SEXTA-FEIRA, 26-05-2017, ANO 18, N.º 6327
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Mais uma idade da sofística? (artigo de Manuel Sérgio, 140)
16:35 - 09-05-2016
Manuel Sérgio
“A natureza crítica e polémica da filosofia vai produzir todos os seus efeitos, a partir do século V, antes de Cristo, em Atenas. Esta é uma cidade democrática, onde reina uma ampla liberdade da palavra. O acesso ao poder e às responsabilidades políticas é só condicionado pela arte do discurso e pela habilidade na discussão, pela capacidade de inventar e de apresentar argumentos, a favor da tese que se defende e objeções contra as teses dos adversários.

A filosofia nascente encontra, neste contexto, uma função socialmente interessante e lucrativa: os sofistas ensinam aos jovens atenienses ricos a arte de convencer e seduzir pela palavra. A retórica, como teoria e prática de argumentação que visa, não a descoberta da verdade, mas convencer um auditório ou triunfar numa discussão, acabava de nascer” (Gilbert Hottois, De la rennaissance à la postmodernité, p. 15).O próprio Sócrates, contemporâneo e adversário dos sofistas, nada escreveu, os seus ensinamentos foram exclusivamente orais. As suas ideias chegaram até nós, pelos escritos de dois dos seus discípulos: o historiador Xenofonte e o filósofo Platão. Mas será que nós não vivemos, hoje, uma nova idade da sofística? Recordo que, em 1961 (tinha eu 28 anos de idade) e frequentava o primeiro ano do curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, quando o saudoso Padre Manuel Antunes, professor da disciplina de História da Cultura Clássica, nos aconselhava a leitura do livro (que nós, alunos, comprávamos em tradução castelhana do Fondo de Cultura Economica) Paideia – los ideales de la cultura griega. Tenho esse livro diante de mim e posso citá-lo: “os sofistas consideram a sua arte, a retórica, como a coroa de todas as artes” (p. 274). Daí, a celebérrima frase de Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”. O mesmo sofista que defendia não poder provar-se a existência de Deus.

E nasce assim uma oralidade desbordante, um fundo ceticismo, o relativismo epistemológico e a indiferença por qualquer noção de Verdade e de Absoluto. Será de não esquecer, neste interim, que a Grécia Antiga desconhecia a distinção moderna entre cultura e religião. Mas volto à interrogação: será que não vivemos hoje uma nova idade da sofística? Julgo bem que sim. E não estou só. Como nos adversários acrimoniosos de Sócrates: a mesma forma luxuriante a mascarar a falta de conteúdo; o mesmo desnorte, diante da infinita complexidade do real; o mesmo nivelamento social, onde não há respeito e admiração por nada nem por ninguém; a mesma patética afirmação do mais atrevido individualismo, do mais cego clubismo; a mesma cultura sem raízes e, daí, os instintos à solta da vontade de poder, da agressividade, de um sensualismo sem freios; a mesma demagogia (hoje, ampliada pelas mais sofisticadas publicidade e propaganda) geradora de alienações sem conta e de todo o tipo de conformismos sociais e mentais. E uma questão se levanta imediatamente: será possível, assim, informar e formar, com rigor, quando o excesso de informação se transforma, demasiadas vezes, em sub-informação? É possível informar segundo a verdade, num tempo como o nosso, onde a mentira, a parcialidade e a hipocrisia são poder e levantam restrições constantes à informação correta das ideias e dos factos? É possível acreditar na Informação, “tout court”, quando nela surgem, com o ar mais seráfico, os exploradores do irracional, adiantando suspeitas, bolsando injúrias, proclamando meias-verdades, de acordo com o que de mais irracional existe na condição humana? Como os sofistas da Grécia Antiga, também vivemos em democracia (e bem mais ampla e profunda do que a deles). Mas não é certo que hoje, mais do que nunca, o amor do sensacionalismo e do escândalo, a necessidade de “vender papel” a qualquer preço, a força dos interesses estabelecidos podem conduzir ao “corrumpere et corrumpi” (como diria o velho Tácito) isto é, a ser-se corrupto e corruptor?
Não escondo que é evidente, em grande parte dos jornalistas e colaboradores da Imprensa e das redes sociais, a preocupação da Verdade. Subsistem na Informação círculos insubornáveis e que, por isso, lutam contra os tentáculos poderosos do Ter e do Poder (os “panama papers” assim o atestam) mas admito que, pela violência verbal utilizada, pela dureza, pela astúcia e pela força dos interesses que servem, alguns deem a sensação de integrarem as grandes centrais de manipulação da opinião pública. Mais do que noutras épocas, a violência aparece instalada na Informação, achincalhando pessoas de méritos irrecusáveis, ou espalhando sistematicamente sementes de fanatismo, de ódio e de vingança. O mundo hodierno precisa tanto de anunciadores de um Futuro justo, convivente e fraterno como dispensa os jactanciosos, os gabarolas, incapazes de admirar as qualidades dos seus adversários e ainda os partidários de um Passado ou de um Presente indesejáveis. Vicente del Bosque tem a propósito dos jogadores e treinadores, de uma vaidade imensa, ideias muito precisas: “Todos queremos ganar. En el deporte, en el fútbol, en la vida, todos buscamos resultados. Pero también debemos trasladar la ética y la buena conducta personal. Es más apreciado y valorado un buen perdedor que aquel que gana de manera soberbia o vanidosa. Pues eso no dura nada. El mal ganador no tiene recorrido. Un ganador tonto, estúpido, siempre es peor que aquel al que le toca perder y lo sabe hacer. En la derrota también se aprende. La derrota también es didáctica” (Ganar y Perder – la fortaleza emocional, p. 87). Volto ao Padre Manuel Antunes: “Ser profeta da realidade móvel e complexa, que é a realidade humana desenvolvendo-se na História, é descobrir a verdade das situações concretas de justiça ou injustiça e é também apontar os sentidos possíveis da sua superação” (Educação e Sociedade, p. 66). E o possível não pode confundir-se com o idealismo adocicado das boas intenções, nem com as banalidades das opiniões mais em voga , nem com acusações irresponsáveis e apaixonadas.

Benfica e Sporting completam, no próximo domingo, o Nacional de Futebol da Primeira Divisão, separados por um número reduzidíssimo de pontos. Se nos quedarmos por uma análise meramente pontual, as duas equipas foram muito iguais e merecem o aplauso pelo brilho das suas atuações, nesta competição. Os jogadores e os seus treinadores, Rui Vitória e Jorge Jesus, mostraram um valor incontroverso e, além do mais, a razão por que as suas equipas patenteiam uma tão sólida cultura tática. Aos dirigentes, mormente os dirigentes dos grandes clubes, peço licença para lembrar que não são os explosivos, os violentos, os chefes de sentimentos arrebatados – não são esses os líderes dos grandes momentos históricos, mas aqueles que conservam a calma e a lucidez, quando os que os rodeiam parecem perturbados, desnorteados, confusos. Benfica ou Sporting, um dos dois, será o próximo campeão nacional de futebol. Gostaria de ter uma tão grande estatura intelectual e moral, que pudesse saudá-los, neste momento, como merecem. Inclino-me ainda respeitoso, perante a memória dos homens excecionais que os criaram, sonhando que assim serviam o Desporto e a Pátria. E que se abracem afetuosamente, se os homens de hoje, do Benfica e do Sporting, já o não souberem fazer.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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