QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Filhos e enteados (artigo de José Antunes de Sousa, 41)
10:11 - 09-04-2016
José Antunes de Sousa
Dois factos, melhor, duas circunstâncias motivam meu pobre comentário desta semana: a Champions League e a Premier League: a primeira, pelo que de atávica e despudorada discriminação sugere e, a segunda, pelo modelo de democracia das possibilidades que tão exemplarmente exibe.

Mas comecemos cá por casa – que são sérios os motivos de apreensão se atentarmos nos caminhos que o futebol doméstico teima em trilhar: os autoproclamados grandes, com a sua alvar avidez, precipitaram-se sobre o bolo e, lambuzados, raparam tudo, tendo deixado aos outros pouco mais que a traiçoeira fava! Foi isto que aconteceu, com os recentes acordos assinados com essas modernas máquinas de sucção e fomento dos vícios civilizacionais desta doente sociedade moderna que são as as ubíquas empresas de comunicações. E com tão chocante espectáculo de gula e usura, foi o piedoso – e hipócrita – projecto da Liga de garantir uma distribuição equitativa das receitas provenientes das transmissões televisivas que foi, uma vez mais, às malvas!

Ora, com um desequilíbrio crónico e estrutural como o que vai caracterizando este inefável e misterioso futebol neste «nosso jardim à beira-mar plantado», temo que os deuses se cansem desta miraculosa ginástica e nos abandonem ao nosso temido destino dos restos e da côdea. Sim, que o simulacro patético de um pobre armado em grande dá por altura do entrudo, mas é quase certo que não dá para o ano inteiro – que chega sempre um momento em que a máscara se solta e cai no meio da praça.

Mas esta mania de armar em grande não é exclusivo nosso: os exemplos vêm de cima. Veja-se o que se passa no aparelhamento dos duelos nesta fase decisiva da Champions League, por exemplo: «no me creo en brujas, pero que las hay, las hay». No mínimo abundam coincidências que, pela sua frequência, o mínimo que fazem é sugerir, na mente desconfiada do povão, uma renitente atitude de suspeita. Sim, se olharmos para o que se passou com o Benfica, por exemplo (que, diga-se, deveria ser considerado um grande da Europa, só que o critério avaliativo se alterou, passando a ser o dos milhões, não importa a sua proveniência) nas sua últimas frustrações na Liga Europa, salta à vista que isto é uma questão de filhos e enteados: uns, os filhos, recebem os favores da predilecção da paterna autoridade, enquanto os outros, os coitados que têm o azar de serem filhos do outro ou da outra, se têm que contentar com o suprema e única honra de participar na festa, tal como zelosa e afectuosamente programada.

Admira lá que em Camp Nou, por exemplo, com o senhor todo-poderoso aflito, o árbitro tenha, de dedo em riste, apontado a direcção do chuveiro a um dos mais irrequietos e perturbadores rapazes de rua que ameaçavam uma vitória que tardava?

Ou que admiração que, na Allianz Arena, aquela bola impertinente roçando o braço do Lahm tenha sido candidamente considerada um casual e ingénuo capricho das leis da física e contra as quais que poderia o inocente jogador bávaro fazer? Nada, claro: porque a lógica do futebol teratológico de hoje não se cumpre no território do que deve ser, mas no território pantanoso do que pode ser – e quem pode determina! Porquê? Porque sim, porque tem que ser!

No futebol moderno vivemos num clima bafiento e pesado, se calhar à espera que soprem novos ventos do Panamá, de um intolerável determinismo oligárquico: o bolo sempre na mesa dos mesmos – dos que têm mais dinheiro para o comprar.

Por isso, a previsão, que é também uma confissão, de Rummenigge, dando como certa uma semi-final entre o Barça e o seu Bayern só pode surpreender os mais distraídos. Só que, ironia, entre estes é possível que estejam alguns dos presunçosos de uma grandeza que, pelos sinais dos tempos, tende cada vez mais a ser uma grandeza volátil e mais repartida – como acabam de demonstrar o Wolfsburgo, o Atlético de Madrid e o próprio Benfica.

E, já agora, apesar de haver quem pense tratar-se de uma receita lapalissiana, eu insisto: O Benfica se optar por gerir as suas expectativas com base na aritmética, isto é, na percentagem que o cálculo de probabilidades sugere, perderá, mas se se centrar exclusivamente em si, numa motivação endógena, as sua hipóteses de seguir em frente aumentarão consideravelmente e se equilibrarão com as do seu adversário. Convém, a propósito, lembrar que as equipas felizes têm mais hipóteses de ganhar – e o Benfica dá toda a sensação de ser, nesta altura, uma equipa feliz – como o aparenta ser a do Sporting, ao contrário do Porto, que parece uma equipa triste e descrente!

Mas há um exemplo, não seria capaz de afiançar se bom se mau, mas indiscutivelmente eficaz, espectacular e único – o da Premier League. Para ilustrar a impressividade deste insular exemplo, bastaria invocar o arrasador fenómeno que dá pelo nome de Leicester City FC, treinado pelo italiano Claudio Ranieri – nome de príncipe, que foi rei...

Quem ousaria, aquando do arranque de tão rija competição, augurar que uma equipa que ainda há pouco andava, aflita, na roda viva do sobe-e-desce, estaria, a meia dúzia de jornadas do fim, instalado confortavelmente na liderança com sete pontos de avanço sobre históricos e crónicos candidatos ao ceptro do futebol do Reino de Sua Majestade?

Razões: para lá do nada negligenciável efeito surpresa, o valor do técnico e o valor técnico do plantel que, atenção, só foi possível assegurar porque o clube, apesar de menos renomado, foi contemplado com verbas provenientes do bolo televisivo que lhe permitiram que se equipasse com as asas do sonho – que vai certamente concretizar!

Ou seja, em contraponto com o que se pratica por aí fora, e aqui dentro deste nosso país que, xenófilo, só é ligeiro em copiar o que de lá fora se nos faça conveniente cá dentro, na Inglaterra, fazendo jus à sua condição de democracia mais antiga da Europa, encontramos a chave para a viabilização de um futebol simultaneamente de multidões e de massas, com competições completamente abertas e rijamente disputadas, factos que garantem os ingredientes típicos da sua perenidade: rivalidade, cavalheirismo e paixão. É a democratização do poder!

Só aqui, no Brasil, encontro paralelo no que respeita à democratização do trono, mas o futebol deste admirável e amado país tem as suas especificidades que prometo abordar numa próxima oportunidade.

Insisto, entretanto: não estou, nem poderia estar em condições de garantir que seja um modelo de virtude o exemplo britânico, mas lá que funciona disso não há qualquer dúvida – além de ser particularmente inspirador para quem tem a função de zelar pelo futuro de tão excitante desporto.

Lição do dia: acabemos com a humilhante discriminação entre filhos e enteados – e que na festa de Natal todos comam do mesmo bolo, numa séria e equitativa distribuição.

Porque só assim os pequenos medrarão – e todos crescerão, incluindo os maiores!

José Antunes de Sousa é Doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile

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