SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
José Neto
Espaço Universidade
O meu Europeu 2016 com Portugal no coração (artigo José Neto, 33)
19:28 - 14-07-2016
José Neto
Por entre a brisa que sopra leve, muito leve e húmida que ainda escapa deste sorriso que o tempo transporta em vitórias que pouco a pouco foram conseguidas e como fio de água que vai correndo para o oceano deste imenso infinito horizonte onde mora o meu País, vou tentar converter em palavras que foram notícias e que fui tornando públicas através das imagens construídas, as memórias vivenciadas, quer na rúbrica que a bola.pt muito me honra em partilhar, quer na R.T.P, Rádio e Jornal de Notícias quando para tal e ao longo do Euro me foram solicitando para as expor.

Em cada jogo para a fase de apuramento do Europeu (a exemplo de outras participações de nível nacional e internacional), reunia os meus alunos e fazíamos dessa aula uma fonte direta de dedicação e apelo para a vitória. Colocava o telemóvel (já velhinho) em alta voz e entoávamos em uníssono uma máxima, concluindo como um vibrante VIVA PORTUGAL. Do outro lado, o meu bom amigo Fernando Santos respondia em sorriso bem audível: obrigado Zé.

No dia 17 de Maio pelas 19 horas, precisamente no 2º dia do XII Congresso Internacional de Futebol do meu Instituto Universitário da Maia, havia marcado com antecedência com o nosso selecionador essa hipótese de em alta voz fazer-se ouvir o desejo comum de algumas centenas de participantes no auditório. Precisamente após a intervenção do diretor técnico da Escola Johan Cruyff e da homenagem de saudade que lhe foi prestada e antes da mesa para debate entre diversos ex selecionadores de Futebol, lá avancei com o prometido contacto:

- Está? … Fernando Santos?... Sim, responde-me com voz curta e expectante. - Olha, cá estamos todos e antes de anunciares a convocatória para o Euro 2016, lá vai: “ com o primeiro passo se faz uma grande caminhada. Na convocatória para o Europeu 2016 que este seja o 1º dia duma enorme felicidade para a conquista do futuro” … e todos gritamos: “VIVA PORTUGAL” Ah…ah…ah… és sempre o mesmo… obrigado pessoal!...

O Jornal Record recordou de imediato em vídeo num trabalho sempre atento e competente do jornalista em funções, Eugénio Queirós. Tem sido uma questão habitual que vive em mim, isto é, antes duma aula dos cursos de treinadores ou na faculdade, ou antes de uma eventual conferência, estabeleço um código de relação e reencontro com tantos que vivem em mim e vou acrescentando um sentimento de estima e me ajudam a iluminar o bom caminho do relacionamento humano onde tantas vezes apetece converter em gratidão e aplauso … gente com nome de perfume … que abraça a vida com paixão … gente de paz que nos abençoa com o seu olhar … gente que nos aconchega entre o tempo que voa e nos deixa a saudade do reencontro – eles sabem de quem falo … e que de mim, nesse propósito, me obriga a dar o máximo. Por vezes proponho a quem me escuta essa estratégia, de dedicar a alguém de especial referência (em vida ou que já partiu) de elevar o patamar de exigência no campo atencional e que tem funcionado como âncora de apoio existencial.

Bom, no decorrer do trajeto do espaço e tempo que fomos percorrendo até à final e em cada jogo lá seguia uma mensagem. Umas vezes no 1º segundo após a meia - noite … outras vezes mais próximo da hora da palestra para o jogo. A título de exemplo e porque algumas dessas mensagens motivadoras já foram objeto de conhecimento público, recordo ainda na fase de grupos, Henry Thoreau: “ Todos podemos construir castelos no ar. Agora temos de arranjar cimento, areia e ferro para os sustentar … do cimento a coragem; da areia a dignidade; do ferro a honra!... Viva Portugal”!...

E outro jogo e novo encontro da palavra feita expressão dum desejo que brotava da minha alma, desta feita evocando Fernando Pessoa: “ E outra vez conquistemos a distância, do mar ou outra, mas que seja nossa!... frase essa, que se encontra no átrio da salão nobre da Universidade da Beira Interior e que tanto me inspirou para a prestação de provas do meu doutoramento. E mais um jogo e lá seguia uma ideia que a voz do meu sentimento exaltava, agora recorrendo a P.e António Vieira: “ Nós somos o que fazemos … o que não se faz, não existe. Nós somos o que pensamos e fazemos o … quando nada fazemos, apenas duramos” – Viva Portugal!...

Após o apuramento da fase de grupo e perante um estado competitivo um pouco aquém do esperado, inicia-se uma fase a eliminar e também um grau de eficácia crescente. A título de exemplo passou-se de 2 a 6% para 25 a 40% dos remates em golo e a obtenção dum estatuto reportado a equipas de sucesso: 67% que primeiro marcam – ganham … 15 a 25 ataques para 7 a 10 remates para 1 golo etc … etc … tantos os dados que ia registando que até mesmo a infelicidade de concretização dos primeiros jogos, acabou por ser positiva no enquadramento qualificativo e começava mesmo a despontar um sinal de luz como que divina e em mais um jogo, segue a mensagem de F.Pessoa: “Para seres grande… sê inteiro; nada de ti exagera ou exclui; sê todo em cada coisa; sê quanto és no mínimo que fazes … e se assim fores a lua toda sorri para ti porque alta vive”!... Viva Portugal!...

Outros jogos e outras ideias que renasciam da história desta Pátria amada, cada vez mais a aproximar o cântico da festa: “ Remos ao fundo …. Velas ao vento e vamos todos ao encontro da terra prometida”!... Viva Portugal!... e outras e mais outras que sempre justificavam resposta por parte do nosso querido selecionador, do meu distinto colega Ilídio Vale, do campeão Humberto Coelho, do ilustre amigo também de afetos Doutor José Carlos Noronha, do exemplar Diretor João Pinto e de outro Diretor (penso que nele também reside uma imagem dum verdadeiro ganhador) Dr Onofre Costa, recebia como recompensa respostas que estão depositadas na minha arca da aliança sagrada. Tanto para dizer no referente ao esforço, ao rendimento e ao resultado e de algumas estratégias verdadeiramente notáveis ao nível da engenharia comportamental e social, mas como nota de justa homenagem vou inserir a minha reflexão em três dimensões convergentes:

Selecionador Engº Fernando Santos – dizia Gustave Flaubert que “não há trono mais firme do que o coração da gente simples”. É nesta dimensão que sempre enquadrei o perfil de personalidade do meu querido e bom amigo Fernando Santos. Um homem crente que abriga o seu olhar nesse sacrário sagrado onde Jesus nos deixa aconchegar os nossos sonhos e dar passos seguros para o novo mundo da coragem, da concórdia, da solidariedade, do amor fraterno, da virtude … “não somos favoritos, mas candidatos a estar na final, venha quem vier” … “já avisei que só vou embora no final do torneio e tenho a certeza que serei recebido em festa”. Eis a crença do líder e que leva os seus liderados a acreditar e por exclusão de partes, quem não faz o que acredita, é desonesto.
Deste modo fica logo definido a exclusão do descrente que se esconde atrás da sua sombra, preso pelas amarras da inquietação da discórdia e do pesadelo.

Discurso simples mas convicto; tranquilo, paciente mas sempre pedagógico onde incluía a transmissão dos valores da honestidade, a firmeza das ideias e da exigência partilhada. Comunicação fundamentada na seriedade e no otimismo; clara e sem duplo significado, distinguindo as facos das opiniões, intransigente na defesa da equipa como um todo; sintonizado com a formulação de objetivos positivos, desafiadores mas sempre realistas. Como tenho referido frequentemente: nós somos instrumentos facilitadores do reencontro com a vida. Encorpamos ações que ao verem-se repetidoras se transforma em hábitos de vida, de treino e de todas as formas de estar. Daí o expoente máximo do seu perfil de liderança democrática e recompensadora. Isto foi perfeitamente percetível na estratégia de abertura dos treinos, as folgas concedidas … etc…um VERDADEIRO CAMPEÃO.

Outro expoente máximo de referência – Cristiano Ronaldo. Já tinha noutros tempos marcado a história do apuramento para o último mundial quando muitos, quase uma nação inteira se vergava perante um resultado que parecia comprometido, o nosso campeão abria o seu olhar no infinito para os horizontes da esperança, convertendo cada passada numa viagem de sonho, fazendo de cada remate um golo e outro e mais outro, elevando as espectativas de alguns deuses que até aí mais pareciam adormecidos.

Com Cristiano Ronaldo, parece que se constata uma linguagem de amor e raiva no toque da bola. A virilidade, o talento e a agressividade com que se debate perante os adversários, é capaz de se transformar de um momento para o outro em sucessivos movimentos de inspiração onde a harmonia do gesto se combina com uma eficácia emocionalmente excitante. Neste Europeu, não teve a oportunidade de expor todo esse fulgor pelas cargas excessivas nos compromissos da marcação por vezes impiedosa, mas, quanta categoria do seu mister nas expressões, desejos, convicções, perante os seus colegas em momentos fundamentais para converter em sucesso a força mobilizadora do seu carater, transportando na alma as pegadas da experiência vivida, fazendo os próprios colegas renovar o estímulo avassalador na forma de superar as adversidades e atingir respostas vertidas por suor e lágrimas, do inferno ao paraíso … um VERDADEIRO CAMPEÃO.

Outra figura notável de referência, o nosso Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Dr Fernando Gomes, uma figura ímpar onde se enquadra a civilidade do homem na nobreza do cidadão. O arquiteto da consciência federativa autenticamente responsável e responsabilizadora e que fez erguer o castelo dos sonhos com obra no terreno e fora dele também. Revela uma imagem forte, atenta e serena, cujos traços de identidade roça a fidalguia, negligencia a apatia, fortalece o entusiasmo e também acredita. Como líder exemplar, vai ajudando a reconstruir a história do tempo com astúcia, inteligência e perseverança, colocando o Futebol Português na rota do sucesso … um VERDADEIRO CAMPEÃO.

Uma palavra final para a festa emocionante de Portugal Campeão Europeu. Gente que abria o coração em empolgante sorriso perante a êxtase duma jogada, com o rosto a roçar o chão pelo remate à trave do adversário e se ergue em forma de culto deixando cair sobre si outros braços, bem colados pelo amor a Portugal. Permitam-me contudo em anotar o que na minha opinião penso ter sido o melhor deste Europeu – a festa dos nossos emigrantes. Neles eu me revejo criança em que na década de 60, o sr Tónio Sadoque, o sr Gonçalves da Luísa, o sr Arménio barbeiro, a coberto da noite de sacola ao ombro e com o coração em lágrimas se despediam da mulher, dos filhos, pais … e saltavam as fronteiras do sonho e também do desespero, na procura duma vida melhor. Na minha terra sabia-se quando chegavam a Macon e aguardavam em segredo pela fuga a papelada para fazer a contrata (era assim que diziam) para os trabalhos de madrugada a noite todos dias fazer tarefas, muitas dos quais os residentes mais consideravam coisas de escravo.

De quando em vez, a srª Maria do Tónio, a srª Luísa e outras, lá chegavam a casa dos meus avozinhos, trazendo as cartas para ler e dar a resposta, que entre soluços me ditavam. Pelo Natal e mais propriamente no início do mês de Agosto, era emocionante ver a chegada dos nossos amigos, com o seu Renault ou Citroen de matrícula amarela passar entre os caminhos de terra batida e de vidros bem abertos e em alta voz, anunciar a sua visita com a cantilena do “verde vinho” ou o conjunto de António Mafra. Muito a dizer desta gente simples mas coroada de orgulho em ver crescer a casa própria e também as mãos calejadas mas bem prendadas pelos anéis que brilhavam como nunca e outras fantasias que lhe davam uma certa graça. Toda esta gente que rastejou pelas fronteiras do sofrimento, com palavras de saudade presas à garganta, enfatizou em sangue as agruras da ausência e sem conhecer qualquer atalho para o facilitismo, com a alma rasgada pelo desespero feito em desencontros, consegue ver na bandeira o significado duma nação que também é sua pertença. Gente que no passado semeou uma ilusão e no futuro conquistou a esperança.

Por último, penso que para além de tudo este título Europeu também foi uma vitória com a face de Deus criador e que num domingo abençoou todos nós que Nele acreditamos e de forma exemplar a quem deixa a páginas de ouro uma assinatura para a história, um dos seus servos, o nosso selecionador e meu bom amigo Fernando Santos. Até o Antoine Griezmann (bota de ouro do Europeu) neto do pacense Mário da Cavada (jogou no Vasco da Gama, nome que antecedeu o F.C. Paços de Ferreira, com o meu tio, cognominado “Teixeira da Silva” e que na realidade se chamava José Carneiro Neto), não teve a estrelinha da eficácia na finalização … o código genético parece que falou mais alto!...
Portugal Campeão Europeu de Futebol 2016. E agora, qual o futuro?!... Como muitas vezes o refiro – Claramente um aumento de responsabilidades, pois a recompensa de um trabalho de excelência feito, está na oportunidade de o repetir e se possível, melhorar!....

No passado repousam as recordações, no presente as convicções, no futuro - uma sagrada esperança!... e a propósito, citando o ensaísta francês Victor Marie Hugo (1802-1885), “o Futuro tem muitos nomes: para os fracos é inalcançável. Para os temerosos o desconhecido. Para os valentes é a oportunidade!”... VIVA PORTUGAL

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário.

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