SEGUNDA-FEIRA, 24-07-2017, ANO 18, N.º 6386
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
“Outro lado das coisas”: um livro de José Antunes de Sousa (artigo de Manuel Sérgio, 153)
19:27 - 25-07-2016
Manuel Sérgio
José Antunes de Sousa, para além de ser colaborador (como eu) d’A Bola on line e doutor em Filosofia pela Universidade Católica, enriquece, hoje, intelectual e pedagogicamente, o quadro docente da Faculdade de Educação Física da Universidade Nacional de Brasília. Como é um orador notável e um estudioso infatigável, rigoroso, metódico, as suas aulas tornam-se convincentes e desejadas mesmo pelos alunos.

Depois, é um homem de fortes convicções, resoluto e combativo: uma alma, verdadeira labareda impetuosa e altiva. Por isso, este destemido arauto de valores que não deverão nunca esquecer-se distingue-se também porque a sua escrita surge como a teoria de uma prática transformadora. Em Antunes de Sousa, nenhuma escrita preexiste aos valores em que acredita. Vejamos o que ele nos diz, no saborosíssimo livro, da sua autoria, Outro Lado Das Coisas: “Num tempo de descrença e de vazio de valores, sobretudo de um Valor a que arrimar uma vida, sabe bem arranjar algo a que nos possamos agarrar, mesmo que esse algo seja o nada que, sob o manto imperial do desespero, se inventa e se celebra. Não há Deus, que há mais de um século o filósofo das belas palavras se encarregara já de O apear do altar, com feroz contundência. E, não havendo um dono de um sentido universal, não há rumo que possamos considerar certo e seguro: cada um vai por e para onde mais jeito lhe dá – quase sempre em belicosa oposição ao que mais jeito dá ao seu vizinho. Neste clima anómico e de desnorte interior impera o salve-se quem puder, sendo certo que jamais alguém encontrou a salvação, estando com a corda na garganta: com pânico a bordo, temos afogamento pela certa. É no estado de pânico colectivo que um certo tipo de verdade se impõe , uma verdade cega, monstruosa, absoluta – uma verdade à medida de um olhar que se fixou no abismo: a obsessão gera o fantasma de uma verdade fatal. O nome dessa verdade? Crise. Não porém uma crise de qualquer coisa, mas simplesmente a Crise” (p. 25).

E continua o autor, com o ritmo e o fervor habituais: “Há despedimentos em massa? Que fazer, é a crise. Há bancos à mama do Estado? Coitados, é a crise. As famílias estão afogadas em dívidas? Pois, é a malvada da crise. Até a taxa de suicídios aumentou? É a crise que anda por aí a tentar as pobres almas. Ela possui-nos de forma total, ubíqua e obsidiante” (p. 26). Enfim, crise, ou impasse, que acontece, não “pela caprichosa e exclusiva intervenção do acaso, como advogam os darwinistas mais ortodoxos, mas pelo impulso demiúrgico da intenção, isto é, da consciência” (p. 47). Relembro uma frase que, de quando em vez, tombava dos lábios de José Gomes Ferreira: “Os pássaros, quando morrem, caem no céu”. Ou estoutra que também lhe ouvi: “gostava que os meus livros dessem a impressão que respiram”. Até a poesia nos dá a sensação de ser a realidade mesma. “Ora, se a atenção de um povo, por via dos mecanismos miméticos da psicologia das massas, estiver fixada num padrão mental de fatalismo, de pobreza, é isso que, como realidade sua, ele próprio constrói. Estamos no fundo da tabela e é aí que cremos dever estar, nós, os portugueses” (p. 47). O engenheiro Fernando Santos, com uma delicadeza excessiva de processos, com um trabalho que é uma espécie de reza, mas com uma exemplarmente forte mentalidade, acreditou e, porque acreditou, venceu e levou a seleção toda à vitória. Quantos eram os portugueses que, há um ano tão-só, firmemente antecipavam a vitória lusitana, no Europeu de França? Muito antes de todos: Fernando Santos! Só depois os jogadores que fizeram de Fernando Santos o seu ídolo. As figuras egrégias da liderança não o são, porque muito gritam e barafustam, mas pelas suas lições de tolerância, de generosidade, de simpatia humana, quero eu dizer: acima do mais, pelo exemplo. É no exemplo que nasce a autoridade, para aconselhar e dirigir.
Voltemos ao José Antunes de Sousa, no livro Outro Lado das Coisas, editado, há meia dúzia de meses, pela Autografia (Rio de Janeiro): “Nunca como hoje foi tão infernal e tão subtilmente eficaz a parafernália da propaganda e docilização das massas. Eis o segredo: ir, com a seráfica fundamentação científica e técnica da sua necessidade e inevitabilidade, cortando, em pequenas doses progressivas, a ração à carneirada, até que todos pacificamente nos convençamos que essa é a nossa condição natural e esse é o nosso adequado destino: sermos pobres. Tratam-nos como carneiros, mas o seu desígnio é fazer de nós cabras – que, como estas, nos contentemos com o limiar mínimo da sobrevivência: pedras e escalracho” (p. 103). O filósofo Slavoj Zizek, investigador do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, na Eslovénia, tem, a este propósito, opinião curiosa: “Na actual democracia pós-política, a bipolaridade tradicional, entre um centro-esquerda social-democrata e um centro-direita conservador, tem vindo a ser progressivamente substituído por uma nova bipolaridade entre a política e a pós-política; entre o partido tecnocrático-liberal e multiculturalista-tolerante da administração pós-política e a sua contrapartida da direita populista, promotora de uma combatividade política” (Viver No Fim dos Tempos, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 2011, p. 11). Quer isto dizer que, porque vivemos em pleno período pós-político, os valores que fizeram a civilização ocidental e que distinguiam pessoas de apreciáveis qualidades de espírito e de coração, mal se descortinam na ladaínha de destemperos dos discursos de alguns políticos de relevo. Em pleno período pós-político, José Antunes de Sousa relê Vergílio Ferreira, para dizer-nos que a Esperança ainda nos resta...

No entanto, sem pôr de lado a Esperança, a ausência daqueles valores, sem os quais impossível se torna viver humanamente, fazem, para José Antunes de Sousa (e não só) do BPN (e outros Bancos mais) “a metáfora trágica do lodaçal em que este decrépito regime se converteu. Perante a magnitude sísmica do rombo e perante a brutal evidência do saque, imaginem o que se fez – tudo menos o óbvio, que seria seguir o rasto do dinheiro, nas suas múltiplas e engenhosas deambulações e recuperá-lo, algo que, segundo ouvi a vários especialistas era (e é) perfeitamente possível. Mas isso não, claro, que era grave o inconveniente que acarretava, punha ao léu a “careca” de muita e respeitável gente – escândalo que há que evitar a todo o custo. Numa democracia do faz de conta e em que a maquilhagem tem papel de relevo, o que acima de tudo importa é salvar as aparências e dar a isto o ar mínimo de respeitabilidade” (p. 206). Reponho os pés no mundo em que vivemos e porque o José Antunes de Sousa escreveu um livro com múltiplos motivos de interesse e que aponta as feridas mais dolorosas da nossa civilização, aconselho, sem detença, a leitura do Outro Lado Das Coisas. O seu autor trasborda o valor deste livro. É, de facto, dos homens cultos que a vida me deu a conhecer. E até um orador comicial, dotado da língua de fogo, que inflama quem o escuta. Só que ele prefere serenar exaltações e revelar-nos as primícias do seu pensamento, onde tudo converge a uma reflexão profunda do Homem, da Vida, da Sociedade e da História.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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