SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
Eduardo Monteiro
Espaço Universidade
FIBA segue o exemplo da NBA e entra no mercado chinês (artigo de Eduardo Monteiro, 4)
13:08 - 21-06-2016
Eduardo Monteiro
O Basquetebol não é uma novidade recente na China porque, apenas quatro anos após ser inventado por James Naismith (1891), os missionários do YMCA introduziram o jogo da “bola ao cesto” em diversas actividades recreativas realizadas em Shangai.

A Chinese Basketball Association (CBA) foi fundada em 1956, mas só em 1995 é que a sua liga profissional foi criada com o aparecimento de clubes nos principais centros provinciais e o recrutamento de alguns jogadores estrangeiros. Entretanto, as coisas não correram bem, em termos financeiros, pelo que tiveram que arrepiar caminho e começar a investir na formação de jogadores e a introduzir tectos salariais, como forma de assegurar a sustentabilidade financeira dos clubes.

A liga CBA foi evoluindo ao longo dos anos sendo, actualmente, disputada por 20 clubes profissionais, tendo nela actuado alguns jogadores da NBA, em fim de carreira ou quando se encontravam sem trabalho, tais como: Greg Oden (Jiangsu Dragons), Dorell Wright (Chongquing Dragons), Bonzi Wells (Shanxi Zhongyu), Michael Beasley (Shanghai Sharks), Steve Francis (Beijing Ducks), Chris Andersen (Shanghai Sharks), Al Harrington (Fujian Sturgeons), J.R.Smith (Zhejiang Bulls), Gilbert Arenas (Shanghai Sharks), Ron Artest (Sichuan Whales), Tracy McGrady (Quingdao Eagles) e Stephon Marbury (Beijing Ducks). O ex-jogador dos New York Knicks, Marbury é a grande atração da liga chinesa, não só pelos títulos conquistados, mas também pela liderança da lista dos melhores marcadores.

Quando o chinês Yao Ming (2,29 m) começou a jogar, em 2002, pela equipa dos Houston Rockets, a liga profissional americana tornou-se muito popular na China, não só pelos 30 milhões de espectadores que, regularmente, assistiam às transmissões televisivas dos jogos da equipa da sua estrela, como pelos muitos milhões de visitantes do site “NBA.com”, o que conduziu à inevitável criação duma versão chinesa (NBA.com/China). Face a esta realidade, a NBA percebeu, de imediato, que era o momento certo para entrar em força no mercado chinês. Assim, constituiu uma empresa NBA/China para tratar dos seus interesses em diversas áreas e abriu as duas primeiras lojas/NBA fora dos USA.

O efeito de ídolo de Yao Ming, num país tão populoso como a China, e a sua exemplar imagem de excelente jogador de exemplar profissionalismo e dedicação ao clube teve um tremendo impacto, em termos de marketing, atraindo as principais marcas à escala mundial relacionadas com o mundo do desporto. Em consequência, Yao Ming, para além do seu fabuloso ordenado como jogador, ainda ganhava cerca de 150 milhões de dólares em receitas de publicidade.

A retirada precoce de Yao Ming das competições da NBA, em 2011, devido a lesões crónicas, ao contrário do que se previa, não teve um efeito negativo no mercado chinês atendendo à base alargada de praticantes e apaixonados pelo basquetebol que progressivamente foi sendo conquistada. O basquetebol é, actualmente, o desporto mais praticado na China.

Após a retirada de Yao Ming, surgiu outro jovem jogador da Universidade de Harvard, de seu nome Jeremy Ling, americano de nascença mas filho de um casal de emigrantes chineses de Taiwan, que provocou novamente o delírio dos apaixonados chineses pelo basquetebol da NBA. Enquanto Ming representou sempre a equipa de Houston, Lin iniciou a sua carreira profissional nos Golden States Warriors, jogando de seguida nos New York Knicks, Houston Rockets, Los Angeles Lakers e actualmente nos Charlotte Hornets. A sua influência no mercado chinês tem sido mais ao nível do merchandise da NBA.

Recentemente, numa cerimónia realizada em Pequim, foi institucionalizado o Comité Organizador Local (LOC) do FIBA Basketball World Cup 2019, numa cerimónia presidida pelo Vice Ministro do Desporto da China, Gao Zhidan; Vice Mayor de Pequim, Zhang Jiandong e do Secretário Geral da FIBA, Patrick Baumann. O Campeonato do Mundo de Basquetebol FIBA 2019 vai decorrer nas cidades de Pequim, Nanjing, Shangai, Wuhan, Guangzhou, Shenzhen, Foshan e Dongguan, de 31 de Agosto a 15 de Setembro de 2019. Curiosamente, os responsáveis máximos pela organização do evento serão o Ministro do Desporto da China e o Mayor de Beijing.

A fase final da competição terá, o número record de 32 selecções nacionais. A competição decorrerá com um novo sistema que terá o seu início, a nível continental, em Novembro de 2017. De acordo com a regulamentação específica das provas internacionais, a selecção masculina da China será a primeira equipa apurada na qualidade de país organizador do evento.

A equipa masculina nacional chinesa tem uma larga experiência internacional tendo vencido por 16 vezes o FIBA Ásia Cup, prova máxima do continente asiático, seguida a longa distância pelas Filipinas (5), Irão (3), Coreia (2) e Japão (2). No que concerne aos campeonatos mundiais esteve presente em oito ocasiões tendo obtido boas classificações. Em relação aos Eventos Olímpicos participou nos Jogos de Los Angeles (1984), Seul (1988), Barcelona (1992), Atlanta (1996), Sydney (2000), Atenas (2004), Beijing (2008), Londres (2012) e está apurada para o Rio de Janeiro (2016). Um palmarés impressionante para o melhor basquetebol, de sempre, do continente asiático.

A FIBA também aproveitou a tomada de posse do Comité Organizador (LOC) para anunciar a abertura de delegações em Beijing, Guangzhou e Nanjing que servirão de apoio à organização do campeonato do mundo, assim como assegurar a legalização da presença da FIBA na China. Em consonância com este espírito empresarial a Federação Internacional de Basquetebol começou, de imediato, a retirar os dividendos da atribuição da organização do FIBA World Cup 2019 à China. Poucos dias depois, na sede da FIBA em Mies, na Suíça, foi assinado um acordo, a longo prazo, de colaboração empresarial com a multinacional chinesa Wanda, que passará a explorar em exclusivo e à escala mundial, os direitos de imagem, marketing, sponsorização e licenciamento de todos os campeonatos continentais e mundiais. Trata-se de uma parceria de longa duração, envolvendo quatro ciclos de campeonatos do mundo, ou seja, até 2033.

Como se costuma dizer, não há ponto sem nó e, neste caso, a FIBA concretizou um triplo numa excelente jogada com a maior empresa chinesa na área comercial, cultural e financeira com lucros estimados, em 1975, na ordem dos 50 biliões de dólares. Através desta parceria a FIBA fica em boas condições logísticas e financeiras para melhorar o desenvolvimento da modalidade em todo o planeta, proporcionando às federações nacionais apoios mais solidários para a valorização humana, através do basquetebol. A acontecer esperamos que Portugal os saiba utilizar em benefício do basquetebol nacional.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

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