QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Gustavo Pires
Olimpismo
Uma Nova Agenda para o Desporto (artigo de Gustavo Pires, 36)
20:21 - 27-05-2016
Redação
A palavra competição tem vindo a surgir de uma forma inusitada no discurso da política. Em consequência, o mito da competição transformou-se na panaceia com que os políticos pretendem resolver todas as dificuldades do País: Respigamos algumas proclamações do atual primeiro-ministro:

• António Costa quer venda do Novo Banco "o mais competitiva possível" (Negócios, 17/05/2016);

• Nova fábrica em Évora mostra que país é "competitivo", diz António Costa (Lusa 03/02/2016);

• A competitividade já não se ganha discutindo 30 euros no salário mínimo (Observador, 21/04/2016);

• O primeiro-ministro afirmou que investir na qualificação de recursos é "absolutamente crítico" para o sucesso do país porque só por essa via Portugal será competitivo, reafirmando que aquele investimento é a prioridade para a próxima década. (Lusa, 06/05/2016);

• António Costa defende ferrovia até ao centro da Europa para aumentar competitividade (Portal do PS, 29/05/2015).

Claro que Passos Coelho, enquanto primeiro-ministro, afinou o discurso pelo mesmo diapasão.
Entretanto, colocam-se as seguintes questões:

(1º) Um país pode ser competitivo sem ser possuidor de uma cultura de competição?
(2º) Um país pode ser possuidor de uma cultura de competição sem ter uma verdadeira educação desportiva?
(3º) Um país pode ter uma verdadeira educação desportiva sem que exista uma política pública em matéria de desporto minimamente consistente?
(4º) Um país pode ter uma política pública em matéria de desporto minimamente consistente sem um Sistema Desportivo bem organizado e eficientemente coordenado?

(5º) Um país pode ter um Sistema Desportivo bem organizado e eficientemente coordenado quando os órgãos públicos e privados da superestrutura do desporto nacional funcionam em “roda livre” e na mais completa desarticulação à custa do dinheiro dos contribuintes.
Claro que um país pode ser competitivo sem nada disto. Contudo, é bom que se entenda que há competição e competição. Por exemplo, enquanto no estádio olímpico os jovens gregos competiam na luta, na corrida ou nos lançamentos com um objetivo superior que era o da satisfação da sua cidade natal na medida em que era a glória dela que eles desejavam projetar e até as coroas de louros que os juízes lhes colocavam nas cabeças eles as consagravam aos deuses, pelo contrário, no circo romano o sofrimento e as feridas de morte serviam para animar o espetáculo circense num completo desprezo pela vida dos gladiadores entregues às lutas de morte nos combates “damnati ad gladium”, quer dizer, entre os “condenados à arena”.

Por isso, é necessário esclarecer que tipo de competição o Primeiro-ministro deseja para o País.

Acreditamos que o País tem de ser competitivo, todavia, não é qualquer competição que lhe pode interessar. A competição tem antecedentes e consequências. Tanto pode ser: (1º) um constructo social de sinal positivo que, sustentado na educação, proporciona cultura democrática, progresso económico e desenvolvimento social; (2º) como pode ser um constructo social de sinal negativo que desencadeia mentira, alienação, violência social e subdesenvolvimento.

Na realidade, o espírito competitivo inscrito no código genético de cada ser humano é terrível porque é uma arma de dois gumes capaz de gerar tanto conflitos de carácter positivo quanto de carácter negativo. Por isso, a este respeito, para os gregos antigos, a agressividade competitiva era representada por uma deusa dual a que chamavam de Éris. Assim, existiam duas Éris: uma era má já que movida pelos instintos da natureza conduzia os homens às lutas sem sentido geradoras de violência gratuita, de sofrimento, de terror e de morte; a outra era boa na medida em que, de acordo com os padrões da cultura adquirida conduzia os homens nos caminhos de uma competição justa, nobre e leal no sentido da superação pessoal bem como do progresso e do desenvolvimento da comunidade.

É evidente que todos estaremos de acordo em afirmar que a competição a que o Primeiro-ministro António Costa se refere é aquela que é capaz de desencadear desenvolvimento e progresso. O problema é que, como refere Nitezsche no primeiro parágrafo d’ ”A Competição em Homero”, quando se fala de humanidade, parte-se da ideia de que tal significa aquilo que separa e distingue o homem da natureza. Todavia, tal separação não existe ou, pelo menos, não é tão nítida quanto seria de esperar. Quer dizer, no homem, as qualidades naturais que decorrem da sua condição biológica e as qualidades humanas que resultam da sua educação e cultura encontram-se inseparavelmente unidas nos comportamentos manifestados no quotidiano da vida. É neste sentido que dizemos que o desporto deve ser entendido como uma arma de dois gumes pelo que os dirigentes, quer eles sejam político-partidários quer desportivos, encontram-se na situação de terem de decidir onde desejam fundamentar e sustentar os valores éticos e morais do desporto. Onde é que querem afirmar as raízes do desporto moderno? Na cultura grega em que o desporto é envolvido numa práxis competitiva, justa, nobre e leal ou, pelo contrário, na tradição romana, em que é deixada à natureza a liberdade de desencadear os instintos mais primários, numa competição geradora de dor, de sofrimento e de subdesenvolvimento. A este tipo de competição chamou-lhe Nietzsche de “pré-homérica” representada pela loucura da violência vingativa de Aquiles quando, com o seu carro de guerra, arrastou o corpo já sem vida de Heitor ao redor das muralhas de Troia.
O problema é que um exacerbado utilitarismo oportunista que, em muitas circunstâncias, por ignorância ou oportunismo, tomou conta do desporto, tem conduzido alguns dirigentes políticos e desportivos por caminhos que comprometem a imagem que o desporto deve transmitir não só para o próprio desporto como para a sociedade. O que acontece é que, muitas das mensagens que os dirigentes estão a passar para a sociedade não são transmissoras de uma cultura de educação, de conhecimento e de responsabilidade.

O que se solicita aos dirigentes políticos e desportivos, sobretudo àqueles de proveniência política das hostes do “reviralho oriental” é que, perante os casos mais escabrosos de incoerência ético-moral, pedagógica, política e social que estão a corroer a vida desportiva, voltem aos velhos textos de Mao Tsé-Tung quando ele em 1930 afirmava que “sem investigação não se tem direito à palavra”. E explicava que “quando não se investigou sobre um problema, fica-se privado do direito de falar sobre ele. Acaso deverá isso ser considerado muito brutal? Não, de maneira nenhuma. Uma vez que se não se investigou sobre o estado atual e a história de um problema é evidente que, sobre ele, só se podem dizer disparates”. E, noutro texto de 1942 intitulado “Contra o Estilo Estereotipado do Partido” o “grande timoneiro” escrevia que “é irresponsável pegar na caneta e forçar a escrita sem investigação nem estudos prévios” (cf. “Obras Escolhidas de Mao Tsetung. Pequim: Edições de Línguas Estrangeiras, 1975). Desde logo porque, tal como refere o teólogo jesuíta Bernard Lonergan, “uma civilização em declínio cava a sua própria sepultura com uma consistência implacável”. Ora bem, quando hoje olhamos para o que está a acontecer no mundo do desporto temos de chegar à conclusão de que a sua sepultura olímpica está a ser cavada de uma forma consistente e implacável por Comités Olímpicos Nacionais (CON) que, simplesmente, deixaram de ser olímpicos para passarem a ser, exclusivamente, de alto rendimento dedicados ao espetáculo em louvor dos respetivos regimes, sobretudo em países cuja autonomia política, desgraçadamente, não vai muito além dos resultados e espetáculos desportivos das respetivas seleções nacionais nos Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo e Campeonatos Regionais.

Partido Socialista prometeu ao País uma nova “agenda para o desporto”. Por isso, quando o Ministro da Educação colocou em situação de se demitir o Secretário de Estado do Desporto, João Wengorovius Meneses que, sem “saber ler nem escrever” olimpicamente, desejava transformar o desporto num “desígnio nacional”, só nos podemos congratular que Tiago Brandão Rodrigues tenha revelado não só um alto grau de pudor como ter os “pés bem assentes na terra ao mandar regressar o Secretário de Estado a quarteis.

Acreditamos que o Governo ainda está a tempo de o conseguir uma verdadeiramente nova agenda para o desporto, assim o novo Secretário de Estado, João Paulo Rebelo, para além dos corporativismos instalados há demasiados anos no desporto, saiba mobilizar as mais diversas competências necessárias para, paulatinamente, começar a desencadear as reformas de que o desporto nacional necessita para além dos “direitos adquiridos” dos habituais “educadores da classe operária” que através de planos elaborados ao estilo “magister dixit”, num país onde a pobreza atinge quase 30% da população, desejam transformar o desporto num ridículo “desígnio nacional”!

Por isso, quando António Costa afirma que “a competitividade já não se ganha discutindo 30 euros no salário mínimo” estamos completamente de acordo. No entanto, é necessário contrariar a “olímpica fuga ao conhecimento” que tomou conta do desporto nacional. Porque:
(1º) Um país nunca será competitivo enquanto não tiver uma verdadeira (humanista) cultura de competição;

(2º) Um país nunca será possuidor de uma cultura de competição enquanto não tiver uma verdadeira educação desportiva;
(3º) Um país nunca terá uma verdadeira educação desportiva enquanto não tiver, em matéria de desporto, uma política pública minimamente consistente;

(4º) Um país nunca terá uma política pública em matéria de desporto minimamente consistente enquanto não tiver um Sistema Desportivo bem organizado e eficientemente coordenado;

(5º) Um país nunca terá um Sistema Desportivo bem organizado e eficientemente coordenado enquanto os órgãos públicos e privados da superestrutura do desporto nacional funcionarem em “roda livre” e na mais completa desarticulação.

António Costa tem revelado que se não está zangado com o desporto, pelo menos, parece. Deixa transparecer a ideia de que, para além de não acreditar no desporto, desconfia dele. Faz mal, porque o desporto, à parte de qualquer desígnio nacional ao estilo “magister dixit” mais ou menos idiota, pode e deve ser um excelente meio de promoção educativa, económica e social dos portugueses e do País. Assim o Governos saiba desencadear os mecanismos necessários à construção da prometida “nova agenda”.


Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

NOTÍCIAS RELACIONADAS

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de OLIMPISMO

Olimpismo A Assembleia Plenária do Comité Olímpico de Portugal aprovou em setembro de 2016, alterações aos seus Estatutos propostos pela Comissão Executiva. Uma única associada daquela instituição fez propostas concretas, formais e atempadas de melhoria do do
Olimpismo A imaginação grega criou numerosas e belas lendas para explicar a origem dos Jogos, contudo não se conhece a data precisa em que se celebravam os mesmos, segundo o calendário atual. O que se sabe é que se celebravam durante o Verão, na época de in

destaques