QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Um sistema é relação (artigo de Manuel Sérgio, 147)
21:23 - 22-06-2016
É conhecidíssima uma passagem da obra de Karl Marx, Para a Crítica da Economia Política: “Na produção social do seu viver, os homens incorrem em relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, em relações de produção que correspondem a um estádio determinado de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superstrutura jurídica de política e à qual correspondem determinadas formas sociais de consciência. O modo de produção do viver material condiciona o processo social, político e espiritual do viver, em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas inversamente é o seu ser material que determina a sua consciência”.

José Barata-Moura, marxólogo de uma invulgar consistência (tanto a nível nacional, como internacional) acrescenta a propósito o comentário seguinte: “Traço marcante de toda esta concepção é, sem dúvida, o reconhecimento de como um sistema se tece de relações (tendencialmente contraditórias), de como ele possui constitutivamente uma dinâmica e se não resume a um mero composto de elementos mais ou menos rígidos e inertes”. Portanto, “o sistema não exclui a relação; o sistema constitui-se de relações”. Ele “não coarcta a criatividade das relações. Pelo contrário, define um horizonte de possibilidades reais (…). E assim “não se trata de fazer do homem (saiba-o ele ou não) instrumento de qualquer Ideia, ou razão-de-sistema, de ressonância aproximadamente hegeliana, mas tão-só de compreender o quadro material concreto – e por isso mesmo efectivo – da sua liberdade (…). O trabalho do subjectivo é indispensável, enquanto ingrediência e agência da própria materialidade do ser, mas supõe sempre um quadro objetivo em que dialecticamente se exerce” (José Barata-Moura, Materialismo e Subjetividade, Avante, Lisboa, 1998, pp. 49 ss.).

Uma equipa de futebol (ou de qualquer outra modalidade desportiva) é um sistema. A sua essência não remete para outra explicação fundamental senão esta: porque se constitui como sistema, uma equipa de futebol é fundamentalmente relação, já que não há sistema, humanamente considerado, que não seja dinâmico, dialético e em constante movimento. De facto, um sistema (e no desporto o fenómeno é bem visível) não se confunde com um esquema pronto, acabado, definitivo, mas com uma totalidade que vive porque se relaciona e se desenvolve, ininterruptamente. Assim, uma tomada de decisão do jogador ou do treinador não se deduz abstratamente das leis elaboradas por este ou por aquele autor, mas do conjunto das relações que na equipa se estabelecem. Com isto, não se deprecia o génio individual, apenas se aponta o terreno concreto, material, em que ele se desenvolve. Numa equipa de futebol, a pessoa decide, executa, realiza na dialética incessante dos elementos que fazem o sistema. Sem o contributo indispensável das neurociências e das ciências cognitivas, a dialética do uno e do múltiplo, ou do sistema e da relação, em Marx, também explicam a relação dialógica, a intersubjetividade, a tomada de decisão, numa equipa de futebol. Em Marx, portanto, numa tomada de decisão, o que importa considerar não é tanto a oposição entre o “fenómeno” e a “essência”, mas a dialética (que nunca é imediata, porque se trata de um processo lento e complexo) que os une – o “fenómeno”, ou o génio e o querer individuais, e a “essência”, ou o sistema, a equipa, o treinador, os jogadores, a totalidade enfim. No desporto, uma equipa (um sistema) não se resume a um conjunto de pessoas, mas a um conjunto de pessoas que se relacionam e entre si comunicam. E tudo isto, no âmbito da circunstância e da historicidade e da processualidade, em que a equipa se desenvolve.

Na sua imediatez, os feitos de um extraordinário atleta podem parecer independentes do sistema (da equipa) a que pertencem. No entanto, se intentarmos explicar e compreender o feito individual, só como resultado de um trabalho de equipa o podemos entender. E lá volto eu a Marx. Desta feita, nos Manuscritos de 1857: “O concreto é concreto, porque é a reunião de muitas determinações, portanto é unidade do diverso”. Colocar no centro de uma análise ao trabalho de um jogador (ou de um treinador, ou de um árbitro) o ego do cogito é não entender que o sujeito é natureza e cultura, é individual e social. Michel Serres, no seu Eclaircissements, escreve: “A partir do momento em que a ciência começa, o sujeito é imediatamente coletivo” (p. 218). Poderíamos dizer o mesmo, em relação ao futebol: a partir do momento em que o jogo começa, o futebolista é imediatamente coletivo. Mas estará o atleta condenado a dissolver o que tem e o que é num coletivo bem próximo do anonimato? Servindo-nos da linguagem de Ortega y Gasset, não se distingue, no desporto, o homem da gente? Importa voltar a José Barata-Moura: “O coletivo, em sentido estrito, é um modo exigente de organização e de funcionamento de uma pluralidade de indivíduos, para o equacionamento e o desempenho de tarefas determinadas. O colectivo não é pois uma coisa detentora de uma identidade acabada, cristalizada, definida em algum momento de uma vez por todas, mas um processo, no decorrer do qual se forja uma nova qualidade de actuação teórica e de intervenção prática” (opus cit., p. 297). E não é uma identidade acabada, porque uma equipa é o resultado concreto da vontade, da inteligência, do trabalho dos vários elementos que a compõem. Uma equipa transforma-se, assim, no espaço ideal à criatividade dos jogadores. Um coletivo desenvolve-se, quando ajuda os jogadores a desenvolver-se. Por isso, um jogador, mesmo que seja um superdotado, não é um absoluto, porque sem a dialética jogador-equipa o jogador não se entende. Fora do contexto relacional, onde a comunicação parece elemento central, não há lugar para ele manifestar a sua singularidade.

Vivemos, hoje, em “sociedades em rede”. Em todos os segmentos da sociedade, a organização em rede é “conditio sine qua non” de mais eficácia, de mais conhecimento. “As redes de comunicação, que moldaram a nova economia, não transmitem somente informações sobre transações financeiras e oportunidades de investimento, mas contam também com redes globais de notícias, artes, ciências, diversões e outras expressões culturais. Também essas expressões foram profundamente transformadas pela Revolução da Informática” (Fritjof Capra, As conexões ocultas – ciência para uma vida sustentável, Cultrix, São Paulo, 2011, p. 163). Na tese 6 sobre Feuerbach, Karl Marx (1818-1883) já dizia: “a essência do homem, na sua realidade, é o conjunto das relações sociais”. Enfim, tudo é sistema... incluindo a seleção nacional portuguesa! Incluindo os golos de Ronaldo, mesmo que de excecional execução técnica.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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comentários

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biel2
23-06-2016 11:46
Ó prof. Desculpe não conseguir ler o seu Artigo, comecei a ler e entrou-me uma dor de cabeça que tive de desistir. É muita areia para a camioneta, podia simplificar mais um pouco. O Artigo é monótono que se farta, sem qualquer interesse para a Seleção e para a tugalhada em geral.

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