DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
José Neto
Espaço Universidade
Até que enfim, férias! «e … VIVA PORTUGAL!» (artigo José Neto, 31)
16:15 - 04-06-2016
José Neto
1 - Entre um período competitivo e uma pré época, a periodização do treino desportivo enuncia um tempo de repouso que cognominamos: período transitório ou intervalo de tempo em que não são requeridos esforços ou prestações para a competição.

Geralmente procuramos esquematizar algumas metodologias de trabalho no sentido de que o atleta não fique totalmente desinserido duma manutenção pelo equilíbrio bio funcional. É claro que as percentagens de gordura poderão neste período sofrer algumas alterações, no entanto devemos procurar que não se registem valores de demasiado desconforto; no que respeita aos valores cárdio funcionais e as capacidades físico atléticas devem manter um certo equilíbrio.

Operacionalizando uma metodologia, aconselha-se a que os atletas se libertem da pressão dum ciclo arrasante que a competição determinou, devendo por isso procurar junto da família e do ciclo de amigos, sejam capazes de reporem os índices de cordialidade, reciprocidade de ideias e afetos, fazendo da vida uma generosa fórmula de prazer de a disfrutar.
No entanto, enquanto devem evitar qualquer tipo e ações que possam ser objeto de elevada exigência profissional, poderão utilizar alguns espaços que para além de servirem como elemento de repouso, possam servir de complemento de treino específico de recuperação e preparação para a época que se avizinha.

No caso da praia, realizar algumas caminhadas (descalço) na areia húmida; corrida contínua intervalada por exercícios de flexibilização geral; jogos de raquete, voleibol ou futevoleibol; metodologia de trabalho abdominal e dorso lombar.

Se usar o campo, procurar utilizar zonas bastante arborizadas, selecionando percursos com pisos regulares ou espaços relvados, efetuando corridas contínuas com níveis básicos de endurance.
Associar a este tipo de trabalho a possibilidade de utilizar a piscina, nadando livremente, intervalando com exercícios de recreação com bola e relaxamento muscular.

Também a modalidade de ténis de campo, mini golfe e golfe, podem e devem ser inseridos na metodologia de treino, adaptando exercícios que não sendo tão fatigantes, ajudam a recrear e exercitar movimentos de precisão e atenção localizada, regulação atencional e a manter viva a visualização criativa dos gestos técnicos.

Poderá ainda ser utilizado o ciclismo com o objetivo de mobilizar as fontes aeróbicas de energia e o prazer da descoberta da natureza, sendo possível, acompanhado com um grupo de amigos ou familiares que acabam por enriquecer esse património muito importante de solidariedade que ocasionalmente e por via profissional se encontrou interrompido.

2 - No caso de atletas que, após um desgastante período em que as competições de elevada exigência participativa se vêm inseridos nas convocatórias para as respetivas seleções e que irão participar em provas internacionais (caso do Euro 2016), após um ligeiro tempo de interregno para recuperação, deve-se ter em linha de conta numa fase de retoma inicial uma avaliação de várias componentes, tais como:

- avaliação isocinética – observação de variáveis de força, potência e resistência muscular; avaliação antropométrica – indicadores de massa corporal e pregas cutâneas; avaliação cárdio vascular – registo da capacidade energética; componentes psicológicas e mentais – motivação, ansiedade, coesão, formulação de objetivos, locus de controle, atenção e concentração, etc … sendo que, a partir dos dados observados, devemos sujeitar de forma inicialmente personalizada todas as tentativas de resposta para uma retoma do elevado de estado de forma para voltar a competir.

É claro que jamais deverá ser descurada a metodologia que esteve na base programática do clube de origem, contemplando exercícios por aproximação das cargas de treino em relação ao volume como à intensidade registada, sabendo que o nível mais elevado das capacidades funcionais do organismo se observa no período das 10 - 13 e das 16 - 19 horas, enquanto no referente aos aspetos cognitivos (tático – técnicos) também registam valores de melhor adaptação da parte matutina.

No que se refere à componente atlética, as melhorias de resposta se encontram situados entre as 16 e 18 horas, dado o menor consumo de O2, maior ventilação pulmonar, maior volume sistólico e por conseguinte maior capacidade de superar a fadiga e daí uma maior regulação bio energética.

Ainda a ter em atenção os locais de estágio no concernente ao calor e humidade, sabendo que os atletas suportam uma temperatura de ar muito alta, quando a percentagem da humidade é insignificante. O elevado grau de humidade, associado à temperatura vai condicionar uma diminuição de consumo de oxigénio (podendo chegar aos 33%), a perda de peso por desidratação (pode atingir os 12%), o aumento de lactato e consequente diminuição da capacidade de resposta ao esforço, levando a perturbações de ordem cronobiológica, insónias, irritabilidade e insatisfação do estado de humor.

Quando tudo isto se vê associado aos problemas de deslocações com altas variações de fusos horários, então temos outro problema com necessidade de reorganização de treinos adaptativos, conforme já fui alertando em temas anteriormente expostos.

Um caso de muita atenção a ter em conta é a verificação se os jogadores que regressam dos clubes de origem, que vêm enquadrados doutras rotinas, outros perfis de exigência, diferentes equipas técnicas, se atingiram resultados e rendimentos positivos ou negativos, pois tudo isto poderá influenciar a maior ou menor capacidade de retoma em funções. Sabemos que os objetivos dum rendimento superior conseguido, conduz a melhores desempenhos, são mais desafiadores e perduram mais no tempo.

A competição sucessiva implica nestes casos uma tomada de consciência mais operativa no sentido de atingir o alcance do sucesso, havendo como que um fio condutor de ambição que pode influenciar a performance.

Por último e incidindo a minha atenção para a nossa seleção, que outrora pecou numa ou noutra situação, e que fui publicamente alertando, nomeadamente para os erros de preparação do mundial Coreia Japão (com o estágio em Macau) e no mundial do Brasil (com o forno de Manaus), está devidamente operante para este Europeu. As condições (distância e temperatura muito diferente do atrás referido) e dado que se encontra técnica e cientificamente servida de elementos que nos garantem todas as competências para as exigências que se forem tornado realidade.

Para concluir e no sentido de saudar vivamente todos os responsáveis pela EQUIPA DE TODOS NÓS – NÃO SOMOS 11, SOMOS 11 MILHÕES e porque tenho ao longo do tempo estabelecido uma relação de muita admiração e afeto, deixo algumas notas pessoais ou estratégias com desejo profundo na construção do êxito:

- HONRAR O SENTIMENTO LUSITANO – enquanto o hino se vê entoado no pré jogo, devemos inserir um comportamento de forte concentração de imagens que nos enobrecem e de nós fizeram a história deste “povo valente e imortal” … os guerreiros de Aljubarrota … a descoberta do mundo por mares nunca antes navegados … os cantares ao desafio … o toque alegre e emocionante das concertinas…e tantos outros que nos orgulham… enfatizando todos aqueles trazemos junto ao coração, como âncoras de apoio indestrutível, tudo isto servirá para recriar um sentimento apoteótico em que a crença no sangue que nos deu vida pode potenciar o gérmen anunciador do êxito.

- CONTROLAR SEMPRE OS NÍVEIS DE ANSIEDADE – selecionar os símbolos reguladores de pressão; utilizar técnicas de relaxamento global e específico; ordenar discursos internos positivos com expressões vincadamente a exercer, realçando as melhores técnicas de memorização de imagens que ao longo da carreira foram superiormente qualificadas no êxito alcançado e que se encontram bem definidas no subconsciente de cada qual.

- ENFATIZAR RESPONSABILIDADES INDIVIDUAIS – pode parecer um contrassenso, mas acontece por vezes, quando a responsabilidade é partilhada por todos, a responsabilidade individual tenderá a diminuir. Daí a necessidade da avaliação projetada para a aquisição de rankings individuais e coletivos de sucesso.

- EM CADA TREINO, EM CADA JOGO COMO NA VIDA DE CADA QUAL – a vontade de ganhar tem de ser sempre potenciada de forma positiva e encorajadora. O elemento positivo pode ajudar-nos a esquecer o que devemos evitar e a concentrar no que queremos atingir, sabendo que o desejo de ganhar, nasce com todos nós … a vontade de ganhar é uma questão de treino … a maneira de ganhar é uma questão de honra, para a conquista do futuro. E como diz Victor Hugo - o futuro tem três nomes: para os fracos, é inatingível … para os medíocres, o desconhecido … PARA OS VALENTES, A OPORTUNIDADE.

VIVA PORTUGAL

José Neto

Metodólogo de treino desportivo; mestre em psicologia desportiva; doutorado em ciências do desporto/futebol; formador de treinadores FPF – UEFA; docente universitário.

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