SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Gustavo Pires
Olimpismo
Vergonha Olímpica (artigo de Gustavo Pires, 31)
18:53 - 24-03-2016
Gustavo Pires
Na Roma antiga, à força de contemplarem os espetáculos desportivos, os cidadãos perderam de vista o verdadeiro valor do desporto. Em consequência, o estádio olímpico foi transformado num circo e o atleta grego degenerou num gladiador romano cujo heroísmo servia, tão só, para suprir a mais vil das satisfações humanas, a paixão por ver correr o sangue.

No desporto, hoje, já não corre sangue. Mas corre dinheiro fácil e a rodos que desencadeia a corrupção que o gera. Em conformidade, as mais diversas organizações de âmbito nacional e internacional estão debaixo das maiores suspeitas quando não das maiores acusações. Os recentes escândalos no âmbito da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) que se seguiram aos do Comité Olímpico Internacional (COI) (1999) e aos da Federação Internacional de Futebol (FIFA) (2015) vieram, novamente, colocar na ordem do dia a simples constatação de que o desporto não está bem e, a continuar assim, corre o risco de entrar numa dinâmica de auto destruição.

Na sequência dos escândalos de doping no atletismo, a ADIDAS, fazendo “tábua rasa” do seu próprio passado, segundo Sebastian Coe presidente da IAAF, deu à organização que gere o atletismo em termos internacionais, até ao final do ano para resolver o problema do doping e da corrupção que tomaram conta da modalidade. Na mesma linha de hipocrisia a Nestlé, outro dos patrocinadores da IAAF, resolveu anunciar que terminava o seu patrocínio pelo que deixava de apoiar o programa “Kids Athletics” no valor de cinco milhões de euros.

A corrupção pelo dinheiro e pelo uso de drogas a fim conseguir resultados desportivos já vem da origem dos próprios Jogos Olímpicos na Grécia antiga onde os atletas, para além de corromperem os adversários, utilizavam diversos produtos a fim de ganharem vantagem competitiva. Se na guerra, eram utilizados os mais diversos meios de corrupção e as mais variadas substancias alucinogénias, não custa a crer que também fossem utilizados no desporto onde a violência em modalidades como o pancrácio, catalisada pelos prémios e honrarias, podia chegar ao ponto que partir ossos, deslocar articulações ou arrancar olhos. Portanto, não podemos estranhar que, hoje, o desporto mundial em geral e o russo em particular estejam debaixo de enormes suspeitas relativamente à utilização de uma droga denominada “meldonium” ou “mildronate” que, embora, até ao final de 2015, não fizesse parte da lista das drogas proibidas, contudo, era administrada aos soldados soviéticos que, na década de oitenta, combatiam no Afeganistão, a fim de lhes aumentar a resistência física e psicológica.

Pierre de Coubertin tinha consciência de que o desporto podia derivar para situações, do ponto de vista da dignidade humana, absolutamente inaceitáveis. Por isso, sempre lutou contra uma conceção de desporto exageradamente concebida sob uma perspetiva biológica que facilmente se esquece do homem enquanto ser humano. O problema é que, a referida perspetiva biológica, na impessoalidade das leis científicas que determinam a performance do “homem máquina”, fixa marcas que não permitem senão a comparação das técnicas entre si no domínio organizacional, no dos métodos de treino ou, entre outros, no do apoio médico e dos sistemas de dopagem. Tudo isto tem vindo a acontecer desde os anos setenta e oitenta do século passado na URSS / Rússia, na RDA e, entre outros países, nos EUA. Em 1983, Dou Miller, CEO do Comité Olímpico dos Estados Unidos dizia: "estamos a transformar os nossos atletas em vigaristas e mentirosos. Existe, na realidade, um problema de droga. É altura de tomarmos medidas".

O problema é que, trinta anos depois, Sebastian Coe o atual presidente da IAAF está debaixo de enormes pressões na medida em que não pode alegar que nada sabia não só acerca do doping como da corrupção que, há muito, estava a corroer o corpo e a destruir o espírito da IAAF. E Sebastian Coe, candidamente, diz que é necessário “voltar a ganhar a confiança”, contudo, desde há muito que a IAAF, a FIFA e outras organizações internacionais não são merecedoras de confiança. E até o COI, depois de uma extraordinária liderança de Jacques Rogge, agora, sob a liderança de Thomas Bach e a sua Agenda 2020, corre o risco de voltar aos finais dos anos noventa em que a instituição perdeu toda e qualquer confiança por parte da opinião pública mundial ao ponto do próprio Antonio Samaranch, ao tempo presidente do COI, correr o risco de ser detido para averiguações caso entrasse nos EUA, devido aos escândalos relativos à candidatura (1995) de Salt Lake City aos JO de inverno em 2002.

Infelizmente, hoje, as políticas, tanto públicas como privadas, da generalidade dos países não são merecedoras de qualquer confiança. A ver bem, são portadoras das maiores desconfianças por parte dos cidadãos contribuintes que assistem incrédulos a serem lançados milhões de euros em organizações desportivas cujo único objetivo é transformarem o desporto numa incrível “máquina de guerra” ao serviço do neomercantilismo mais ou menos corrupto que formata a organização política da generalidade dos países. Em consequência, os Comités Olímpicos Nacionais que, de acordo com a Carta Olímpica, deviam trabalhar no sentido de promover a educação e a cultura olímpicas através de programas de generalização da prática desportiva, estão, transformados em Comités de Alta Competição do serviço dos respetivos regimes políticos.

Na linha do pensamento de Pierre de Coubertin diremos que, a fim de preservar os valores fundamentais do desporto e do Movimento Olímpico, é essencial que a avaliação e o controlo dos planos de desenvolvimento do desporto possam, prioritariamente, continuar a considerar os valores fundamentais da condição humana, na medida em que, salvo honrosas exceções, os atletas estão, simplesmente, a ser utilizados como “carne para canhão” ao serviço de dirigentes e de técnicos corruptos e de regimes políticos no mínimo incompetentes. Nestas circunstâncias, na linha do pensamento de Coubertin, é necessário, na dinâmica da euritmia do desenvolvimento, encontrar: a energia da ação; a inquietude da consciência; a lógica da razão; as exigências da vontade; e as tradições da cultura. Porque:

• Se a ação tem a sua energia, a consciência tem as suas inquietudes;
• Se a consciência tem as suas inquietudes, a razão tem a sua lógica;
• Se a razão tem a sua lógica, a vontade tem as suas exigências;
• Se a vontade tem as suas exigências, a cultura tem as suas tradições;
• Se a cultura tem as suas tradições, a ação tem a sua energia.

Esta necessidade é tanto mais premente quanto se sabe que a história recente do desporto, em matéria de corrupção, para além de muita hipocrisia, tem mostrado que a estratégia de resolução do problema não está a resultar. Fundamentalmente porque o uso de substâncias estimulantes no desporto não é uma questão que se resolva com mais sistemas de controlo, mais apertados, mais ameaçadores, a proferirem mais condenações e com sentenças mais pesadas. Com este tipo de procedimentos os problemas podem ser mitigados nas suas consequências contudo, as causas que os desencadeiam continuam intactas.

Em consequência, a IAAF tal como outras Federações Internacionais foram arrastadas para situações absolutamente degradante. Todavia, sem qualquer necessidade na medida em que os sinais, há muito, que anunciavam a tempestade. Em Roma (1960), devido a ter ingerido anfetaminas, o ciclista dinamarquês Knuth Jensen entrou em colapso durante uma corrida, sofreu uma queda fatal devido a fratura de crânio. No México (1968), o penta-atleta Hans-Grünner Liljenwall, de nacionalidade sueca, foi o primeiro atleta a ser desclassificado por uso de drogas, uma vez que testou álcool em excesso.

Em Montreal (1976), as transfusões sanguíneas estiveram na ordem do dia. Em Moscovo (1980), participaram 5923 atletas não se tendo registado qualquer caso de controlo positivo! Em Seul (1988), Ben Johnson testou positivo (esteroides) e teve de devolver a medalha. Em Atlanta (1996), a Irlandesa Michelle Smith conquistou três medalhas na natação. Embora acusada, nada se provou, contudo, em 1998 acabou por ser suspensa devido a ter adulterado uma amostra de urina. Em Atenas (2004), foram detetados 26 casos de doping. Foram considerados os Jogos mais sujos de todos os tempos. Em Pequim (2008), por mais espetaculares que os jogos possam ter sido, não deixarão, por isso, de ficar para a história sob a suspeita de utilização de “sangue de tartaruga”.

Claro que todos estes casos, entre muitos outros, passaram à história. Os dirigentes esqueceram-se deles tal como se esqueceram de Katrin Krabbe, de Diane Modahl, John Ngugi ou, até, dos abortos provocados que se praticavam na ex RDA como forma de aumentar a capacidade atlética das mulheres que competiam em nome da pátria amada. E, hipocrisia das hipocrisias, Ilona Slupianek lançadora de peso da ex RDA, em entrevista ao jornal "El País" de 19/12/89, até dizia que a RDA tinha sido pioneira em acabar com o tabu do sexo, nas atletas de alta competição. Apesar de tudo isto, os JO de Londres (2012), tidos como os Jogos “quase perfeitos”, muito embora tenham tido um saldo financeiro francamente positivo, do ponto de vista desportivo ficaram debaixo de enormes suspeitas:

• Mais de 800 atletas ficaram sob suspeita de terem recorrido a substâncias proibidas;
• Sete britânicos apresentaram testes suspeitos;
• Houve atletas como, por exemplo, a campeã do heptatlo Jessica Ennis-Hill que perderam ao competirem com atletas que ficaram debaixo de suspeitas;
• Dez vencedores de medalhas ficaram sob suspeitas de terem utilizados produtos proibidos;
• Em algumas finais um dos três atletas medalhados ficou debaixo de suspeitas.
• 80% das medalhas ganhas pelos atletas russos são duvidosas;
• O Quénia teve 18 atletas sob suspeitas.

Entretanto, para além da luta política que também é de considerar, os JO de Sochi (2014) continuam sob suspeita e não nos admiramos se ainda vierem a rebentar mais alguns escândalos.

Perante este cenário dantesco, Sebastian Coe que até foi Presidente do Comité Organizador dos JO de Londres (2012) afirma que vai resolver a questão da IAAF. E até anunciou a realização de uma Assembleia Geral Extraordinária no final deste ano com o objetivo de serem discutidas as reformas radicais que ele pretende propor. Perante este propósito a pergunta é: Como é que podem ser discutidas e implementadas reformas por pessoas que, a serem levadas as reformas a bom porto, elas são as primeiras a serem reformadas? Quer dizer, Sebastian Coe, que é um político profissional membro do Partido Conservador, no fundo, prepara-se para mudar alguma coisa para que tudo possa ficar na mesma, até à próxima crise.

A situação que se vive no mundo do desporto é dramática na medida em que as organizações desportivas, para além dos discursos de circunstância dos seus dirigentes, cada vez fazem menos parte ativa do verdadeiro desenvolvimento do desporto. Hoje, os dirigentes da generalidade das organizações da superestrutura desportiva a nível internacional e dos diversos países, com a conivência dos respetivos governos, se não estão, pelo menos, parecem estar mais interessados nas carreiras políticas e nos contratos publicitários que lhes permitem viver numa “torre de marfim”, do que propriamente num verdadeiro processo de desenvolvimento do desporto.

Em consequência, as federações desportivas vivem assoberbadas de burocracias, encargos financeiros e pressões políticas de toda a ordem. Salvo raras exceções, não passam de instrumentos, mais ou menos dóceis, do poder económico e político. Quer dizer, na sociedade neomercantilista em que vivemos, o poder económico e o poder político, enquanto faces da mesma moeda, por ausência de uma cultura democrática, ao gerirem os países à imagem e semelhança de autênticos clubes de amigos, transformam o desporto num simples catalisador de negócios. E como os negócios, embora possam não ser, pelo menos, têm de parecer sérios, após a publicação do segundo relatório da Comissão Independente da Agência Mundial Anti-Doping (WADA), a ADIDAS decidiu dar por findo o seu contrato com a IAAF que, nos últimos onze anos, representou um encaixe de trinta milhões de euros.

É evidente que a ADIDAS, ao longo dos últimos onze anos, não viu nem ouviu nada acerca da corrupção que estava a tomar conta da IAAF! Contudo, o relatório da Comissão Independente da WADA afirmou que a corrupção era uma questão que, simplesmente, “estava incorporada na IAAF”. E, de facto, estava. Por exemplo, Liliya Shobukhova, que ganhou a prova da Maratona nos Jogos Olímpicos de Londres (2012), é acusada de ter pago mais de seiscentos mil dólares a fim de lhe anularem um controlo positivo.

Embora o mundo tenha ficado espantado com a “nobre” atitude da ADIDAS ao retirar o patrocínio à IAAF, contudo, foi por pouco tempo na medida em que a Dentsu que é parceira comercial da IAAF no Japão, conseguiu convencer a ADIDAS a aguentar até ao final do ano, para ver se as coisas se compõem. Claro que a ADIDAS, depois do espetáculo de ética ao anunciar a retirada de apoio à IAAF, agarrou a oportunidade na medida em que, com mais ou menos doping, o espetáculo há-de sempre continuar e a ADIDAS não pode prescindir da visibilidade, da notoriedade e dos lucros que consegue através do atletismo. E, como se impõe nestas situações, o presidente-executivo da ADIDAS de seu nome Herbert Hainer, na reunião anual da empresa, apressou-se a informar os acionistas que as relações com a IAAF, afinal, não haviam terminado. E, por incrível que possa parecer, afirmou: "A IAAF sabe exatamente qual a nossa política em termos de doping. Estamos numa situação de contato muito próximo com a IAAF e vamos ver, muito de perto, o que é que vão fazer a fim de resolver o problema”.

É evidente que estratégias que se limitam a atacar as consequências ignorando as causas jamais poderão desencadear resultados minimamente aceitáveis. Quer dizer, limitam-se a mitigar um problema sem irem à sua verdadeira origem. É um erro de políticas de curto prazo promovidas por políticos de “vistas curtas”. Em vez de trabalharem as causas (inputs) que dão origem aos problemas, limitam-se a, ilusoriamente, pretender controlar as variáveis de saída. Quer dizer, perante a incapacidade das organizações desportivas, os decisores políticos, em vez de atacarem as suas causas, limitam-se a considerar as consequências, com soluções cada vez mais caras, mais policiais, mais moralistas, mais hipócritas e mais inúteis.

Os romanos usavam o sistema “domnatio memoriae” a fim de purificarem a memória dos homens desprezados. Os gregos faziam precisamente o contrário. Os atletas corruptos eram obrigados a erigir nos estádios estatuetas em honra de Zeus. As estatuetas representavam as multas públicas que os prevaricadores eram obrigados a pagar pelas infrações cometidas. Para Pausânias (115-180) geógrafo e viajante grego, autor da “Descrição da Grécia”, os gregos em vez de procurarem esquecer aqueles que prevaricavam nos Jogos, pelo contrário, procuravam que os seus nomes passassem a ser um exemplo daquilo que não se devia fazer. Durante os Jogos Olímpicos de 388 aC um boxeur chamado Eupolus subornou os seus 3 adversários a fim de o deixarem vencer.

O juiz (hellanodikai) ao aperceber-se do assunto multou todos os quatro pugilistas. As multas serviram para pagar um conjunto de estátuas de bronze dedicadas a Zeus. Os gregos chamavam-lhes as Zanes que era o plural de Zeus. Elas, as estátuas, em verso, explicavam os termos em que os atletas tinham prevaricado e falsificado o espírito dos Jogos. E diziam: “as vitórias olímpicas eram para ser obtidas, não pelo dinheiro ou pela trapaça, mas pela destreza dos pés e a força do corpo”. Assim, as estátuas eram erigidas em honra de Zeus, pela piedade dos gregos, a fim de serem o terror dos transgressores.

A sociedade ocidental moderna segue a prática dos gregos. Aqueles que prevaricam, atletas, técnicos e dirigentes desportivos e políticos, sujeitam-se a ver, não em estátuas mas na comunicação social explanados, escalpelizados e até julgados os seus comportamentos menos próprios. O problema é que, agora, nem eles, nem ninguém, lhes liga coisa nenhuma. Deixou de haver vergonha. Como diria Pausânias, deixou de haver vergonha Olímpica.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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