QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Eduardo Monteiro
Espaço Universidade
O Dream Team nos Jogos Olímpicos (artigo de Eduardo Monteiro, 7)
19:18 - 25-07-2016
Eduardo Monteiro
O Basquetebol fez a sua estreia nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim e, desde então, até aos Jogos Olímpicos do México-1968, as selecções nacionais universitárias dos USA venceram sempre o evento. Entretanto, nos países do leste da Europa, no âmbito da guerra fria, começaram a profissionalizar os seus jogadores de selecção, de uma forma camuflada, integrando-os nos respectivos exércitos com a patente de oficiais. Foi o processo escolhido para poderem fazer frente à qualidade e supremacia dos universitários norte americanos que eram amadores. Assim, no âmbito dos Comité Olímpico Internacional, a União Soviética era o país que mais defendia o amadorismo nos Jogos Olímpicos.

Em 1972 nos Jogos Olímpicos de Munique, o Secretário-geral da FIBA, o britânico William Jones, após o derradeiro apito dos árbitros no jogo da final entre as seleções dos USA e da União Soviética com a vitória dos americanos por um ponto resolveu, pura e simplesmente, prolongar o jogo por mais 3 segundos e entregar a posse de bola aos soviéticos que, aproveitando a confusão instalada e, através de um passe longo, fizeram a bola chegar às mãos do poderoso poste Alexander Belov que, debaixo do cesto, não falhou. Foi um autêntico golpe de teatro na história do basquetebol olímpico a vitória da União Soviética.

Nos JO seguintes, os USA venceram em Montreal-1976, não participaram, devido ao boicote nos de Moscovo-1980, em que a ex-Jugoslávia venceu, tornaram a dominar em Los Angeles -1984 com o boicote da União Soviética e foram derrotados em Seul-1988 pela equipa da União Soviética repleta de jogadores dos países bálticos.

Entretanto, Borislav Stankovic, Secretário Geral da FIBA, antigo jogador internacional e treinador da ex-Jugoslávia tinha conhecimento perfeito do que se passava, em termos reais, nos países sob a influência da ex-União Soviética, pelo que não fazia qualquer sentido continuar a esconder processos menos claros de falso amadorismo e apoiar modelos competitivos entre profissionais não assumidos e estudantes universitários, quer se tratasse de campeonatos do mundo ou eventos olímpicos. A ele se deve esta clarificação com o grande apoio do então comissário da NBA, David Stern, excelente dirigente e o principal responsável pela popularidade e prestígio da National Basketball Association (NBA) em todo o planeta.

Assim, em 1989, a Federação Internacional de Basquetebol (FIBA) aprovou a participação dos jogadores profissionais nos grandes eventos à escala internacional, tais como Campeonatos Continentais e do Mundo, assim como os Jogos Olímpicos. Após esta decisão histórica a USA BASKETBALL, federação norte americana, solicitou autorização à NBA para utilizar os seus melhores jogadores na selecção que iria participar nos Jogos Olímpicos que se iriam realizar, em 1992, na cidade de Barcelona.
Acontece que naquela época a NBA estava recheada de excelentes praticantes pelo que, a haver dificuldade, seria a de deixar de fora alguns deles. Escolhido Chuck Daly como selecionador, treinador campeão com os Detroit Pistons, mais conhecidos como os “Bad Boys” pela agressividade defensiva a que submetiam os seus adversários, não houve quaisquer problemas na convocação dos seguintes jogadores: David Robinson (San Antonio Spurs), Patrick Ewing (New York Knicks), Larry Bird (Boston Celtics), Scottie Pipen (Chicago Bulls), Michael Jordan (Chicago Bulls), Clyde Drexler (Portland Trail Blazers), Karl Malone (Utah Jazz), John Stockton (Utah Jazz), Chris Mullin (Golden State Warriors); Charles Barkley (Phoenix Suns) e Magic Johnson (Los Angeles Lakers). A este grupo de profissionais juntaram o universitário Christian Laettner, bi-campeão nacional universitário com a Universidade de Duke, em 1991 e 1992, e eleito neste último ano, jogador do ano do basquetebol universitário nos USA. O simples facto de se juntar na mesma equipa Michael Jordan, Larry Bird e Magic Johnson, embora os dois últimos já estivessem na fase final das suas carreiras, conferiu à equipa o estatuto da melhor de sempre na história do basquetebol.
Pela primeira vez a selecção norte americana tinha que jogar no Torneio pré-olímpico para poder ser apurada para os Jogos Olímpicos de Barcelona, porque o 3º lugar de Seul não garantia apuramento directo. Deste modo, participaram no respectivo torneio das Américas, realizado na cidade de Portland, e começaram logo por deixar a sua marca de excelência ao vencer os seus rivais por grandes diferenças pontuais; Cuba (+79), Canadá (+44), Panamá (+60), Argentina (+41), Porto Rico (+38) e na final a Venezuela (+47). Se alguma vez houvesse dúvidas sobre o grande valor desta equipa elas desapareceram de imediato e até a consagrada revista “Sports Illustrated” apelidou a selecção de “Dream Team”, a equipa de sonho do Basquetebol.

Em Barcelona a expectativa foi ultrapassada através de exibições espectaculares e de resultados com diferenças pontuais abismais, nunca vistas numa competição olímpica de basquetebol: Angola (+68); Croácia (+33); Alemanha (+43); Brasil (+44); Espanha (+41); Porto Rico (+38); Lituânia (+51) e na final Croácia (+32 pontos).

Juan António Samaranch, na época presidente do Comité Olímpico Internacional, disse que o grande sucesso dos Jogos Olímpicos de Barcelona, realizados em 1992, teve muito a ver com o êxito registado através da participação no evento dos jogadores profissionais de Basquetebol. Esta abertura aos Jogos Olímpicos não teve a ver somente com os jogadores norte americanos (NBA), mas também com todos os outros, dos mais diversos países, que já o eram na realidade duma forma normalizada nos USA, nos países ocidentais da Europa e encaputada nos do leste europeu.

Daí em diante, várias versões do Dream Team, em representação dos USA nos Jogos Olímpicos, foram demonstrando o seu potencial com realce para os títulos olímpicos arrecadados em Atlanta-1996 ; Sydney-2000; Pequim-2008 e Londres-2012. Neste percurso competitivo, já com os profissionais integrados, ocorreu uma situação inédita e desprestigiante para a selecção USA, em Atenas-2004, quando sofreu 3 derrotas com as equipas de Porto Rico, Lituânia e Argentina, sendo relegada para a terceira posição.

Uma selecção que integra jogadores como Scottie Pipen, Karl Malone, David Robinson, John Stockton e Charles Barkley do Dream Team original, e ainda, recebe outros tantos como Shaquille O”Neal, Hakeem Olajuwon, Gary Payton, Reggie Miller, Penny Hardaway, Grant Hill e Mitch Richmond, como aconteceu nos Jogos Olímpicos de Atlanta – 1996, terá sempre de ser considerada como Dream Team. Mas isso não basta é necessário prová-lo no campo de jogo. E foi exactamente isso que eles fizeram vencendo todas as outras equipas por diferenças consideráveis: Argentina (+28), Angola (+33), Lituânia (+22), China (+63), Croácia (+31), Brasil (+23), Austrália (+28) e na final Jugoslávia (+26 pontos). Bom comportamento com oito vitórias em igual número de jogos, com uma média de 102 pontos marcados e 70 sofridos por jogo, o que equivale a uma diferença pontual de +32 pontos por cada encontro realizado. Digamos que foi uma boa versão do Dream Team.

Nos Jogos Olímpicos de Sydney – 2000, Rudy Tomjanovich, treinador bicampeão da NBA com a equipa dos Houston Rockets, foi nomeado responsável técnico da selecção USA para os JO de Sydney e, como tal, teve ao seu dispôr um lote de jogadores profissionais que sendo bons jogadores ainda não eram reconhecidos na NBA como foras de série. Abdur Rahim (Vancouver), Ray Allen (Milwaukee), Vin Baker (Seattle), Vince Carter (Toronto), Kevin Garnett (Minnesota), Tim Hardaway (Chicago), Allan Houston (New York), Jason Kidd (Phoenix), Antonio McDyess (Denver), Alonzo Mourning (Miami), Gary Payton (Seattle) e Steve Smith (Portland) foram os escolhidos. Para além disso teriam de defrontar selecções nacionais que já incluíam nos seus plantéis jogadores militantes nas diversas equipas profissionais da NBA. O grau de dificuldade nesta competição olímpica seria naturalmente maior do que em eventos anteriores. Embora, tenham vencido todos os oito encontros disputados para conquistar o título olímpico, diferença média de 21,6 pontos por encontro, nalguns jogos passaram por algumas dificuldades, como se pode verificar pelas diferenças pontuais: China (47), Itália (32), lItuânia (9), Nova Zelândia (46), França (12), Rússia (15), Lituânia (2) e na final França (10 pontos). Embora tenham conquistado o título olímpiço com toda a justiça ficaram muito aquém duma versão do Dream Team.

Nos Jogos Olímpicos de Pequim – 2008, na qualidade de vencedora do Campeonato FIBA-Americas realizado em 2007, em Las Vegas, a selecção norte americana ficou apurada para os Jogos Olímpicos de Beijing. Depois do fracasso de Atenas-2004 em que ficaram apenas em terceiro lugar, Mike Krzyzewski foi nomeado treinador principal e Kobe Bryant capitão de equipa, que passou a ser apelidada de “Equipa da Redenção” em alternativa ao célebre “Dream Team” de 1992. Fizeram parte do elenco os jogadores da NBA: Carlos Boozer (Utah), Jason Kidd (Dallas), LeBron James (Cleveland), Deron Williams (Utah), Michael Redd (Milwaukee), Dwyane Wade (Miami), Kobe Bryant (Los Angeles), Dwight Howard (Orlando), Chris Bosh (Toronto), Chris Paul (New Orleans), Tayshaun Prince (Detroit) e Carmelo Anthony (Denver). Excelente comportamento com 8 vitórias claras nos 8 jogos disputados com as equipas da China (+31 pontos), Angola (+ 21), Grécia (+23), Espanha (+37), Alemanha (+49), Austrália (+31), Argentina (+20) e na final Espanha (+ 11) , o que corresponde à marcação de 106 pontos por jogo contra uma média de 66 pontos sofridos, ou seja uma diferença pontual de cerca 40 pontos por jogo. Digamos que esta equipa foi uma excelente versão do Dream Team.
Nos Jogos Olímpicos de Londres – 2012 a selecção teve por base a continuidade do treinador principal Mike Krzyzewski (Duke University) e dos jogadores campeões olímpicos LeBron James (Miami), Carmelo Anthony (New York), Chris Paul (LA Clippers), Deron Williams (NY Nets) e Kobe Bryant (LA Lakers), para além da entrada dos campeões mundiais de 2010, Kevin Durant (Oklahoma), Andre Iguodala (Philadelphia), Kevin Love (Minnesota), Tyson Chandler (New York) e Russell Westbrook (Oklahoma). O plantel foi completado com James Harden (Oklahoma) e Anthony Davis (New Orleans). Não se tratava de gente inexperiente, bem pelo contrário, treinador e jogadores com muita rodagem em competições internacionais o que, à partida, os colocava como principais favoritos. Não houve surpresas de maior, mas sim jogos mais difíceis do que o habitual e resultados mais equilibrados do que se esperava. Este maior equilíbrio tem a ver com o considerável aumento de jogadores estrangeiros que jogam na NBA, o que eleva o nível do jogo praticado por muitas das selecções participantes no evento olímpico. A equipa dos USA venceu todos os encontros com diferenças pontuais diferenciadas: França (+27), Tunísia (+47), Nigéria (+83), Lituânia (+5), Argentina (+29), Austrália (+33), Argentina (+26) e na final Espanha (+7 pontos). A selecção USA marcou 115 pontos e sofreu 83 pontos por encontro a que corresponde uma diferença pontual média de 32 pontos por jogo. Não se pode afirmar que nestes JO os norte americanos desiludiram, mas também, não se pode dizer que estiveram ao nível de um Dream Team.

Finalmente, quanto aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro – 2016, embora a manutenção da equipa técnica, liderada por Mike Krzyzewski, seja um dado adquirido o mesmo já não se pode dizer em relação aos jogadores. Anthony Davis, John Wall, Blake Griffin, Stephen Curry e LaMarcus Aldridge estão lesionados. Chris Paul, James Harden, Russel Westbrook, Kawhi Leonard, LeBron James, Gordon Hayward, Andre Drummond, Damian Lillard e Bradley Beal pediram dispensa alegando problemas familiares. Verdadeiramente o que se passa é que estes profissionais não querem arriscar as suas carreiras, viajando para uma cidade com problemas enormes de segurança, com doenças tropicais sem controle e, ainda por cima, com ameaças terroristas persistentes. Assim, verifica-se uma enorme deserção de grandes atletas da selecção olímpica de basquetebol dos USA, embora ainda haja outros que vão correr todos estes riscos na corrida por uma medalha olímpica. Aqueles que aceitaram jogar nestes JO são os seguintes: Jimmy Butler (Chicago), Kevin Durant (Golden States), DeAndre Jordan (LA Clippers), Kyle Loury (Toronto), Harrison Barnes (Dallas), DeMar DeRozan (Toronto), Kyrie Irving (Cleveland), Klay Thompson (Golden State), Demarcus Cousins (Sacramento), Paul George (Indiana), Draymond Green (Golden State) e Carmelo Anthony (New York).
Qualquer tipo de comparação desta equipa com outras que foram campeãs olímpicas não faz qualquer sentido, atendendo a que o actual contexto é totalmente diferente. De qualquer modo, esta é uma oportunidade única de outras equipas nacionais tirarem partido da instabilidade criada e tentarem chegar ao pódio das medalhas. O Brasil na qualidade de anfitrião tem o factor casa a jogar a seu favor, para além da sua selecção ser constituída, em maioria, por jogadores que militam na NBA. Por seu lado, a selecção espanhola, principal opositor dos USA, vai espreitar a oportunidade de conquistar a medalha que lhes falta no seu currículo, a de ouro olímpica. Vai participar em força integrando todos os seus atletas, mesmo aqueles que, desde a primeira hora, Pau Gasol, colocavam muitas condicionantes em viajar para o Brasil.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

comentários

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mazoparigo
01-08-2016 18:07
artigo ridiculo, nem vale a pena ler... a equipa de 2012 jogou do melhor basquetebol que já vi! Deixe-se de baboseiras
anmarques
25-07-2016 20:22
Dizer que a equipa de 2012 não esteve ao nível de Dream Team é simplesmente ridículo. Do melhor basquetebol alguma vez praticado pelos USA neste contexto, não se pode olhar só para os pontos... ainda assim, as dificuldades foram contra duas seleções que estiveram a um nível que nunca se viu na europ

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