DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
Gustavo Pires
Olimpismo
A Fundação do Comité Olímpico de Portugal: 30 de Abril de 1912 (artigo de Gustavo Pires, 34)
20:41 - 27-04-2016
Parafraseando Friedrich Nietzsche diremos que o homem moderno (dirigente, político ou desportivo) é um ser, em todos os sentidos, obcecado pelo infinito futuro. O problema é que ele, na sua obsessão, esquece o passado. Em consequência, tal como Aquiles na metáfora de Zenão, nunca conseguirá “alcançar a tartaruga”.

O dramático equívoco relativo à data da fundação do Comité Olímpico Português (COP) trata-se de um equívoco historiográfico mas, também, e, sobretudo, de um equívoco epistemológico relativamente aos protagonistas e às circunstâncias em que, a 30 de abril de 1912, foi fundado o COP. Contudo, apesar de terem sido vários os investigadores, tais como Orlando Azinhais, Sequeira Andrade, Carlos Cardoso, Rodrigo Pinto, Monge da Silva, João Marreiros que, desde o primeiro momento em que o erro, em finais dos anos setenta, começou a ser cometido, alertaram para a falsidade da situação, contudo, os dirigentes desportivos e políticos, envolvidos num discurso politicamente correto e estrategicamente conveniente, tomados pelo mal de “hybris” e, obcecados pelo infinito futuro, têm vindo a conviver com uma situação que, para além de não dignificar a instituição, não honra aqueles que, em Portugal, desencadearam a institucionalização do Movimento Olímpico moderno.

Na linha de Ortega y Gasset somos de opinião de que, mesmo no desporto, alguém só se deve permitir a si próprio ter uma opinião sobre determinado assunto depois de o estudar profundamente e, sobre ele, refletir com seriedade. De uma maneira geral, acerca da data da fundação do COP, os decisores que em finais dos anos setenta promoveram a sua alteração, não estudaram nem refletiram seriamente sobre o assunto, pelo que basearam as suas decisões motivados por um sentido meramente utilitarista de oportunidade e pressionados por um inapropriado sentido de urgência.

Faz falta a existência de uma comunidade que, de uma forma franca, aberta e competente, reflita os problemas do desenvolvimento do desporto em Portugal e, a partir da história, da cultura e das circunstâncias, económicas, sociais e políticas do próprio País, aponte os possíveis caminhos para a organização de um futuro partilhado. O desporto nacional não pode continuar a ser administrado por dirigentes políticos completamente ignorantes e, em consequência, por dirigentes desportivos em funcionarem em “roda livre”, sobretudo porque está em jogo o dinheiro dos contribuintes, a qualidade de vida dos portugueses e o futuro das novas gerações.

Da situação relativa à data da fundação do COP, tendo em conta investigação realizada, decorrem duas conclusões de ordem geral:

1. A fundação do COP, antes de ser uma questão cronológica, é uma questão epistemológica pelo que deve ser entendida à luz da dialética de conflito que, desde finais do século XIX, envolve os conceitos de educação física e de desporto;

2. Tendo em atenção a cronologia dos acontecimentos e os novos factos apurados desde a abertura dos arquivos do COP, a data da fundação da instituição só pode ser a de 30 de abril de 1912.

Postas estas duas conclusões de ordem geral, da investigação realizada decorrem, ainda, as seguintes conclusões de ordem específica:

1. A institucionalização do Movimento Desportivo em Portugal ficou-se a dever ao entusiasmo do Rei D. Carlos e da Família Real que se empenhou afincadamente não só na prática desportiva como, também, na promoção e apadrinhamento das mais diversas atividades e eventos desportivos;

2. O entusiasmo do Rei D. Carlos pelas coisas do desporto levou-o, a pedido de Pierre de Coubertin, a indicar o médico António Lancastre para membro do Comité Olímpico Internacional. Então, António Lancastre respondeu ao convite de Pierre de Coubertin com uma carta, datada de 9 de junho de 1906, em que diz aceitar a representação dos interesses do COI em Portugal. Esta é a data da institucionalização do Movimento Olímpico (MO) em Portugal e D. Carlos o verdadeiro patrono do Movimento Olímpico português;

3. A fundação do COP deve ser entendida como um ato singular de geração espontânea desencadeado pelos conflitos decorrentes das diferenças teórico-práticas (epistemológicas) entre os prosélitos da educação física e os do desporto que se confrontavam ideologicamente através de dois sistemas radicalmente adversos: (1º) a educação física consubstanciada nos sistemas sueco e alemão de ginástica e; (2º) o desporto desencadeado por Pierre de Coubertin através de um sistema competitivo organizado à escala mundial sob a tutela do Comité Olímpico Internacional (COI);

4. Aquando da fundação do COP, os adeptos da educação física provenientes de uma elite formada pelos médicos, os militares e os professores de ginástica não desejava ter nada a ver com a prática desportiva livre e espontânea do desporto que não controlavam. Contudo, entre os desportistas, também existiam elementos provenientes, económica, social e culturalmente da média e alta burguesia que, como Aníbal Pinheiro, entre outros, tinha relações privilegiadas não só com o mundo da educação física onde pontuavam a ginástica sueca e a alemã bem como com o do desporto;

5. A disputa entre a educação física e o desporto, à semelhança daquilo que se passava em França, foi intermediada pelos jornais, sobretudo os desportivos que tratavam a questão ou, sem se aperceberem da conflitualidade epistemológica entre ambas as atividades, ou fazendo com que cada uma delas tirasse partido da outra. Por um lado, o desporto procurava captar o reconhecimento científico da SPEFN e nada mais; por outro lado, a educação física procurava captar o êxito social do desporto e nada mais.

6. É nas contradições da luta entre a educação física e o desporto que devem ser entendidos os Jogos Olímpicos Nacionais realizados a partir de 1910 que significavam coisas diferentes para os diferentes protagonistas;

7. Na linha da rutura do desporto relativamente à educação física, desencadeada por Pierre de Coubertin a partir de 1897 no Congresso Olímpico do Havre, decorre que, para a determinação da data da fundação do COP, pouco ou nada interessa a data da fundação da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional (SPEFN) uma vez que esta entidade, em termos ideológicos, não só não tinha nada a ver como não queria ter nada a ver nem com o desporto nem com o Movimento Olímpico anunciado por Coubertin em 1892 e desencadeado a partir do Primeiro Congresso Olímpico realizado em Paris em 1894 que fundou o “Comité International des Jeux Olympiques”;

8. Na completa ausência de vocação para com o modelo desportivo e a participação de uma Missão portuguesa nos JO de Estocolmo (1912) a SPEFN estava é interessada em, relativamente à educação física escolar, responder às solicitações do Governo da República instituída em 5 de outubro de 1910;

9. À SPEFN nada lhe dizia a preparação de uma Missão portuguesa a estar presente nos JO de Estocolmo que se realizariam em 1912;

10. À margem da SPEFN o COP foi fundado por um conjunto de prosélitos do desporto por intervenção indireta de Pierre de Coubertin através de Johanéss Dalbanne redator da revista “L’Éducation Physique” que pediu a Manuel Egreja (um português prosélito do desporto) para se encarregar da fundação do COP condição “sine qua non” para que uma Missão portuguesa pudesse estar presente nos JO de Estocolmo (1912);

11. Se não tivesse sido enviada uma Missão aos JO de Estocolmo (1912), devido à Iª Grande Guerra que rebentaria em 1914, os portugueses só teriam tido, pela primeira vez, a oportunidade de participar nuns JO em 1920, nos JO de Anvers (1920);

12. Nas suas duas edições conhecidas, os Estatutos da SPEFN, que nada tinham a ver com o modelo desportivo de Coubertin, consubstanciavam um discurso sociopedagógico da ginástica em geral e da ginástica educativa em particular cuja substância e objetivos nada tinham a ver com o discurso da competição, da medida, do recorde e dos Jogos Olímpicos que envolvia os prosélitos do desporto;

13. A fundação do COP a 30 de abril de 1912 foi inequivocamente anunciada na edição de 4 de maio de 1912 da revista “Os Sports Ilustrados”;

14. Associar a fundação do COP à fundação da SPEFN, para além das questões historiográficas, é um erro epistemológico só possível a quem nunca estudou com profundidade a história do desporto nacional;

15. Na edição de 1911 dos estatutos da SPEFN constava uma insignificante Comissão de Desportos (entenda-se jogos recreativos) que, na edição de 1913, foi, simplesmente, extinta;

16. Os médicos, os militares e os professores de ginástica, suportados na ginástica sueca e na ginástica alemã, desejavam, por motivos corporativos, tão só, institucionalizar a disciplina de educação física no sistema de ensino público, como acabou por acontecer;

17. O ano de 1912, como sendo o ano da fundação do COP, foi respeitado até 1978 tendo, até, o cinquentenário da instituição sido comemorado em 1962. A questão da data da fundação do COP só foi levantada em 1979 quando, em Portugal, se tomou conhecimento do artigo “Portugal and Olympism” publicado em 1978 no número 129 da “Olympic Review”, onde a fundação do COP apareceu associada à SPEFN e à sua pretensa data de fundação, a 26 de outubro de 1912;

18. O cinquentenário do COP foi comemorado em 1962 na presidência de Nobre Guedes que, para o efeito, mandou fazer uma placa comemorativa em que as datas 1912-1962 estão bem expressas;

19. A Placa (1912-1962), na quantidade de cem exemplares foi profusamente distribuía a entidades nacionais e estrangeiras, após decisão da Comissão executiva do COP conforme constas nas suas atas, através de ofícios que podem ser consultados no CEO de Lausana;

20. A própria Placa (1912-1962) faz parte do espólio do Museu Olímpico do COI com sede em Lausana;

21. A comemoração do cinquentenário do COP, para além de estar referenciada na Placa (1912-1962) também consta das atas da Comissão Executiva e do Plenário da instituição;

22. Fernando Machado é a figura central de todo o processo da alteração da data da fundação do COP na medida em que tendo, na qualidade de tesoureiro, participado nos trabalhos de comemoração do cinquentenário do COP em 1962, aderiu à tese da sua fundação em 1909 sem referir ao Presidente Salles Grade e, depois, ao Presidente Lima Belo o facto, dele próprio, ter participado na comemoração do cinquentenário do COP em 1962;

23. Embora à margem do processo da investigação realizada, também fica claro que a data de 26 de outubro de 1909 atribuída à fundação da SPEFN não é verdadeira, pelo que a que consta nos estatutos do COP está duplamente errada;

24. Monique Berlioux (1923-1915), enquanto Diretora-geral do COI, participou de uma forma absolutamente incompreensível no processo de alteração da data da fundação do COP contribuindo, empenhadamente, para a confusão que se viria a gerar;

25. A troca de correspondência entre Fernando Machado e Monique Berlioux em finais de 1979 revela quanto o processo de alteração da data de fundação do COP foi conduzido de uma forma absolutamente inaceitável e irresponsável. E tanto mais inaceitável e irresponsável quanto se sabe que a mesma não foi conhecida até que foi denunciada por Sequeira Andrade;

26. Reconhecemos que Fernando Machado, depois de fazer um longo percurso de trabalho no COP, sempre em posições subalternas ou de imediato, com toda a justiça, acalentava a esperança de, um dia, poder assumir uma verdadeira posição de prestígio que lhe seria conferida pelo estatuto de membro do COI;

27. Lima Bello, enquanto presidente do COP, numa situação de “não retorno”, ficou perante o facto consumado de ter de comemorar o 75º aniversário da instituição em 1984, portanto com três anos de antecedência. Apesar dos avisos de, entre outros, Orlando Azinhais, Sequeira Andrade e Carlos Cardoso de que as coisas não batiam certo, incompreensivelmente, decidiu optar pela tese de Fernando Machado;

28. E, Lima Bello assumindo a encenação que foi a troca de correspondência entre Fernando Machado e Monique Berlioux disse: “consultámos o COI e a resposta foi 26 de outubro de 1909”. Contudo, a correspondência não foi trocada entre o COP e o COI. Bem vistas as coisas, foi trocada entre Fernando Machado e Monique Berlioux. E, assim, alteraram-se quase oitenta anos de história do MO nacional;

29. A resposta do COI (leia-se Monique Berlioux), relativamente à data da fundação do COP, baseou-se na informação que próprio COP (leia-se Fernando Machado), uns meses antes, enviara para o COI;

30. Estamos em crer que Fernando Machado agiu conforme julgava serem os melhores interesses do COP. Pelos textos pouco profundos e pouco rigorosos acerca de vários assuntos relacionados com o MO estamos, ainda, em crer que Fernando Machado não se apercebeu do grave significado não só do esquecimento relativo aos acontecimentos que marcaram o cinquentenário do COP que ele viveu empenhadamente em 1962, bem como da estranha carta que, na qualidade de tesoureiro do COP, escreveu a Monique Berlioux Diretora do COI;

31. Perante a imagem simples, dedicada e apagada que sobressai da figura de Fernando Machado acreditamos até que ele procedeu absolutamente convencido de que estava a agir em defesa dos melhores interesses do COP. O problema é que estava profundamente enganado;

32. Do mesmo, modo estamos convencidos que Monique Berlioux, uma mulher extraordinária, a única mulher que algum dia teve ou terá verdadeiramente poder no COI, agiu, simplesmente, de maneira a satisfazer o pedido de alguém com o prestígio de Fernando Machado com quem ela tinha uma relação de grande consideração;

Perante esta situação coloca-se a pergunta óbvia: O que fazer?

33. As datas são sagradas porque estão ligadas às pessoas e às suas posições perante os outros, os acontecimentos e a vida. Relacionam com rituais de vida, de morte e de passagem que dão sentido cultural à existência das comunidades humanas. Quer dizer, dão significado àquilo que os homens e, através deles, as organizações vão construindo ao longo dos tempos;

34. Por isso, quer os atuais, quer os futuros dirigentes do COP queiram quer não, o COP foi fundado a 30 de abril de 1912;
35. Como conclusão final tomamos as palavras de Duarte Rodrigues, Diretor Técnico da revista Tiro e Sport quando diz que a data da fundação do COP:

“… se trata de uma data sagrada porque foi ela que permitiu que um grupo de jovens, por vontade própria e da população portuguesa que os apoiou, estivesse pela primeira vez presente numa edição moderna dos Jogos Olímpicos, um certame que, ao tempo, já era considerado como um dos mais espetaculares acontecimentos realizados à escala do Planeta, o qual, infelizmente, ficou marcado pela morte de Francisco Lázaro”.

Por tudo isto, ignorar a data de 30 de Abril de 1912 é deturpar o cenário da verdadeira institucionalização do desporto e do MO moderno em Portugal. É ignorar um acontecimento que ocorreu a partir da vida das pessoas que o protagonizaram e das causas que abraçaram, em razão do prestígio de Portugal. É desprezar uma memória coletiva e defraudar expetativas partilhadas relativamente à organização do futuro.
Ora, uma instituição cujos dirigentes, por ignorância ou desfaçatez, não são capazes de respeitar o passado que eles próprios escreveram nas atas da instituição, jamais serão capazes de construir o futuro. Uma instituição sem um passado presente, pode continuar a existir, mas sem qualquer futuro à vista a menos que os dirigentes do COP decidam que é tempo de Ulisses vencer a tartaruga.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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