DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
Gustavo Pires
Olimpismo
Olimpíadas, Jogos Olímpicos & Ciclos Olímpicos (artigo de Gustavo Pires, 37)
19:48 - 13-06-2016
Gustavo Pires
No discurso comum, muito dele produzido nos mais diversos órgãos de comunicação social e até nos de carácter desportivo, os conceitos de Olimpíada, Jogos Olímpicos e Ciclo Olímpico são, amiúdas vezes, utilizados com pouco rigor, quando não de forma absolutamente deturpada. Acontece que a palavra Olimpíada é repetidamente confundida com Jogos Olímpicos e Ciclo Olímpico que, sob o ponto de vista conceptual, são conceitos completamente diferentes.

De acordo com a história do Movimento Olímpico e aquilo que está estatuído na Carta Olímpica uma coisa é uma Olimpíada e outra, os Jogos Olímpicos. Contudo, com cada vez mais frequência, se ouve dizer “as Olimpíadas do Rio de Janeiro” em vez de: os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Os brasileiros, erradamente, para designar os Jogos Olímpicos usam a palavra Olimpíada. Por exemplo, o portal “Lance.com” em 09/06/2016 dizia: “Veja quem serão os principais desfalques da Olimpíada do Rio - Jogos Rio-2016 terá a ausência de grandes nomes do esporte mundial”. Eles, na sua criatividade, vão atrás da língua inglesa quando esta diz “the olimpics of Rio” muito embora não seja a mesma coisa. Porque, uma coisa é “the Olympics” e o portal do COI até utiliza as expressões “summer Olympics” e “winter olympics” e outra, bem diferente, “the Olympiad”, quer dizer, “a Olimpíada”.

De uma maneira geral, a expressão “a olimpíada” tem vindo, erradamente e cada vez com mais frequência, a ser utilizada para referir os Jogos Olímpicos. E é o que, inacreditavelmente, se vê em alguns portais de Comités Olímpicos Nacionais de língua portuguesa que, entre outros “equívocos de palmatória”, utilizam a expressão “II Olimpíada da Juventude de Inverno” quando, na verdade, deviam escrever “Jogos Olímpicos da Juventude”. E tanto mais que “Youth Olympic Games” é a expressão utilizada não só no logotipo da organização como pelo próprio Comité Olímpico Internacional (COI), como se pode verificar no seu portal. Os Comités Olímpicos Nacionais, enquanto guardiões da cultura olímpica nos respetivos países, deviam prestar mais atenção aos aspetos relativos à cultura olímpica sob pena de se transformarem em simples Comités de Alta Competição.

Então o que é uma Olimpíada?

Para Pierre de Coubertin a palavra Olimpíada tinha um sentido global e os Jogos Olímpicos eram o ponto mais alto da “Celebração da Olimpíada”, expressão que ele utilizava com frequência para designar os próprios Jogos Olímpicos. Quer dizer, a “Celebração da Olimpíada”, para Coubertin, significava os Jogos Olímpicos. Assim, na generalidade do seu discurso, a palavra Olimpíada expressa o processo de desenvolvimento do Movimento Olímpico durante um período de quatro anos.

Acresce que, à semelhança da Grécia antiga, para Coubertin, os Jogos Olímpicos celebravam-se numa cidade, contudo, a Olimpíada era celebrada no país e, na sua visão internacionalista, em todos os países. Por exemplo, numa circular dirigida aos membros do COI enviada em 30 de abril de 1903 Coubertin escrevia: “A transferência dos Jogos Olímpicos de 1904 de Chicago para Saint Louis foi acolhida com um grande entusiasmo nos Estados Unidos e nós permitimo-nos acreditar que a Olimpíada americana será celebrada com todo o brilho desejável”. Já no final da sua vida (Coubertin faleceu no dia 2 de setembro de 1937), aos microfones da rádio, num célebre discurso que proferiu no encerramento dos Jogos Olímpicos de Berlim, disse: “Certifiquem-se que a chama sagrada será mantida!... Os Jogos da XI Olimpíada, em breve, não passarão de recordações possantes e diversificadas!…” Quer dizer, o que interessava era manter a “chama sagrada” durante a Olimpíada porque os Jogos Olímpicos não eram mais do que o ponto mais alto da respetiva Olimpíada.

Muito embora a designação Carta Olímpica só tenha começado a ser utilizada a partir de 1978, até então, os documentos correspondentes eram intitulados de diversas maneiras: Regras Olímpicas; Regulamentos Olímpicos; Protocolos Olímpicos, etc.). Em conformidade, aquela que é considerada a primeira Carta Olímpica foi publicada em 1908 sob o título de “Annuaire du Comité International Olympique”. Neste primeiro documento (de pouca ou nenhuma qualidade) as ideias de Olimpíada e Jogos Olímpicos são utilizadas de forma pouco clara pelo que se pode deduzir que, efetivamente, o seu autor tinha dificuldade e diferenciar os conceitos. O Anuário de 1911, de alguma maneira, corrigiu a situação ao indicar as Olimpíadas da era moderna até então vividas que começaram a ser identificadas pelo nome da cidade onde se celebram os Jogos Olímpicos. Por exemplo: I Olimpíada de Atenas (1896); II Olimpíada de Paris (1900); II Olimpíada de São Luís (1904); IV Olimpíada de Londres 1908; V Olimpíada de Estocolmo (1912). Ao fazê-lo, estabeleceu uma separação nítida entre o conceito de Olimpíada e o de Jogos Olímpicos.

Devido à Grande Guerra (1914-1918) só em 1920 surgiu um novo documento intitulado “Comité International Olympique” devidamente estruturado com os estatutos da instituição que, no 5º capítulo, intitulado “Reglements Relatifs a la Célébration des Olympiades”, determina as condições da organização dos Jogos Olímpicos. E, deste modo, o documento esclareceu que a “celebração da Olimpíada” era consumada com a organização dos Jogos Olímpicos. E acrescentava: “Pode-se não celebrar uma Olimpíada, mas nem a ordem nem os intervalos podem ser mudados”.

Quatro anos depois, a Carta Olímpica de 1924 acrescentou uma informação fundamental. Diz ela que “os Jogos Olímpicos deverão, necessariamente, acontecer durante o primeiro ano da Olimpíada que estão destinados a celebrar: 1924 a VIIIª Olimpíada; 1928 IXª; e 1932 a Xª Olimpíada”. Ora, isto significa que a 1ª Olimpíada começou no dia 1 de Janeiro de 1896 e terminou no dia 31 de dezembro de 1899. Esta perspetiva manteve-se até 1979.

Os problemas começam com a Carta Olímpica editada em 1979 quando, ao pretender-se esclarecer o discurso que vinha da Carta Olímpica do ano anterior, no nº 2, intitulado “Princípios Fundamentais do Olimpismo”, especifica-se que: “O termo Olimpíada designa o período de quatro anos consecutivos que precedem os Jogos”. Este discurso, completamente errado, manteve-se nas edições seguintes da Carta Olímpica até que a editada em 1991 reforçou a confusão instalada quando, no nº 10, determinou que: “O termo Olimpíada designa o período de quatro anos consecutivos que começam com os Jogos Olímpicos e terminam com a abertura dos Jogos da Olimpíada seguinte”. A partir deste discurso, começou-se, erradamente, a dizer que uma Olimpíada era o período de quatro anos que decorria entre dois Jogos Olímpicos de Verão. Ora, a ser assim considerado, a primeira Olimpíada, a de Atenas (1896), nunca existiu. Esta situação manteve-se até à Carta Olímpica de 2003 que repete: “o termo ‘olimpíada’ designa o período de quatro anos sucessivos. A Olimpíada começa com a abertura de uma edição dos Jogos da Olimpíada e termina com a abertura da edição seguinte”
.
Entretanto, a ordem das ideias foi reestabelecida com a edição da Carta Olímpica de 1 de setembro de 2004 onde, no texto de aplicação da Regra 6, se esclarece claramente que:

(1º) “Uma Olimpíada é o período de quatro anos civis consecutivos, que começa no dia 1 de janeiro do primeiro ano e termina no 31 de dezembro do quarto ano; (2º) As Olimpíadas contam a partir dos primeiros Jogos da Olimpíada celebrados em Atenas em 1896. A XXIX Olimpíada começará no dia 1 de janeiro de 2008; (3º) Os Jogos Olímpicos de inverno são numerados de acordo com a ordem da sua ocorrência”. Depois, a Regra 33, relativa à “Celebração dos Jogos Olímpicos, no seu, nº 1 diz: Os Jogos da Olimpíada são celebrados durante o primeiro ano de uma Olimpíada, os Jogos Olímpicos de Inverno durante o terceiro ano da Olimpíada.

O estatuído na edição da Carta Olímpica de 2004 manteve-se nas sucessivas Cartas Olímpicas até à que está atualmente em vigor, editada em 2 de agosto de 2015. Assim sendo, a XXX Olimpíada começou no dia 1 de janeiro de 2012 e acabou no dia 31 de Dezembro de 2015. A 1 de janeiro de 2016 começou a XXXI Olimpíada do Rio de Janeiro que perdurará até ao dia 31 de dezembro de 2019 porque, a 1 de janeiro de 2020, começará a Olimpíada Tóquio. De acordo com o que tinha sido estatuído em 1920, independentemente dos Jogos Olímpicos serem, ou não, celebrados, a contagem das Olimpíadas deve prosseguir como aconteceu em 1916, em 1940 e em 1944. Portanto, hoje, a questão do conceito de Olimpíada, está perfeitamente esclarecida.

Quanto aos Jogos Olímpicos, Coubertin, em 1934, numa mensagem à juventude americana por ocasião do 40º aniversário do restabelecimento das Olimpíadas, teve a oportunidade de esclarecer a sua conceção de Jogos Olímpicos. Disse ele: “Os Jogos Olímpicos quadrienais são necessários e adequados para manter um justo nível de espírito de emulação entre as nações”. A Carta Olímpica de 1920 tinha ficado esclarecido que “os Jogos Olímpicos reúnem os amadores de todas as nações numa base de igualdade tão perfeita quanto possível”. Entretanto, desde a Carta Olímpica de 1956 que ficou claro que “os Jogos são competições entre indivíduos e não entre países”. Esta situação manteve-se até à edição da Carta Olímpica de 1 de setembro de 2004 que também desencadeou algumas alterações e esclarecimentos que vieram clarificar a situação relativamente à definição de Jogos Olímpicos.

Assim, na sua Regra 6, diz:

(1º) Os Jogos Olímpicos são competições entre atletas, em eventos individuais ou em equipa, e não entre países. Eles reúnem os atletas selecionados pelos respetivos Comités Olímpicos Nacionais (CON), cujas inscrições foram aceites pelo COI. Os atletas concorrem sob a direção técnica da Federação Internacional (FI) em causa. (2º) Os Jogos Olímpicos consistem nos Jogos da Olimpíada e nos Jogos Olímpicos de Inverno. Somente os desportos praticados na neve ou gelo são considerados desportos de inverno. E este discurso, também é o que consta na versão atual da CO (2015). Acresce ainda que, segundo o nº 4 do Texto de Aplicação das Regras 27 e 28, “durante os Jogos Olímpicos os atletas, a equipe de juízes, e outro pessoal são colocados debaixo da responsabilidade do Chefe de Missão…”. Por isso, o nº 5 do mesmo Texto de Aplicação diz que “durante o período dos Jogos Olímpicos o Chefe de Missão reside na Aldeia Olímpica…”.

Finalmente, no que diz respeito ao conceito de Ciclo Olímpico começamos por dizer que nem a expressão nem o conceito fazem parte da Carta Olímpica. Contudo, trata-se de um conceito utilizado nos mais diversos trabalhos jornalísticos ou académicos estabelecendo-se, até, um Ciclo Olímpico para jogos da Olimpíada e outro para os Jogos Olímpicos de Inverno.

Tal como a Olimpíada, o Ciclo Olímpico é, também, constituído por um período de tempo de quatro anos, muito embora os respetivos períodos não sejam coincidentes na medida em que o Ciclo Olímpico decorre desde o final de uns Jogos Olímpicos até ao final dos Jogos Olímpicos imediatamente seguintes. Representa, por isso, um ciclo de planeamento (que podem ser vários Ciclos Olímpicos) que deve começar com um planeamento e previsional e acabar com um relatório de resultados. Nestes termos o “Programa de Preparação Olímpica Rio de 2016 e Jogos Olímpicos 2020 e 2024” (Diário da República, 2.ª série — N.º 33 — 17 de fevereiro de 2014) diz o seguinte: Nas Grandes Opções do Plano para 2013, em função da orientação estratégica já definida nas GOP 2012 -2015, Governo estabeleceu o início da execução de um ‘Plano Nacional do Desporto 2012 2024’, instrumento estratégico fundamental de planeamento das políticas desportivas. O espaço temporal do ‘Plano Nacional do Desporto 2012 -2024’ abrange três ciclos olímpicos, sendo 2014 o primeiro ano…”. Para além de qualquer juízo de valor relativamente ao significado do discurso, interessa-nos, tão só, notar a assunção do Ciclo Olímpico como uma unidade temporal estratégica de planeamento no domínio do desporto.

Em conclusão, diremos que os três conceitos, para além da sua singularidade conceptual construída a partir do passado, interagem entre si na construção do Olimpismo do futuro. Por isso, se um Movimento Olímpico Nacional não se assume como uma instituição politicamente independente cuja missão é, naturalmente, fazer do desporto um agente do desenvolvimento humano, assim também, um Comité Olímpico Nacional, que não promove prioritariamente uma forte cultura desportiva de base, não passa de um instrumento ao serviço de uma ideologia política que coloca o desporto a funcionar na lógica da “moral de rebanho”.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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