DOMINGO, 25-06-2017, ANO 18, N.º 6357
José Neto
Espaço Universidade
Arbitragem – saber preparar para melhor poder julgar!... (artigo de José Neto, 27)
10:58 - 17-03-2016
José Neto
Na sequência do trabalho publicado anteriormente, convém desde já voltar a referir que a criação e desenvolvimento dos Centros de Treino para Arbitragem teve o seu início a partir da Liga de Clubes (2000), sendo o Presidente da mesma o Major Valentim Loureiro, o Diretor executivo, o Dr José Guilherme Aguiar e o presidente da Comissão de Arbitragem, primeiramente o sr José Luís Tavares, substituído entretanto por Luís Guilherme, sendo a minha pessoa o supervisor dos mesmos centros de treino.

Apraz registar a excelente relação com todos os intervenientes do processo, fazendo do diálogo uma fórmula pedagógica concertada pela exigência no cumprimento de funções.

Para a elaboração do planeamento do treino, analisamos o rendimento do árbitro e do árbitro assistente em vários jogos, de forma a estruturar uma metodologia de treino semanal como garantia de suporte às exigências dos mesmos.

Nessa conformidade, embora os árbitros assumissem o seu plano semanal de treinos 2 vezes por semana, fui apelando para a necessidade de estabelecer um treino diário, dadas as circunstâncias apuradas para o seu estado de forma, em alguns casos bastante aquém da necessidade, sendo mesmo apresentadas as respetivas metodologias.
Relativamente às provas práticas, referindo-me aos testes a ser realizados no início e no decorrer da época, o meu desacordo com as tradicionais provas, que se para alguns se tornavam de uma facilidade de execução, porém para outros, um flagelo, tal era a preocupação com que se vivia nos dias que se lhe antecipavam. Os testes referiam a obrigatoriedade de efetuar 200 metros (32”); 50 metros (7.5”) e o teste de Cooper (correr durante 12’ a distância mínima de 2.800 metros).

O que me parecia ilógico era a realização dos testes com idênticas exigências, quer para árbitros, quer para árbitros assistentes e o uso duma pista de atletismo para a efetuação dos mesmos. Ora isto originava que os treinos incidissem prioritariamente pelos fundamentos do atletismo, usando as pistas como espaço prioritário e, quanto ao campo … só olhando para ele!...

Refleti muito sobre esta diretiva, ordenada pelos responsáveis U.E.F.A. e com base na teoria já explicitada, em que o jogo e as suas exigências é que devem determinar o treino para a obtenção das competências e porque nunca vimos, como tem repetidamente referido o nosso querido Professor Manuel Sérgio, “um pianista melhorar a qualidade musical, correndo apenas à volta do piano … ele tem é de tocar”, propus a realização de novos testes, alterando de forma significativa os seus conteúdos. Anunciavam-se e até começaram a ser executados testes tipo yo – yo, isto é corrida de 20 metros (ida e volta), respondendo a um sinal sonoro e à medida que as distâncias iam sendo percorridas, reduziam-se os tempos de intervalo, vendo-se eliminados quem não conseguisse acompanhar o ritmo.
Para não “fugir “ à responsabilidade de aplicar esta nova base de examinação em provas, tentei aplicar este teste, mas alterando as suas matrizes, isto é, os árbitros e assistentes, teriam que realizar os deslocamentos mas com base naquilo que era mais predominante nas exigências do jogo: deslocamentos à retaguarda, laterais e frontais e com distâncias também variáveis e sobretudo realizados no campo, enquanto os árbitros assistentes junto às linhas laterais, procurando aproximar os árbitros aos seus espaços próprios da ação e que lhes apelidei de “espaços afetivos” de convergência.

Para melhor qualificar o estado de forma física, procurei apurar as percentagens de gordura, através dum simples teste de antropometria e sendo medidas as pregas cutâneas. Para culminar a avaliação das capacidades ao nível da flexibilidade, realizei um teste específico para tal.

Recordo uma aplicação deste exemplo em Janeiro/2012, no Funchal a todos os árbitros e árbitros assistentes internacionais, estando presentes os responsáveis pela arbitragem, juntamente com o presidente da arbitragem da U.E.F.A. Ángel Maria Villar.

Não obstante esta formulação de conteúdos e respetiva fundamentação, vejo surgir um conjunto de novos testes, mas sempre a pista como prioridade: árbitros a efetuar 150 metros a elevada intensidade, seguindo-se 50 metros a caminhar, realizando no total 10 voltas à pista, tendo como tempos de referência 30’’ – 30’’. Quanto aos árbitros assistentes, 75 metros em alta intensidade, seguindo 25 metros a caminhar, tendo como tempos de referência 15” – 20”. Para apurar a capacidade de velocidade, a realização de uma prova, 6x40 metros (5.8”)

Como deixei referido, em desacordo total com este tipo de exigência, uma vez que o árbitro no jogo a isso não se foca na competência. Foi uma das razões para que em 2004/5 se efetuasse o meu afastamento da supervisão dos centros de treino (que ajudei a criar), não obstante outras questões de ordem pessoal, sem interesse a fazer-se constar.

Quero contudo deixar bem explícito que, não obstante desconhecer “a alma” deste sector da arbitragem, foi um tempo de excelente parceria e também de muita aprendizagem pela significativa relação afetiva com que nos envolvemos.

De referir que no final das minhas funções, fiz a entrega na Comissão de Arbitragem da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, de um dossier com cerca de 800 páginas e C.Ds. correspondentes, referentes aos trabalhos desenvolvidos, enunciando algumas críticas passíveis de melhoria.

Perante os valores da experiência obtida e associando algumas orientações ao avanço de outras componentes, como seja a constituição da profissionalização do sector da arbitragem, apresento algumas estratégias que possam valorizar o seu desempenho.

No âmbito dos testes ou provas a ser realizadas, quer no início, quer no decorrer da época, penso que todos os árbitros (especialmente aqueles que arbitram jogos das provas profissionais), deveriam ser submetidos a testes laboratoriais, como seja uma prova de esforço, observação do consumo de VO2 mx, antropometria e avaliação das capacidades motoras e ainda uma avaliação de competências psicológicas e mentais.

No referente às provas de campo, dever-se-ia contemplar o espaço onde o árbitro e árbitro assistente intervém (na diagonal e nas linhas laterais correspondentes), fazendo deslocamentos necessários em velocidade, mas identificando situações críticas que se lhes possam ser colocadas e sujeitas a imediata avaliação da decisão tomada. Isto é, em vez de registar a capacidade de corrida, como se o árbitro fosse apenas um atleta, procurar avaliar a capacidade de intervenção técnica e disciplinar perante uma bateria de exercícios em circuito que a competição contempla e exige.

No que se refere à avaliação de competências psicológicas e mentais, poder-se-iam utilizar alguns instrumentos referentes ao capítulo motivacional, autoconfiança, stress e ansiedade, atenção e concentração, locus control, entre outros.

Em termos de planificação de uma metodologia de treino para um microciclo semanal, poderei anotar a título de exemplo:

2.ª Feira – objetivo geral: Treino de recuperação, dando como exemplo a corrida contínua intervalada por exercícios de flexibilização geral, alongamentos, trabalho respiratório e retorno à calma.

Obs1 - Balneoterapia: banho de imersão, massagem de restabelecimento energético e sauna.
Obs2 - Com a presença dos árbitros assistentes que fizeram parte da equipa de arbitragem, analisar cuidadosamente o vídeo
do jogo efetuado no domingo anterior, procurando fazer uma auto- avaliação de desempenho.
Verificação de objetivos conseguidos e promoção de novos objetivos de conquista.

3.ª Feira – descanso

4.ª Feira – objetivo geral: Treino de força resistência, aplicando uma bateria de exercícios de contração e alongamento muscular, seguindo uma metodologia de treino em circuito com base do trem inferior, médio e superior, terminando com corrida contínua, alongamentos e retorno à calma.
Obs1 - Associar a esta metodologia, um conjunto de exercícios de atenção e concentração e técnicas instrumentais para a superação dos limites.

5.ª Feira – Objetivo geral: arbitragem – tentar realizar uma arbitragem entre equipas federadas ou entre companheiros que vão alternando (jogar/arbitrar). Caso não seja possível encontrar esta solução, realizar séries no campo em deslocamentos diagonais com os árbitros assistentes e criando situações de jogo para imediata solução em conjunto.
Obs1 - Complementar esta unidade de treino com exercícios técnicos de modelagem comportamental e técnicas de relaxamento.

6.ª Feira – Objetivo geral: Treino de velocidade de reação, aceleração e sprint em séries, nos espaços de jogo.
Obs1 - Balneoterapia
Obs2 - Associar o treino de técnicas de atenção e concentração, imaginação e visualização mental e focagem de engenharia ambiental (próximo jogo).
Obs3 - Analisar em vídeo jogos cujos intervenientes façam parte as equipas que serão objeto de arbitragem no jogo para o qual forma nomeados.

Sábado/Domingo - Jogo.

(continua)

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário

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