns casos à máxima expressão substantiva, irei refletir com os meus estimados leitores numa matéria algo preocupante e de premente atenção, como é a transição de carreira desportiva, sua causalidade e possíveis consequências.

O abandono de carreira ou transição da mesma, deverá merecer uma especial atenção, logo a partir do momento que a mesma se inicia, no sentido dos atletas se prepararem individualmente de acordo com os recursos pessoais, experiências e estratégias a percorrer. Esse acontecimento pode representar para uns estados de pressão, intranquilidade e crise, enquanto para outros, dum estado de alívio.
Sabe-se que o tempo de prestação em alto rendimento e o seu elevado grau de exigência para a função é muito mais curto do que a maioria das carreiras. Para muitos, o desempenho de elevada competência, exercido e potenciado pela sua entrega total, pouco tem a ver com a inclusão noutras áreas e, por isso, por vezes vacilam e desistem.
Por outro lado, o investimento na prestação atlética e competitiva poderá proporcionar uma série de privilégios, insuscetíveis de perpetuação, após o afastamento da atividade. Tal facto pode por vezes colocar a questão sobre o porquê de uma carreira tão limitativa, no seu aspeto temporal. A razão apontada para a generalidade dos jogadores é uma e apenas uma: a paixão pelo que se faz, o amor ao futebol. Os benefícios retirados de uma carreira com sucesso, ao mais alto nível, refletem-se muitas vezes, nas palavras dos próprios, no índice de auto realização pessoal, mas também no robustecimento do “aspeto financeiro”. Fatores esses que, no mundo da transição, podem funcionar no sentido contrário, levando a que entrem em declínio, por não viverem no mundo real.

Nos diversos estudos realizados, alguns autores: Lavalle e Wylleman (2000); Maurphy (1995) e Olgilvie (1998) e eu próprio, Neto, J.; (2010), referimos como fatores mais significativos da causalidade na transição de carreias, a idade, a existência de lesões, a simples dispensa ou a livre escolha do próprio.

Um outro elemento a ser referido como causa perturbadora na transição de carreira tem a ver com o medo de ser dispensado. Essa brutal realidade de deixar de merecer confiança da equipa técnica ou dirigente na manutenção de capacidades, até então superiormente desempenhadas, pode assumir uma expressão mesmo dramática para o atleta.

Outras causas derivadas da anterior, podem resumir-se no facto da incapacidade de respostas físico-atléticas devido ao avanço da idade. Por vezes é o próprio atleta, por sua iniciativa a retirar-se, tendo assim a possibilidade de estar mais tempo com a família, ou abraçar outros projetos de vida; no entanto existe sempre um certo grau de dificuldade no momento do abandono, muito em especial quando os níveis de performance assumiram um estado de excelência, demonstrando essa identidade atlética perante uma plateia difícil de reeditar noutras vertentes profissionais.

Os autores atrás referidos juntamente com Werthner & Orlick (1996) e confirmados por mim próprio (2011), referem o caso dos atletas que se retiraram devido à existência e prevalência de graves lesões, experienciaram severo stress psicológico, manifestado em depressões, uso e abuso de substâncias, incluindo pensamentos e tentativas de suicídio. Ainda se acrescenta um conjunto de reações experienciadas como seja: formas extemporâneas, e por vezes persistentes, dum estado de luto, perda de identidade, separação e solidão, medo e ansiedade e até um estado crítico de angústia pela perda duma importante parte do seu “eu”. Um eu social, porque este eu, digamos, personalístico, é um constructo mental e social.

Sabemos que, duma forma geral, os atletas, devido à dedicação extraordinariamente profissional à aquisição e manutenção de altas competências, declinam a atenção noutros vetores educacionais e formativos na aprendizagem da vida, tendo por conseguinte, muita dificuldade de integração noutras áreas profissionais após o abandono da carreira desportiva.

Seguindo esta linha de orientação, surgem alguns casos de revelado interesse para objeto de reflexão. Algumas medidas reativas do afastamento que conduzem ao abuso do álcool, aumento do tabagismo, negligência de higiene pessoal, abandono da manutenção e controle duma condição física adequada. Pelo contrário, os atletas que se mantinham ocupados, continuando a treinar de forma regular, formulando novos objetivos de conquista, sujeitos a um grande apoio social e preparando antecipadamente a sua retirada, apresentaram baixos níveis de ansiedade e maior capacidade de confronto com os problemas inerentes à transição de carreira já evidenciados.

Como é também a esta luz que importa interpretar alguns casos de longevidade desportiva ao mais alto nível de atletas, como Paolo Maldini ou do próprio Luís Figo.

“Porque o Futebol é organ (trabalho criativo e gostoso) e não ponos (trabalho duro e punitivo), é nomos (regra e respeito), mas também ludus (jogo, brincadeira) – e a ludicidade é o catalisador por excelência da criatividade e da auto – realização” (Antunes de Sousa, 2010).
Neste âmbito, será importante programar um conjunto de medidas no sentido de ajudar os atletas a ultrapassar as dificuldades que se podem reportar a uma transição de carreira, inserindo-os num novo estado participativo da vida, que muito espera de quem pelo desporto lhe deu o suor misturado tantas vezes com as lágrimas da ingratidão … ou porventura abençoadas pela força da razão.

Procurarei referenciar algumas dessas medidas no próximo artigo.

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário

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