DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
Prof José Neto
Espaço Universidade
EURO 2016 … e lá vamos nós cantando e rindo! … (artigo José Neto, 32)
11:48 - 28-06-2016
José Neto
O Futebol tem como nunca nestes dias que já parecem saudade à medida que vão avançando, despertado paixões pela presença de quem o respira dentro do estádio, ou se curva perante as belas imagens que nos são transmitidas juntando a cor, a raça, o entusiasmo e a festa. São as multidões que lhe adoçam o sentido crítico, ávidas em aplaudir uma jogada ensaiada ao pormenor dum belo passe, ou proveniente da magia dum ousado livre ou, pela força aglutinadora imprimida coroando em golo aquele bruá sacudido pelas malhas.

Qualquer jogo de uma seleção assume-se como um fenómeno de enorme cumplicidade, alicerçando de forma verdadeiramente abrangente toda uma sociedade sem limites de tempo e vontades, envolvendo-se por uma labareda de emoções verdadeiramente contagiantes.

Alternâncias de atitude, mudanças de comportamento numa permanente luta pela confrontação com a dinâmica que o jogo impõe e que se conjuga com a interdependência, indeterminação, variabilidade, imprevisibilidade, aleatoriedade, relação de forças, cooperação e oposição constantes, fazendo de cada jogo uma oportunidade de exaltação.

Numa abordagem correspondente à primeira fase de apuramento e em termos globais quis parecer-me que o quadro competitivo de uma competição desta natureza, fez determinar que equipas teoricamente eram mais favoritas, bastava não perder para seguir em frente perante equipas de menor valia competitiva, tendo estas de se disponibilizar de forma absolutamente aguerrida jogando cada jogo como se do mesmo dependesse o futuro das suas carreiras.

A associar a esta reflexão de comportamentos, a perceção de responsabilidade, o grau de importância da competição, a incerteza no resultado muito especialmente a sua dependência, poderá ter conduzido a algum défice de concentração, tensão muscular associada ao deficiente gesto técnico, a falta de precisão na tomada de decisão e que nos primeiros jogos foi claro a sua evidência. Deste modo e de forma surpreendente alguns dos resultados registados.

Temos vindo a referir que a capacidade humana para superar adversidades é fenomenal. Por vezes há equipas e jogadores que após o relato de fatores adversos renovam o estímulo avassalador, fazendo da própria adversidade uma oportunidade de reconquistar o tempo perdido. O estado de alma pode gerar festa, tragédia, esperança, medo, dúvida e razão. O estado de crença ao nível das competências já exercidas funciona como consciência libertadora, transformando o sonho em realidade onde também pode habitar o sucesso.

Temos como base a seleção de todos nós que não tendo ainda e sublinho ainda demonstrado a “nata” do futebol que tantas vezes nos tributa, procura o pacto de sobrevivência numa competição que tem muito para durar. Não obstante o referido, ainda somos a 5ª seleção com melhor percentagem no passe; a 3ª ao nível da posse de bola e a 1ª com mais quantidade de remates. Para além disso, tem vindo a verificar-se um aumento de eficácia neste ítem , de 6 para 25%.

Certos estudos nos confirmam que uma equipa de sucesso é aquela que faz 15 a 25 ataques e 7 a 10 remares para obtenção de 1 golo. Deixem-me recordar que o histórico Fernando Gomes (bibota), na 1ª bota de ouro converteu 4.7 remates 1 golo em 3 zonas distintas da área, sendo 50% com preparação, 25% sem preparação e 25% de cabeça e na 2ª bota de ouro 3.6 remates 1 golo nas mesmas zonas da área e resultando das mesmas circunstâncias.

Ainda reportando-me ao estudo elaborado e correspondente aos 615 golos dos últimos campeonatos da Europa e do Mundo e das finais em competições internacionais, 67% das equipas que primeiro marcam, acabam por ganhar, 26% empatam e 7% perdem.

Apenas alguns dados, mas que nos podem ajudar a refletir para um ou outro complemento para justificar o sucesso.

Ainda referente à nossa seleção no jogo com a Croácia um dado interessante que poderá funcionar para reflexão é que cometemos mais que o dobro das faltas do adversário (o que obrigou este a alterar de forma estratégica a tomada de decisão por sequente reformulação permanente de raciocínio tático) e que não obstante ter reduzido o número de remates viu aumentada a sua eficácia de 6 para 25% o que poderá ser muito significativo ao crescente grau competitivo como nos temos vindo a defrontar.

Em relação ao próximo futuro e como tenho vindo a referir noutros trabalhos aqui apresentados, quem for capaz de emocionalmente resolver as exigências competitivas identificando-as com o sentimento de orgulho, o prazer e a alegria em as satisfazer, estará mais próximo da porta da entrada para o êxito, porque entre o sentir, o pensar e o executar não existem fronteiras.

Creio que associando tudo isto às metodologias referenciadas e objeto de constatação pública como seja:
- o discurso do nosso selecionador que de forma tão simples como abrangente se vislumbram indicadores apostados em laços de grande afetividade e cordialidade.
- os mecanismos de reabilitação em treino após esforço, apresentando como exemplo a aplicação da crioterapia, autenticamente justificada pela redução dos processos inflamatórios, edema e dor localizada e até mesmo por uma redução dos processos de fadiga, vendo-se substancialmente reduzido o tempo de recuperação após o esforço.
- as habituais e tão desejadas folgas concedidas, proporcionando um estado de alegria e libertação dos focos de exigência que uma competição desta natureza faz implicar, vendo-se associadas as famílias e os amigos como fonte de apoio inesgotável. São estes que olhados com o coração e conduzidos pela seiva dos princípios que lhes dá a substância duma relação, voltam a renascer para o ideal de felicidade, ajudando a reconstruir com mais alento a caminhada do tão desejado sucesso.
- a abertura dos treinos aos adeptos que ali demonstram a sua força contagiante e que são ao fim e ao cabo porta voz de milhares e milhares que fazem renascer uma crença amplamente partilhada. Nesta identidade nacional convertida pela força da nossa bandeira também nos entram em casa com esse tão belo brilho do olhar deste povo que canta, salta, corre e dança … fazendo-nos acreditar que podemos pensar como gente grande e inteira e GANHAR!...

Obs: Antes do jogo com a Croácia (como faço com todos os que o antecederam), enviei ao nosso selecionador e meu bom amigo Fernando Santos, à estrutura diretiva , técnica e médica a seguinte mensagem:


“ Bons Amigos: remos ao fundo e velas ao vento… para a conquista da terra prometida. Muitas venturas – VIVA PORTUGAL”

Desta feita e voltando ao texto de que podemos pensar como gente grande e inteira, dou nota da mensagem que enviarei para o próximo jogo com a Polónia, citando F.Pessoa.

“Para seres grande … sê inteiro;
Nada de ti exagera ou exclui;
Sê todo em cada coisa;
Sê quanto és no mínimo que fazes;
Se assim fores… a lua toda sorri para ti – porque alta vive!”
VIVA PORTUGAL.

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário

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