QUARTA-FEIRA, 26-07-2017, ANO 18, N.º 6388
Eduardo Monteiro
Espaço Universidade
Braço de ferro entre FIBA-Europa e Euroliga Basketball (artigo de Eduardo Monteiro, 1)
16:24 - 06-06-2016
Eduardo Monteiro
O Basquetebol fez parte do Programa Olímpico ainda antes da constituição da Federação Internacional de Basquetebol Amador (FIBA). Esta foi fundada a 18 de Junho 1932, na cidade de Genebra (Suíça). Portugal foi um dos países fundadores juntamente com a Argentina, Checoslováquia, Grécia, Itália, Letónia, Roménia e Suíça.

Entretanto, em 1989 a FIBA passou a ser Federação Internacional de Basquetebol, desaparecendo a palavra amador, mantendo a mesma sigla FIBA, em virtude da elegibilidade dos jogadores profissionais nos Jogos Olímpicos o que veio a acontecer em 1992 nos Jogos de Barcelona.
Em virtude da FIBA sempre ter estado localizada na Europa, em Genebra de 1932-1956; em Munique de 1956-2002; e, novamente, em Genebra desde 2002 esta instituição sempre assumiu a organização de todas actividades do basquetebol no continente europeu. Borislav Stankovic o jugoslavo secretário-geral da FIBA de 1956 a 2002 foi o grande timoneiro e principal agente do desenvolvimento do basquetebol na Europa.

Nos países europeus ocidentais, por força do aparecimento de legislação regulamentar sobre desporto e devido ao interesse dos clubes, foram criadas ligas nacionais para fazerem a gestão interna das provas das equipas com jogadores profissionais. Na sequência da implementação destes organismos, em 1991, as principais ligas nacionais europeias de basquetebol, a ACB (Espanha), a LEGA (Itália), a HEBA (Grécia), a LCB (Portugal), a BLB (Bélgica), a BBL (Inglaterra), a LNB (França), a LNBA (Suiça) e a BBL (Alemanha) fundaram a União das Ligas Europeias de Basquetebol (ULEB). Algumas destas ligas nacionais possuem enorme prestígio além fronteiras sendo consideradas das melhores a nível mundial, logo atrás da NBA, como é o caso da ACB, da nossa visinha Espanha. Em Portugal, tivemos a Liga dos Clubes de Basquetebol (1995-2008) que foi encerrada sob pressão da própria federação que entendia que não existiam condições económicas no país para a sua manutenção. Atualmente, com a federação em falência técnica, há já alguns anos, o actual presidente já anunciou que seria bom para o basquetebol nacional a recuperação da liga dos clubes.

Na época desportiva de 2000/01, alguns dos mais prestigiados clubes europeus de basquetebol, não satisfeitos com o sistema organizativo das provas na Europa, juntaram-se e criaram a Euroliga. À época, a institucionalização de um novo modelo de competição entre clubes profissionais de desportos colectivos, foi uma “pedrada no charco”, tanto mais porque se tratava duma organização privada à imagem da NBA. A principal empresa europeia de telecomunicações “Telefónica” avançou como patrocinadora assumindo a responsabilidade da promoção e distribuição dos direitos de transmissão televisiva da “Euroleague Basketball”. Participaram 24 clubes no primeiro campeonato da Euroleague o qual foi transmitido por 15 estações de televisão de diferentes países. O primeiro jogo realizou-se entre o Real Madrid e o Olympiacos duas potências do basquetebol europeu ao nível de clubes.

Na época seguinte o título foi disputado na cidade italiana de Bolonha. Para o efeito, foi adoptado o sistema “Final Four” utilizado, com enorme êxito, nos campeonatos universitários dos USA (NCAA). Entretanto, ficou decidido que as “Final Four” seguintes se organizariam em sistema rotativo nas principais cidades europeias.

Outro aspeto a revelar a dinâmica que a Euroliga trouxe ao basquetebol Europeu foi a organização em 2003, coincidindo com a “Final Four”, um Torneio Internacional Junior com a participação das melhores equipas do continente. Foi, também, criada uma segunda prova de clubes denominada “Eurocup” que se tornou, imediatamente, a segunda melhor competição entre clubes.

Estas competições foram evoluindo ao longo dos anos com grande êxito não só desportivo como administrativo: inovação no marketing; conquista de novos mercados; consolidação das receitas; aumento das transmissões televisivas; cuidados especiais com a imagem. Actualmente, o grande patrocinador da Euroliga é a empresa turca de aviação, pelo que a competição é designada por Turkish Airlines Euroleague. Nesta prova participam as 24 melhores equipas de basquetebol da Europa selecionadas através de um ranking aprovado pela ULEB e desenvolvido em função de exigentes critérios de qualidade. Na Eurocup, a segunda competição em termos de qualidade e prestígio, estão envolvidas 36 equipas de um leque alargado de países com um nível competitivo elevado e rigoroso.

Entretanto, os actuais dirigentes da FIBA-Europa parece que não estão muito satisfeitos com a evolução do basquetebol europeu ao nível de clubes, pelo que resolveram criar uma outra competição para rivalizar com as que já existem alegando que a Euroliga Basketball utiliza práticas anti-competitivas embora não especifique quais são essas práticas. Depois de defraudadas algumas tentativas de aliciamento das ligas que tem acordos com a Euroliga resolveram, pura e simplesmente, suspender 14 Federações Nacionais relativamente ao direito de participação nas competições organizadas pela FIBA-Europa, com destaque para a Espanhola que, na qualidade de Campeã da Europa e Vice campeã Olímpica, não poderia participar no Eurobasket-2017 e nos JO-Rio 2016.

Um tribunal de Munique diz que a FIBA não pode excluir as selecções nacionais das competições internacionais nem tão pouco sancionar ligas profissionais ou clubes. O mesmo tribunal refere que podem ser aplicadas multas administrativas e de prisão aos dirigentes executivos por sancionar ou ameaçar com sanções os clubes, federações nacionais, ligas nacionais ou supranacionais por cooperar com a Euroliga. Em consequência, a FIBA-Europa recuou e anulou incompreensível suspensão das seleções nacionais.

Entretanto, a Euroliga, numa atitude de boa vontade, tornou pública a sua intenção de alcançar um entendimento com a FIBA-Europa desde que não aconteçam pressões nem sanções e se respeite a liberdade dos clubes escolherem em que competições desejam participar.

Existe por parte da FIBA-Europa um nítido aproveitamento do trabalho desenvolvido pela Euroliga que, durante quinze anos com os clubes europeus promoveu e fez desenvolver o basquetebol. Na realidade, toda esta situação provocada pelo organismo de cúpula do basquetebol europeu lançando o caos na modalidade não é apenas uma tentativa de afirmação de poder sobre a corporação desportiva mas fundamentalmente sobre o modelo empresarial de sucesso instituído pela Euroliga.

Cada vez mais se verifica que há um desfasamento na formação dos agentes desportivos que ainda não compreenderam que o processo de globalização em curso está a transformar a natureza do desporto. E o grande drama é que a legislação vigente no espaço europeu obriga treinadores, árbitros, juízes, fisioterapeutas e médicos a serem licenciados ou diplomados para exercerem as suas funções profissionais enquanto, para o desempenho das funções de dirigente nada lhes é exigido. Por isso, não se admirem da ocorrência de situações como esta ou semelhantes no mundo do desporto.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e Seleções Nacionais

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