SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Gustavo Pires
Olimpismo
Legados Olímpicos: A Galinha dos Ovos de Ouro (artigo de Gustavo Pires, 39)
00:39 - 09-07-2016
Gustavo Pires
De uma maneira geral, os políticos, da direita revanchista à esquerda troglodita, depois das habituais patéticas promessas eleitorais, ao estilo de “uma nova agenda para o desporto” que, quer dizer, tudo e nada ao mesmo tempo, no decorrer da legislatura, para além de tirarem umas oportunistas “selfies” com os atletas e de aparecerem na tribuna de honra dos eventos com significativa projeção mediática, na maior das ignorâncias, não atribuem a menor importância ao desporto enquanto instrumento de promoção de políticas educativas, sociais, diplomáticas e económicas.

Em consequência desta triste realidade, da decisão relativa à candidatura à organização de grandes eventos desportivos, que começa por ser um processo complexo em que, numa perspetiva interdisciplinar, intervêm diversas sensibilidades técnicas e científicas, resulta um projeto real para tomada de decisão, geralmente, sem qualquer viabilidade de execução. Por isso, depois, é elaborado um outro projeto, desta feita virtual, para consumo externo, onde tudo é ajustado de maneira a construir um cenário idílico que salvaguarde os interesses das nomenclaturas técnicas e dos decisores políticos. A lógica neomercantilista, que tem vindo a tomar conta tanto dos regimes capitalistas quanto socialistas, necessita do desporto enquanto instrumento de marketing para a competição económica e política à escala global. A partir desta perspetiva, passa a ser produzido um discurso em que os eventos desportivos que, no passado, eram tidos como instrumentos que, no âmbito da economia social, eram promotores da prática desportiva, hoje, são fundamentalmente considerados como instrumentos que, no âmbito da economia do lucro, devem gerar proveitos para as entidades comerciais que a eles se associam. Por exemplo, no balanço que fez dos Jogos Olímpicos (JO) o presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, admitiu lucros na ordem dos 16.300 milhões de euros. Contudo, os Jogos de Londres tidos como os Jogos que, do ponto de vista custo / benefício, foram dos que melhor correram, hoje, estão debaixo de críticas uma vez que: (1º) podem vir a ser considerados como os mais sujos da história devido aos casos de doping que estão a surgir; (2º) estão a ser acusados de estarem na origem de inaceitáveis agressões sociais por motivo da deslocação pouco cuidada de populações; (3º) provocaram uma dramática diminuição de praticantes desportivos.
A primeira vez que se falou de Legado Olímpico, quer dizer, dos resultados que resultam da realização de uma edição dos JO foi na 35ª Sessão do Comité Olímpico Internacional (COI) realizada em Berlim de 29 a 31 de Julho de 1936. E foi o americano Avery Brundage, presidente do Comité Olímpico dos Estados Unidos desde 1929 que levantou a questão. O que Brundage relatou à Comissão Executiva do COI foi que, devido aos JO de Los Angeles (1932) terem sido financiados por um grupo de investidores, entre eles, por exemplo, a “Union Oil Company”, os lucros que resultaram da organização dos Jogos reverteram exclusivamente em benefício dos patrocinadores. Em conclusão, sugeriu que, futuramente, as Comissões Organizadoras dos JO deviam proporcionar uma maquia considerável ao COI a fim de este poder desenvolver as suas atividades. Contudo, esta posição não venceu devido à oposição de Henri Baillet-Latour que, enquanto presidente do COI, não aceitava que a organização a que presidia: (1º) se envolvesse em qualquer assunto de ordem financeira; (2º) aceitasse partilhar entre as nações participantes os eventuais lucros dos Jogos; (3º) obrigasse os países organizadores dos JO a oferecer os lucros a qualquer organização de solidariedade ou a consagrá-los à construção de instalações desportivas.

Decorridos precisamente oitenta anos, a posição do COI inverteu-se radicalmente. Apesar das enormes dificuldades pelas quais a organização dos JO do Rio de Janeiro está a passar, devido à crise política, social e económica, na qual o Brasil está mergulhado, não é por isso que o COI vai deixar de receber a sua maquia, na medida em que, nos acordos firmados há cerca de sete anos, o Governo brasileiro, como não podia deixar de ser, comprometeu-se oficialmente a cumprir um pesado caderno de encargos enquanto o COI, sem quaisquer riscos, para além dos proventos que recebe dos seus patrocinadores institucionais, recebe ainda os que decorrem dos contratos de transmissão televisiva.
Em consequência, perante as enormes dificuldades que o Brasil está a atravessar, o capital social gerado pela realização dos Jogos, eventualmente o benefício mais precioso que resulta do evento para o País, está irremediavelmente comprometido. Hoje, são divulgadas internacionalmente através da net entrevistas, entre elas a de uma professores a dizer que, agora, as crianças já têm metro para irem para a escola, o problema é que a crise financeira, devido aos JO, acabou com os recursos para manter escolas abertas e pagar o salário aos professores (https://youtu.be/WqjkpF3aVDk). Ora, isto, destrói a imagem de um país e o seu capital social.

Um projeto promissor, infelizmente, acabou por se transformar num autêntico pesadelo ao ponto de ter sido decretado para o Rio de Janeiro o "estado de calamidade pública" devido à crise financeira, eufemismo utilizado para expressar o total colapso na segurança pública, na saúde, na educação, na mobilidade, nas obras do metro e, entre outros, na gestão ambiental que, se falharem, independentemente da parte desportiva poder estar a 100%, os Jogos, sem a complexa logística de suporte, jamais poderão ter um sucesso aceitável. Num dramatismo patético Carlos Nuzman presidente do Comité Olímpico Brasileiro que, incrivelmente, acumula com a presidência do Comité Organizador Rio2016 e, ainda mais incrível, um lugar no COI, em entrevista ao jornal Globo (05-07-2016) admitiu que “no cenário atual, o Rio de Janeiro não seria escolhido para sede dos JO de 2016”. De facto, ele tem razão na medida em que, hoje, os Jogos da XXXI Olimpíada encontram-se numa situação muito difícil pelo que vão decorrer debaixo do maior dramatismo social, político e económico. Infelizmente, deixarão um legado de corrupção, de desperdício e de desorganização que, durante as próximas duas ou três décadas, vai afetar negativamente a vida dos brasileiros, a quem, certamente, não faltarão oportunidades para indagarem sobre o “custos de oportunidade” de sediarem um evento com tal dimensão e complexidade. Nuzman, com todo o seu poder, devia ter previsto esta situação quando resolveu candidatar o Rio de Janeiro a receber os JO.

Há muito que os grandes eventos desportivos têm vindo a colocar a questão dos legados de sinal positivo ou negativo que ficam para a posteridade. Pelo menos desde 1976, em que os Jogos de Montreal, para além de terem sido envolvidos em complicadas questões políticas como foram o caso das “duas Chinas” e do boicote dos países africanos, deixaram ficar para a cidade uma dívida exorbitante que levou mais de vinte anos a ser paga. Por isso, está aberta uma grande discussão sobre os usos e os abusos de aproveitar o desporto e os seus eventos como catalisador de empreendimentos que, de outra maneira, não seriam realizados tão depressa. Repare-se que como a decisão do COI atribuir a sede dos Jogos a uma cidade se realiza com sete anos de antecedência tudo passa a acontecer em “regime de urgência” com as decorrentes dificuldades sociais, económicas e financeiras que daí decorrem. Claro que acreditamos que o desporto deve ser um promotor de desenvolvimento. Não aceitamos é que possa ser utilizado como “cortina de fumo”, para esconder realizações pouco transparentes de valor social e económico mais do que duvidoso que, noutras circunstâncias, seriam realizadas com custos muito menores.

Por isso, hoje a pergunta a fazer é simples: Em matéria de organização de grandes e mega eventos desportivos, estão as gerações atuais a viver à custa da degradação da qualidade de vida das gerações vindouras?
Em matéria de organização de grandes eventos desportivos, invariavelmente, têm sido produzidos três discursos distintos:
O primeiro discurso é o dos políticos. Segundo eles, mesmo perante o desastre, vai ser tudo “ouro sobre azul”, como se pode verificar num texto de Micher Temer, Presidente da República do Brasil. Diz ele: “os Jogos mostrarão ao Mundo uma Nação de democracia consolidada e uma das principais economias globais. Um país com um grande potencial de negócios e também referência em políticas de redução das desigualdades. (…) sediar um evento desta magnitude é uma grande conquista do povo brasileiro e um motivo de orgulho nacional. (…) … 60% dos investimentos nas instalações olímpicas que totalizam 7,07 bilhões de reais são financiados pelo setor privado”. Trata-se da habitual montagem de um cenário idílico, com os negócios na maior, um reconhecimento da bondade do povo, um apelo ao orgulho nacional, mais instalações desportivas, e os habituais elogios ao setor privado. Contudo, o que, geralmente, acontece é que: (1º) as despesas disparam; (2º) a corrupção, para além dos designados “portais de transparência” toma conta dos processos e dos acontecimentos; (3º) constroem-se instalações desportivas completamente inúteis; (4º) resolvem-se, em regime de urgência e com custos adicionais, problemas de urbanismo que, há muito, deviam estar resolvidos; (5º) finalmente, os cidadãos nacionais passam por perfeitos idiotas na medida em que, à custa da conversa do ilusório desenvolvimento do desporto, da “alavancagem económica”, da autoestima e do prestígio nacional, embarcaram em projetos nos quais são meros figurantes, para, depois, terem de os pagar. Entretanto, o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, perante a incredibilidade dos mais otimistas, a um mês da abertura dos Jogos disse: “é uma oportunidade fantástica para a cidade. Só não vê quem não quer ver o que foi feito durante esses anos no Rio de Janeiro”. Quer dizer, o discurso dos políticos não passa de uma falácia na medida em que, à partida, os lucros já estão afetados ao COI e às grandes empresas bem posicionadas com contactos privilegiados nas instâncias de decisão, em detrimento de uma perspetiva de desenvolvimento direcionado para a generalidade da população. Depois, as despesas ficam para a generalidade da população pagar. A ver vamos…

O segundo discurso é o dos dirigentes desportivos. O estrondoso êxito comercial do Movimento Olímpico (MO) tem vindo a fazer passar para segundo plano desde os valores humanos da competição, até à lógica da organização criteriosa que presidiu à organização dos JO desde finais do século XIX até aos anos sessenta do século passado. O maior problema dos dirigentes desportivos é que, facilmente, se “embebedam” com a possibilidade organizarem eventos desportivos que lhes garantam protagonismo social e político à custa do erário público. Em consequência, em muitas circunstâncias, a organização de grandes eventos desportivos, ao contrário daquilo que muitos pretendem fazer crer, nada tem a ver com a evolução e o progresso da modalidade desportiva ou do desporto em geral mas, tão só, com involução e subdesenvolvimento. Regra geral acontecem: (1º) sem qualquer base de suporte relativamente à organização do passado; (2º) com nenhuma ideia acerca dos trabalhos e custos relativamente à organização do presente; (3ª) na mais completa ausência de uma ideia estratégica acerca da organização do futuro; (4º) ignorando que a realização de eventos, só por si, não produz resultados; (5º) completamente alienados dos verdadeiros objetivos do desenvolvimento na relação massa x elite, investem tudo nas medalhas olímpicas em prejuízo da promoção da modalidade; (6º) perante a pressão dos resultados julgam-se no direito de “escravizar” os atletas que, como passam a ter de justificar os investimentos realizados, devem estar ao serviço da pátria amada; (7º) finalmente, perante a involução das respetivas modalidades, dizem que a culpa é da televisão que só transmite futebol.

O terceiro discurso é o dos cidadãos. Regra geral, carente de uma educação e uma cultura desportivas que não vai muito para além do seu inocente gosto pelo desporto em geral e pelo futebol em particular, a generalidade da população está nas mãos de políticos matreiros que manipulam os factos e as estatísticas a favor dos seus próprios interesses. Este tipo de dirigentes não manifesta a mínima vergonha ao convencerem os seus concidadãos menos esclarecidos de que o desporto é um “desígnio nacional”. Depois, entre outros abusos, a propaganda leva-os a pensar que: (1º) a vitória desportiva é uma questão fundamental da pátria amada; (2º) estão com “fome de vencer”; (3º) a felicidade das suas vidas está, diretamente, ligada aos resultados desportivos; (4º) os resultados nos Campeonatos do Mundo ou nos JO contribuem para o desenvolvimento do país; (5º) a realização no país de grandes eventos é uma oportunidade dos atletas nacionais obterem classificações que lhes dão o acesso aos JO.

Mudança de mentalidade. Entretanto, está a acontecer uma mudança de mentalidade. Felizmente, as populações também já começaram a perceber que não se podem deixar ir no “canto das sereias” de políticos pouco escrupulosos, pelo que várias cidades, por imposição dos próprios cidadãos, têm sido obrigadas a desistirem das respetivas candidaturas a receberem os JO. O que está a acontecer é que cada vez mais cidadãos se estão a manifestar contra as megalomanias dos dirigentes desportivos e políticos que, quando se trata de gastar dinheiro público, não olham a despesas. Por isso, quando em 6 de Junho de 2005, a “Public Authorities Control Board” recusou avalizar o dispêndio de 300 milhões de dólares por parte da Câmara Nova Iorque a fim de contribuir para pagar um estádio de mil e quatrocentos milhões de dólares, a cidade ficou dramaticamente fora da corrida a receber os Jogos da XXX Olimpíada que se esperava poder vir a ganhar. A decisão que, segundo algumas opiniões, até foi errada, contudo, teve o mérito de alertar para um processo de decisão que tinha sido conduzido pela Câmara nas costas dos cidadãos. Recentemente, o Comité Olímpico Americano, em Julho de 2015, foi obrigado a retirar a candidatura de Boston a sediar os Jogos de 2024, depois do prefeito da cidade concluir que os contribuintes não estavam dispostos a suportarem tamanha despesa. Também os habitantes de Oslo, receosos dos elevados custos, em cima da hora, recusaram-se sediar os JO de Inverno de 2022 e obrigaram o governo retirar o seu apoio à candidatura. Entretanto, já tinham desistido as cidades de Cracóvia, Munique, Davos e Estocolmo. Restaram duas cidades: Pequim que acabou por vencer e Almaty / Cazaquistão. Significativo é, também, o caso de Toronto porque explica bem as circunstâncias em que as candidaturas acontecem. Esta cidade candidatou-se a sediar aos Jogos de 1960, 1964, 1976, 1996 e 2008 sem nunca ter conseguido o objetivo. A explicação corrente é a de que Toronto sempre concorreu na perspetiva daquilo que os JO podiam fazer pela cidade e não o que a cidade podia fazer pelo MO. Quer dizer, os habitantes de Toronto nunca tiveram nada a ver com o assunto pelo que, simplesmente, iam ser utilizados como instrumentos dos desígnios esquizofrénicos de alguns dirigentes ou ao serviço da cidade ou ao serviço do MO. O que devia estar em causa era o que os JO podiam fazer pela melhoria das condições de vida dos cidadãos de Toronto. Entretanto, chegou-nos de Itália a notícia de que a presidente da Câmara Municipal de Roma de seu nome Virginia Raggi, na visita de cumprimentos que fez ao Papa Francisco, manifestou-se contra a candidatura da cidade de Roma receber os JO de 2024. Argumenta ela que Roma acabou de pagar os 92 milhões de euros por ano relativos ao custo da organização do Campeonato do Mundo de Futebol realizado em 1990. E reforçou os seus argumentos afirmando que “quando Roma tem um défice de 13 biliões de euros de despesas extraordinárias não seria ético pedir aos cidadãos para assumirem mais dívida para os próximos vinte, trinta ou quarenta anos”. O espantoso é que, embora muitas decisões já tenham sido tomadas, os romanos nunca foram chamados a manifestarem-se acerca do assunto. Virginia Raggi admite poder vir a ser realizado um referendo o que, embora não garanta que a opinião da presidente da Câmara de Roma saia vencedora, vai permitir que possa acontecer uma ampla discussão acerca do assunto.

Epílogo. Os riscos de sediar uns JO são enormes, eventualmente, como está a acontecer no Brasil, até incalculáveis. Neste sentido, uma abordagem séria dos legados requer uma responsabilização efetiva por parte do COI que não pode aligeirar responsabilidades de decisões tomadas sem a devida ponderação como, eventualmente, foi a atribuição ao Rio de Janeiro a sede dos Jogos da XXXI Olimpíada. Repare-se que, segundo informação de Lamartine DaCosta (Setembro de 2007) que é o principal académico investigador brasileiro no domínio dos legados dos grandes eventos desportivos, no que diz respeito aos Jogos Pan-Americanos, realizados em 2007 no Rio de Janeiro, não houve planeamento de legados e “como não houve planejamento de legados para os Jogos Pana-mericanos, deve haver uma adequação post hoc”. Quer dizer que, há muito que o COI sabia da incapacidade dos brasileiros, como refere Lamartine DaCosta, devido a “má gestão pública, corrupção vinda do setor privado etc.” em garantirem um projeto desportivo em que os legados não passassem de uma figura de estilo. Por outro lado, o COI tem de decidir se os JO devem ser sacrificados a projetos megalómanos em que os políticos pretendem resolver num curto período de sete anos questões que nada têm a ver diretamente com o desporto que não foram capazes de resolver numa vida. Tem de decidir se os Jogos devem estar completamente dependentes da construção de aeroportos, de saneamento básico, de projetos imobiliários, de infra estruturas básicas e de instalações desportivas que se esgotam imediatamente depois do evento e acabam por deixar cenários catastróficos para o futuro como está a acontecer em Atenas, em Pequim (p/ex. o “ninho de pássaro que custou dois biliões de dólares está ao abandono) ou em Sochi e, infelizmente, vai acontecer, com um alto grau de probabilidade, no Rio de Janeiro. Entretanto, apesar dos dramáticos problemas de Pequim, por falta de alternativas, Thomas Bach já anunciou que a sede dos JO de 2022 será Pequim. Por isso, a pergunta que se coloca é a que procura saber se o COI pode andar pelo mundo, de dois em dois anos, a promover, alegremente, desastres olímpicos?

Os dirigentes do COI não podem, simplesmente “lavar as mãos”. Porque o COI não deve transformar os JO num instrumento que promove mais assimetrias sociais, rebenta com sistemas democráticos e desencadeia mais desigualdades entre os países. Não se trata só de exigir aos Comités Organizadores dos JO o cumprimento de um rigoroso e pesado caderno de encargos. Trata-se de decidir responsavelmente, tendo em atenção o passado, o presente e o futuro. Ora, quer-nos parecer que o COI só está interessado no presente, isto é, no êxito pontual dos Jogos. Pouco lhe interessa o passado e, muito menos, o incomoda o futuro que venha a acontecer. Trata-se de decidir acautelando, sobretudo, os interesses dos milhões de cidadãos que, sem capacidade reivindicativa ou de protesto, ficam com as suas vidas completamente transtornadas devido a decisões políticas, do ponto de vista ético e moral, profundamente criticáveis. Trata-se de exigir que o plano estratégico para os legados não é só uma figura de estilo pelo que o COI, ao contrário daquilo que tem feito, deve assumir a responsabilidade de que os projetos previstos são integralmente cumpridas. Porque, não podemos deixar de dizer que, aos olhos dos cidadãos do mundo, o que se passa nas cidades olímpicas fantasma de Atenas (2004), de Pequim (2008) e de Sochi (2014), bem como a quebra de praticantes desportivos no Reino Unido também é da responsabilidade do COI que, com todo o seu poder e todo o seu dinheiro, não cuidou de salvaguardar que tais situações não viessem a acontecer. Por isso, o presidente do COI Thomas Bach tem de decidir se deseja estar ao lado dos milhões de praticantes desportivos que, por esse mundo fora, segundo a Carta Olímpica, têm direito a praticar desporto ou quer, alegremente, bater umas “selfies” com Vladimir Putin presidente da Rússia quando já se sabia que Sochi após os JO seria transformada numa cidade fantasma.

Hoje, pergunta-se que se coloca é a seguinte: Os JO podem continuar a ser organizados de acordo com o modelo idealizado por Pierre de Coubertin há mais de 120 ano? Thomas Bach, pela leitura que fazemos da Agende 2020 do COI, revela não ter qualquer capacidade para sequer perceber que está a conduzir o COI para um “beco sem saída”. Em matéria de política desportiva à escala mundial, tem de haver capacidade para fazer grandes opções que protejam as gerações vindouras dos catastróficos erros que estão a ser cometidos pelas gerações atuais. Por exemplo, perante o drama de cada vez haver menos cidades candidatas a receber JO, sobretudo cidades de países democráticos, a Agenda 2020 em vez de propor o estudo de novos modelos de organização propõe a facilitação do processo de candidaturas o que vai abrir a porta a políticos aventureiros de cidades de países pouco ou nada democráticos que é o que já está a acontecer. O gigantismo que, no passado, estava circunscrito à esfera desportiva, entretanto, expandiu-se para a esfera social, económica, política e, como se viu no Brasil, financeira. O problema é que a ganância humana, alguma dela proveniente do COI, dos CONs e das Fis, está a destruir o MO e a “matar a galinha dos ovos de ouro”. Por isso, o modelo de organização dos JO que foi idealizado por Pierre de Coubertin, de acordo com a realidade social, económica e política do século XIX, deve começar a ser repensado de acordo com a realidade do século XXI. Este problema, que devia ser a principal questão da Agenda 2020 do próprio COI, foi completamente ignorado. É necessário idealizar uma nova organização para os JO do século XXI. Só assim, o MO poderá continuar a ser considerado um catalisador de progresso que, a partir de uma ideia de futuro partilhado à escala mundial, orienta no tempo presente, a organização um projeto fraterno sustentado nos valores de uma competição justa, nobre e leal.
Em conformidade, é com algum otimismo que se observa a corajosa posição de Virginia Raggi que, ao questionar a candidatura à realização dos JO da XXXIII Olimpíada e, para isso, procurando até obter o apoio do Papa Francisco, trouxe para a discussão pública um problema que está a colocar o MO moderno numa situação insustentável. Esperemos que os membros do COI, como Arthur Nuzman, nos seus múltiplos afazeres, tenham tempo e inteligência para se debruçarem sobre o assunto.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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