QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Para um novo comentador desportivo (artigo de Manuel Sérgio, 144)
17:44 - 05-06-2016
Manuel Sérgio
O clubismo desportivo nem sempre permite que um jogador ou um treinador agradem a toda a gente. Mas não deixa de ser intrigante que a mesma pessoa que, para uns é uma besta, seja bestial para outros; que a sua conduta seja aplaudida, com fervor, por uns e rejeitada, com estrépito, por outros; que uns vejam nele um sábio e outros cheguem sempre à conclusão que ele não passa de uma ignorância redonda.

E a discussão amplifica-se nos órgãos da Comunicação Social, através de comentadores, nutridos dos mesmos exacerbamentos dos adeptos de clubismo mais furioso, mais faiscante. No caso do Jorge Jesus, embora os perturbantes antagonismos, podemos concordar todos que se trata de um treinador, com qualidades invulgares ao desempenho da profissão de treinador de futebol. Uma dessas qualidades que eu pretendo realçar: a sua magnífica e rápida “leitura de jogo”. No último Inglaterra-Portugal, a sua presença na televisão, os seus olhos perscrutantes foram uma lição valiosa a quem o viu e a quem o escutou. Para quem como eu é pobre e escreve sem mandos, sem tutelas, sem prestar contas aos patrões que me pagam o vencimento mensal, nada temo ao repetir que o Jorge Jesus está entre os grandes treinadores da história do nosso futebol.

Tem defeitos? Eu tenho, tu tens, ele tem – todos temos! Mas, partindo de um enquadramento sócio-económico de inúmeras limitações, chegou onde poucos chegam e muitos querem chegar. Eu possuo o dom inato de admirar. Não sou, por certo, a pessoa indicada para uma crítica de grande rigor, porque afrouxo o mal e exalto, sem medida, o que é bom. Por outro lado, o facto de ver-me rodeado de pessoas, de ressentida agressividade pelos seus adversários, mais sou tentado e ser como sou. Demais, como se sabe, não sou, nem Benfica, nem Sporting, nem Porto. Nunca o fui, nem serei. Mas (fui) sou amigo de muitos portistas, de muitos sportinguistas, de muitos benfiquistas. Quando sou amigo de alguém, não é pela cor da camisola e mais pelo que fazem do que pelo que dizem.

Dou agora a palavra ao Fernando Namora: “Apenas os medíocres podem fruir as unanimidades, a paz de não terem detractores, estes tanto mais ferozes quanto mais se agiganta o objecto da sua contestação (in A Nave de Pedra). Ora, o Jorge Jesus não é um medíocre. E não o é, porque muito tenha lido, ou estudado, ou pesquisado, mas porque muito viveu e... em alta competição! Já o venho dizendo, há um bom par de anos, que o desporto de alto rendimento, muitas vezes (demasiadas vezes) reproduz e multiplica as taras da sociedade altamente competitiva, que é a nossa. A crise económico-financeira que o mundo, custosamente, atravessa, não se deve ao desconhecimento das leis mais relevantes da economia e das finanças, mas à ausência de ética de uma classe marcadamente exploradora. Com perguntas realmente radicais, a resposta não é outra.

E, assim como não há prática revolucionária sem teoria revolucionária, também não há prática reacionária, sem uma teoria marcadamente reacionária. A. Touraine, no seu Sociologie de l`Action assinala que, na sociedade, “qualquer ação supõe consciência e as práticas exigem orientações e os mecanismos finalidades” (p. 454). Há sempre um interior e um exterior, nas ações dos políticos e dos financeiros e dos capitães da indústria e tudo se faz para que o exterior seja referido, com pacóvia admiração, e do interior nem uma palavra se adiante. Também o desporto atual, mormente o de alto rendimento, exala o interior secreto da classe dominante que nele impera. Não surpreende, portanto, que a corrupção encontre no futebol de alto rendimento um espaço privilegiado. Nem que as boas intenções do Dr. Fernando Gomes, presidente da F.P.F. e pessoa que muito admiro e respeito, pareçam de tão difícil concretização. Sou um homem comum, embora o meu “vício” da leitura constante dos nomes maiores da literatura e da filosofia. Mas, homem comum que sou - mesmo assim, há coisas tão evidentes, se procurarmos para além da superfície dalgumas opiniões...

O futebol não é violento, tem violência; o futebol não é corrupto, tem corrupção. E a “causa das causas” não está, nem nos jogadores, nem nos treinadores, mesmo que alguns, por vezes, não resistam às tentações que os rodeiam e os aliciam. Eles, principalmente os treinadores, deverão considerar-se como especialistas numa especialidade de uma ciência hermenêutico-humana. Mas, como especialidade, com uma linguagem muito precisa, diferente da linguagem do senso comum e com hipóteses e técnicas e métodologias e estratégias e táticas, que não podem confundir-se com as das outras especialidades. Há, no futebol, teorias e práticas que são exclusivamente suas e de mais ninguém. Aqui, isto é, no futebol, escuta-se, com intensidade, um movimento orquestrado de “anticiência”, que permite a qualquer adepto, porque muito ama o seu clube, julgar que domina a matriz tecnocientífica de um jogo de futebol.

Sim, pode haver objetividade no conhecimento comum, mas não há nele a investigação (e até a filosofia) que permite uma evolução mais segura da realidade. A falta de respeito que frequentemente emerge pelo treinador desportivo resulta, em primeiro lugar, da ignorância de quem o critica, incapaz de compreender que se encontra, “a priori” e “a posteriori”, no mundo das ciências habitualmente chamadas “sociais e humanas”. É verdade que, também no futebol, o operacional tende a autonomizar-se, aparecendo como a única instância de legitimidade. E a verdade é que toda a prática precisa de teoria, embora, entre a teoria e a prática, seja a prática a mais relevante. Como R. Thom o assinala, em Esquisse d`une sémiophisique (InterEditions, Paris, 1989): “circunscrita ao operacional, uma ciência parece um cemitério de factos”.

Bem esteve a TVI ao convidar o Jorge Jesus (e poderia fazê-lo, em relação a qualquer outro treinador português de excelência) a comentar o Inglaterra-Portugal. Volto ao tema essencial deste artigo: mostram, indubitavelmente, que são especialistas, numa área do conhecimento, os treinadores desportivos, com um currículo de muitos êxitos. E bem é também que os treinadores portugueses disto tomem consciência, designadamente num tempo em que o nosso futebol, intelectualmente, mentalmente, muito cresceu. “Mais do que em questões técnico-tácticas, o aspecto fundamental em que o futebol latino cresceu muito, nos últimos anos, situa-se no plano mental ou, por outas palavras, na sua maior resistência e fortaleza psicológica, para enfrentar o jogo. Tornou-se mais frio e concentrado, aproximando-se, nesse aspecto, da mentalidade anglo-saxónica” (Luís Freitas Lobo, Planeta do Futebol, Prime Books, Lisboa, 2007, p. 220).

Por outro lado, os treinadores portugueses beneficiam da globalização informacional, que lhes permite o conhecimento das novas práticas de treino e as novas ideias que, pela cultura dos treinadores, podem influenciar o treino. Edgar Morin, no livro de Réda Benkirane, La Complexité – vertiges et promesses(Le Pommier, 2002) assim o diz: “É habitual considerar-se a literatura, a música e o cinema, como luxo ou entretenimento, quando afinal são escolas de compreensão da complexidade humana. De facto, a complexidade humana encontra-se em Balzac, Proust e Dostoievsky. É através das personagens de romances que melhor conhecemos o que, integralmente, valemos e o que somos”. A presença de Jorge Jesus, na televisão, a comentar o Inglaterra-Portugal, pode significar um tempo novo, no comentário aos jogos de futebol? Já temos comentadores, que nunca exerceram a profissão de treinadores de futebol, de muito bom nível, mas que a presença dos treinadores de futebol, na Comunicação Social, se ramifique, neste âmbito, numa sucessão de descobertas insuspeitadas.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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