QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Gustavo Pires
Olimpismo
23 de Junho – Dia Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 38)
20:10 - 23-06-2016
Atualmente, no dia 23 de junho de cada ano ou durante a respetiva semana, comemora-se o designado Dia Olímpico porque se considera que a institucionalização do Comité Olímpico Internacional (COI) aconteceu naquele dia no ano de 1894. Contudo, o dia considerado como tendo sido o da fundação do COI nem sempre foi 23 de junho.

Conforme consta no “Anuário de 1911” a data originalmente considerada foi a de 24 de junho, muito provavelmente, porque o 1º Congresso Olímpico em que foram instituídos os Jogos Olímpicos da era moderna, decorreu de 16 a 24 de Junho 1894.

Entretanto, os primeiros estatutos do COI surgidos após a 1ª Grande Guerra, publicados em 1920, passaram a referir que a data da fundação do COI era a de 23 de junho de 1894 que, desde então, passou a ser a data da fundação da instituição. Todavia, ficou por esclarecer porque é que aconteceu esta alteração de data. E a situação é tanto mais estranha quanto se sabe que, por exemplo, segundo a “nota informativa” nº 1 enviada pelo Comité Olímpico de Portugal (COP) para o Comité Olímpico Internacional (COI) em Outubro de 1967 é referido que, era tradição no País, o dia Olímpico ser comemorado a 24 de Junho. O mesmo devia acontecer noutros países, já vamos ver porquê.

O Dia Olímpico começou a ser comemorado em 1948. O que aconteceu foi que, em 1947, ao tempo em que o sueco Sigfrid Edström (1870-1964) era presidente COI, durante a 41ª Sessão realizada em Estocolmo, Joseph Gruss membro do COI na Checoslováquia, propôs que se passasse a realizar em cada país uma “jornada Olímpica Mundial”. Conforme se pode ler na ata da Sessão, na opinião de Gruss não era necessário estabelecer um programa determinado. Cada Comité Olímpico Nacional (CON) ficaria responsável pela organização do seu próprio programa de “propaganda em favor do Olimpismo”, de acordo com as circunstâncias locais. Da proposta de Gruss resultou a constituição de uma comissão encarregue de, na Sessão seguinte, apresentar um relatório sobre a questão da “jornada olímpica”. E, na Sessão seguinte, que se realizou em St. Moritz / Suíça em janeiro de 1948, foi aprovado um relatório sucinto elaborado pelo Chanceler do COI de seu nome Otto Mayer em que, conforme consta na ata da Sessão se sugeria que a “jornada olímpica mundial” se passasse a comemorar no dia 24 de junho que considerava ser o “o dia da fundação dos Jogos Olímpicos da era moderna”. Em conformidade, o CON português como, muito provavelmente, outros CONs passaram a comemorar o Dia Olímpico no dia 24 de Junho ou uma Semana Olímpica que, segundo a edição da “Revue Olympique” de Agosto/Setembro de 1978, era o que, desde 1948, acontecia em Portugal.

As primeiras edições do Dia Olímpico tiveram como objetivo promover a generalização da prática desportiva (mass sport) através da corrida. Hoje, segundo o COI, o Dia Olímpico deve ser organizado a partir de três pilares fundamentais: (1º) movimento; (2º) aprendizagem; (3º) descoberta. E assim, os CON passaram a desenvolver atividades educativas e culturais dirigidas à generalidade das pessoas independentemente da idade, do género, do estatuto social ou da capacidade desportiva. E nos últimos anos, foram associados aos programas desportivos do Dia Olímpico outras atividades de carácter cultural como exposições, seminários e conferências e até concertos de música. A partir 1978, na Carta Olímpica começou a recomendar aos CONs a organização de uma “jornada olímpica” (se possível todos os anos) a fim de promoverem o Movimento Olímpico. Hoje, por indicação do COI, os CON devem celebrar anualmente o Dia Olímpico, entre os dias 17 e 24 de Junho. Entretanto, a edição atual da Carta Olímpica, que data de 2 de agosto de 2015, no nº 3 do texto de aditamento às regras nº 27 e nº 28, recomenda que “os CONs devem organizar – se possível todos os anos – um Dia Olímpico ou uma Semana Olímpica com a intenção de promover o Movimento Olímpico”. No entanto, existe uma exceção para o Comité Olímpico Helénico que, em 1966, entendeu que, no que dizia respeito à Grécia, o Dia Olímpico seria comemorado todos os anos no dia 6 de Abril uma vez que foi o dia em que, em 1896 arrancaram os JO da era moderna.

O Dia Olímpico (ou as Jornadas Olímpicas no caso das comemorações se prolongarem por uma semana) é o acontecimento anual de maior importância que os CONs podem e devem organizar. Os gregos utilizavam a palavra “pathus” que significa paixão mas também “estado de alma” que devia envolver as pessoas nos projetos em que estavam implicados. Ora, a maneira como os CONs comemoram os respetivos Dias Olímpicos representa bem o estado de alma em que o Movimento Olímpico do respetivo país se encontra. E expressa a paixão com que os dirigentes estão envolvidos no projeto olímpico. Porque, comemorar o Dia Olímpico não se trata só de gastar mais ou menos dinheiro ou de realizar mais ou menos cerimónias comemorativas onde, alegremente, os senhores dirigentes se condecoram todos uns aos outros. Trata-se de um evento que, ou está provido de uma verdadeira intenção estratégica que leva as pessoas a empenharem-se nos projetos para além das mordomias e das burocracias instituídas ou, então, o melhor é deixarem-no “ficar na gaveta”. Consequentemente, um CON não pode ser transformado numa organização sem vontade própria que, depois do respetivo governo lá “despejar” as suas responsabilidades, passa a funcionar como um centro distribuidor de recursos logísticos, completamente alienado da sua verdadeira vocação. Um CON deve ser um centro promotor de educação, de cultura e de conhecimento em matéria de filosofia olímpica e propagação dos seus princípios e valores. A última coisa que um CON pode ser é centro de produção e de divulgação de “selfies” disparadas em eventos sem uma verdadeira utilidade pedagógica, social ou política, realizados à custa do dinheiro dos contribuintes.

Quer dizer, comemorar o dia Olímpico não se trata de cumprir calendário, despachar uma obrigação, ou cumprir um ritual. Por isso, não se pode admitir que o Dia Olímpico seja burocraticamente “despachado” na data que mais convém, em que se arrebanham uma crianças do ensino primário, dá-se-lhes uma T-shirt e tiram-se umas fotografias para plantar na comunicação social, acompanhadas de umas estatísticas mais ou menos obtusas, a fim de entusiasmar os basbaques. E fica a festa feita.
Para Epaminondas Petralias (1975-1977), antigo presidente da Academia Olímpica Internacional o fim das Jornadas Olímpicas não deve ter como objetivo principal a organização de diferentes eventos desportivos, mas deve ser “a ocasião para uma mobilização universal do potencial intelectual e educativo de cada país para mostrar e promover o Movimento Olímpico”.

Também para Thomas Bach presidente do COI “o Dia Olímpico é muito mais do que um evento desportivo, é um dia para o Mundo se tornar ativo, aprender acerca dos valores olímpicos e descobrir o desporto”.
Assim, nos países desenvolvidos, o Dia Olímpico deve ser muito mais do que um evento, deve ser um projeto integrado numa visão estratégica que visa colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento humano. Um projeto onde, para além dos CONs, possam participar as mais diversas entidades desde logo a começar pelas Academias Olímpicas, as Federações Desportivas, os Clubes, as Escolas Secundárias, as Universidades e outras, de modo a serem desenvolvidas um vasto número de atividades que, durante um período de tempo, tão largo quanto possível, realmente, seja gerada uma verdadeira cultura olímpica nos respetivos países.
Não se trata de, tão só, “cumprir o calendário” a fim de “mostrar serviço”.

Os gregos antigos, referia Herberto Hélder, simplesmente, não escreviam necrológios. Quando alguém morria perguntavam apenas: Tinha paixão?
O problema é que, hoje, a resposta é: - Era um burocrata competente, a fazer olimpicamente as coisas erradas.

Liderar um CON deve ser muito mais do que gerir, deve ser um estado de alma, uma paixão...

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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