TERÇA-FEIRA, 30-05-2017, ANO 18, N.º 6331
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Homenagem póstuma a Cruyff (artigo de José Antunes de Sousa, 40)
16:55 - 31-03-2016
José Antunes de Sousa
Há em Portugal um dito popular bem sugestivo: «nem o pai morre nem a gente almoça». Como se o pai, assim tão demorado na tarefa de se inutilizar definitivamente, estivesse a condicionar a vida, a única coisa importante para quem assiste – a vida agonizante de alguém, que tarda em sumir, em apagar-se, como estorvo para aqueles que tão tomados estão do impulso inebriante de viver!

Como dizendo: a gente vai fazer-te uma estátua, mas despacha-te! – e quantas estátuas há por esses jardins que são o rumor em pedra do remorso popular pelo desdém quando não o opróbrio a que, em vida essas pessoas, assim recordadas, foram ostensivamente votadas. A vida é madrasta e só a morte é verdadeiramente redentora – assim aconteceu com o Nazareno!

Já o próprio André Malraux dizia que «a morte converte a nossa vida em destino»: talvez porque só a morte nos irmana no destino é que, só depois de morto, acolhemos definitivamente alguém como verdadeiramente humano – ironicamente quando dessa condição se despiu.

Na morte, para lá de nos inventarem virtudes, estas são amplificadas até ao sem-limite de uma generosa imaginação dos que ainda ficam: a morte é o mais eficaz instrumento social de individual santificação – post-mortem, claro!

Curioso, mas é mesmo assim. E se lhe acrescentarmos alguma distância no tempo, veremos como essa admiração, assim socializada, se mitifica e se impõe com particular cintilância. Se o concurso que elegeu há um par de anos Salazar como o português mais importante da nossa História tivesse sido efectuado com ele vivo, garanto que não teria sido ele o vencedor – ele ganhou porque já cá não estava, não foi ele a ganhar mas a ideia que pela imaginação popular à sua volta no colectivo imaginário se estabeleceu. A parte mais negativa dele tinha sido enterrada – só o outro lado, que já dele não era, sobreviveu e se agigantou aos olhos dos que só de longe o viram – como acontece com todo o mito. Convenhamos: a morte é o passadiço da redenção: «e aqueles que se vão da lei da morte libertando».

São conhecidos os favores sociais da morte: quem parte deixa de integrar a constelação incontável de ameaças para os que cá ficam – talvez por isso essa chuva unânime de elogios, louvando-se secretamente esse desembaraço na última e solitária tarefa de partir e deixar caminho livre aos que a volúpia da vida continua a iludir com «tachos» e honrarias. Tanto mais que quem morre é sempre o outro, numa abordagem mais que tudo estatística da morte: ela nada mais é do que mais um a menos. Alguém que queira garantir uma sessão pública de uníssono louvor e aplauso? Que se despache, que morra! Só que não será já ele a gratificar-se com as palmas, mas será uma espécie de exercício de autotranquilização de uma certa má consciência dos que ficam por cá ainda na plateia.

Ao funeral não se vai tanto em atenção ao morto, que já de nada lhe aproveita, como sobretudo em atenção aos vivos – para que nessa condição de vivos – e importantes! – nos vejam e nos confirmem.

Ora, vem tudo isto a propósito de Johan Cruyff, ágil na morte como o fora nos relvados – foi rápido. Já vi mais do que uma personalidade dizer com entusiasmo que, sim, este é que «foi o melhor de sempre». Não quero arriscar, mas não me espantaria que estes fossem os mesmos que dias antes apregoavam que «o Messi é sem dúvida, o melhor da história do futebol»: em que ficamos? Sabemos que é mais cómodo dizer de alguém que foi do que é – mesmo que seja bom aquilo que se diz: o passado é quase sempre um bom refúgio, inclusive para a impunidade!

Mas, falando do genial futebolista holandês (os mais jovens até poderiam pensar que fosse catalão!), vamos ser sinceros: ninguém lhe ligava nenhuma – ou quase. Inclusive muita gente , alguns responsáveis até, do Barcelona, o consideravam um «chato», sempre com aquelas tiradas cáusticas e impertinentes. O próprio Guardiola chegou, segundo creio, a ser alvo das suas críticas, nos seus primeiros tempos de treinador em Camp Nou, no tempo dos lenços brancos – por exemplo, num empate caseiro com o Racing de Santander. Guardiola que se acaba de expressar tão enfaticamente: «quando não sei o que fazer pergunto-me que faria Cruyf». Sim, mas duvido que alguma vez lhe tenha ligado a pedir um conselho.

Acreditem que me encantaria poder ser desmentido pelo próprio Guardiola – seria, além do mais, sinal de que aos seus dotes de poliglota acrescenta o salutar hábito de ler um jornal tão prestigiado como é A Bola. Mas, que dizer eu no meio disto? Nada que se não diga por aí: que foi genial, como o foi Di Stéfano, Pelé, Eusébio, Maradona – e como é Messi ou Cristiano.

Mas quanto ao maior de sempre conviria que arrumássemos o assunto de vez: não se podem comparar fenómenos que, como tais, reflectem contextos diferentes: dois seres únicos não podem ser objecto de comparação entre si, porque a sua unicidade resulta de terem dotes e expressões que ninguém mais tem, pelo menos em grau tão eminente - e a comparação só entre o que é comum aos elementos comparados. Tudo o que nos resta é acentuar as diferenças, as tais que singuralizam cada um, como expressões criativas e artísticas - que, fazendo-o, estamos a celebrar a beleza que se expressa em toda a sua riqueza, nesse jeito particular de cada um.

Se, por exemplo, em Eusébio se expressava excelentemente aquele inimitável jeito felino na sua impetuosa relação com a bola, com o espaço e com a baliza – em contraste com uma desarmante mansidão de cordeiro na sua relação com companheiros e adversários – em Cruyff era mais o dançarino do Teatro Bolshoi que, com a beleza subtil e airosa de um Nureyev – curioso que até eram morfologica e fisionomicamente bastante parecidos! – inundava o campo de um mágico perfume de uma arte sublime – ele integrava, com a naturalidade de uma criança, o movimento da bola no próprio cinetismo corporal como um todo, como se fosse uma melodia. Ele foi, sem dúvida, o maior no seu jeito único de ser génio, como o foi Maradona naquele seu jeito de conjugar circo, eficácia, manha e bailado – tudo em pouco espaço e em movimento. Como, no seu tempo, o fora também o inigualável Pelé naquela sua florentina elegância no trato da bola, aliando criativamente estética e eficácia.

E, entre os actuais, quem há por aí que possa igualar-se a Messi naquele seu jeito mágico e serpentino de, com a bola colada à bota, conduzi-la, em alta rotação, por entre um emaranhado de pernas e enfiá-la na baliza adversária, com a precisão e pontaria de um Tiger Woods?

Mas, por outro lado, quem que possa comparar-se à fogosidade, assumidamente taurina, de um Cristiano Ronaldo que, forte, maciço, ágil e fulminante, sentencia jogos com cirúrgicas estocadas de eficácia e arte?

Enfim, acordemos numa coisa: Eles expressam-se diferentemente na sua arte, mas a partir da mesma genial condição – aí são iguais e incomparáveis, porque a divindade não tem graus!

José Antunes de Sousa é Doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile.

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TigreGange
01-04-2016 09:57
Para mim, a "coroa" de melhor jogador do mundo, até hoje, é bicéfala: 50% - Pelé e 50% - Maradona. A seguir, no patamar precedente, vêm: Cruyff, Van Basten, Garrincha, Messi, Best, Müller, Paul Breitner, Platini, Zidane, Eusébio, C. Ronaldo e mais alguns.
TigreGange
01-04-2016 09:48
Pela primeira vez, discordo analiticamente num ponto, embora percebesse a dimensão da mensagem e o seu vector. Este ponto: pode-se e deve-se comparar dois "astros", possuindo eles, valores e características diferentes, desde que pertençam ao mesmo paradigma, somando-se todas as suas partes.

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