SEGUNDA-FEIRA, 26-06-2017, ANO 18, N.º 6358
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Os 35 anos do `JL´ (artigo de Manuel Sérgio, 131)
17:09 - 15-03-2016
«Com esta edição, o JL completa 35 anos de vida. Não de uma espécie de vida irregular, com desvios de percurso, mudanças de orientação, alterações de periodicidade (passando a ser mais espaçada) ou interrupções de publicação pelo meio – como infelizmente acontece muito, com revistas e jornais da área cultural, mesmo de existência incomparavelmente mais curta do que a nossa. Não, o nº. 1 do JL, jornal de letras, artes e ideias saiu a 3 de Março de 1981, como quinzenário, e até hoje, vamos no nº. 1185, sempre se manteve rigorosamente fiel aos valores e objetivos, que levaram à sua criação.»

O que transcrevo é do Editorial de José Carlos de Vasconcelos, diretor do JL, sua “alma mater” e um intelectual que, através dos anos e na particularidade do seu labor e ardendo em entusiasmo e sonhos, vem sendo, na lusofonia, um desbravador, semeador, disseminador de literatura, de arte, de cultura, como outro se não descortina (ou melhor: como outro eu não descortino). Acima do mais, um idealista da liberdade de pensamento. Escrever no JL, sob a direção de José Carlos de Vasconcelos, é usufruir de um espaço onde se faz a mais ardente e contagiosa defesa da honra e dignidade das Letras, como expressão daqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente. Se o JL é hoje um verdadeiro traço-de-união, entre os países lusófonos, o fenómeno radica, sobre o mais, na formação mental e moral do seu diretor e na “incomensurabilidade” que ele fomenta entre dois paradigmas ético-políticos: um que se julga superior ao tempo e à história, ajoujado de certezas e de dogmas; o outro que se sabe tempo e história e, como tal, paradigma com a dialética necessária ao surgimento de novos paradigmas.

Trabalhei, durante os anos letivos de 1987 e 1988, nos doutoramentos de Filosofia e nas licenciaturas de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Brasil), a convite do Prof. Paulo Renato da Costa e Souza, que seria posteriormente o ministro da educação de todos os governos do Prof. Fernando Henrique Cardoso. Fiz então amizade com o Rubem Alves, um dos pioneiros da teologia da libertação, pedagogo que prelecionou sucessivas gerações de professores, que me proporcionou convívio (embora fugaz) com alguns escritores brasileiros. Mas que deu para vislumbrar o prestígio que tanto o JL como o José Carlos de Vasconcelos, gozavam, nesses anos já distantes, junto de alguns dos melhores representantes da vida intelectual do País Irmão. E não relato eu, neste momento (a memória não dá para tanto) as minhas conversas infindáveis com o “carioca” Irineu Garcia, o amigo de Vinícius de Moraes, de Drummond de Andrade e de Pablo Neruda, entre outros da mesma estirpe, no bar do Hotel Tivoli, na lisboeta Avenida da Liberdade (o bar onde pontificava a singular e divertida Beatriz Costa). Várias vezes ele insistia na ideia: “Não conheço jornalista mais culto do que o José Carlos! Conheço não!”. E, apoiando as mãos nos meus ombros, perguntava-me: “Conheces o Vinícius?”. E eu respondia: “Mas quem não conhece o Vinícius?”. E ele parecia feliz e glorioso a recitar de cor: “Amo-te tanto, meu amor... não cante / O humano coração com mais verdade... / Amo-te como amigo e como amante / Numa sempre diversa realidade”. E fitava-me a sorrir, julgando-me numa ansiosa expectativa de novos poemas. Tudo gente de um passado que chegou a ter futuro. E em que o José Carlos de Vasconcelos, grande jornalista doublé de um escritor igualmente grande, era admirado e respeitado e (repito-me) por gente de fino senso crítico!

Entre 29 de Fevereiro e 4 do mês corrente, a convite do seu presidente, o Dr. Lourenço Pinto, lecionei num seminário, na Associação de Futebol do Porto, intitulado “Motricidade Humana e Futebol”. No último dia, aconselhei os “seminaristas” a criarem, cada um deles, a sua biblioteca e à leitura do JL. Ainda oiço o treinador de uma conhecida equipa nortenha, questionando-me pesaroso: “Mas no que é que o JL pode ajudar-me a ser melhor treinador de futebol?”. E eu, repetindo no Porto o que dizia nas minhas aulas, desde os primeiros números deste quinzenário: “É o homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser. A liderança e o bom conselho de um treinador beneficiam da cultura que animar a sua prática profissional. Ora, o JL anuncia, faz e é cultura. Será preciso dizer muito mais, para que se entenda que o JL é leitura necessária a um treinador de futebol e até a qualquer outro “agente do desporto”? O desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo, que tem por si milhões e milhões de adeptos apaixonados. Quem o não estudar e praticar, como cultura, não saberá nunca o que o desporto é”. Em seminário idêntico, há três anos atrás, em Lisboa, no Museu Nacional do Desporto, o José Peseiro, atual treinador do FC Porto, disse publicamente: “Só agora nós, os seus antigos alunos, podemos compreender por que o professor Manuel Sérgio, nas aulas, nos aconselhava a leitura do JL, da Brotéria e os livros do José Cardoso Pires e do Urbano Tavares Rodrigues e do Abelaira e do Vergílio Ferreira e do Torga e do Régio e até da brasileira Clarice Lispector”. E resumia, por fim, o seu pensamento: “Só agora podemos compreender!”. De facto, quem põe de lado o contacto diuturno com os grandes escritores jamais terá da vida um retrato vivo e verdadeiro, jamais saberá perguntar pela vida (e pelo desporto, que é vida também) numa perspetiva de fundamentação.

A aventura gnosiológica e literária e artística do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias resultou da vasta e valiosa informação dos seus redatores e colaboradores permanentes. Mas, acima de todos, no talento exuberante, na cultura literária e artística, na estabilidade de certos princípios ético-políticos, na sagacidade de um espírito raro de observador, que distinguem o José Carlos de Vasconcelos, é lícito encontrar-se o radical fundante do extraordinário trabalho que o JL vem apresentando, número após número, ano após ano. Não se percebe como uma das nossas Faculdades de Letras ainda não lhe atribuiu um doutoramento “honoris causa”. Ele está, sem sombra de dúvida, entre as raríssimas primeiras figuras que, em Portugal, o merecem. Os meus Amigos e Mestres José Eduardo Franco e Miguel Real, que ombreiam, entre nós, com os homens mais cultos da sua geração, fazem também suas, tenho a certeza, as minhas palavras, “aqui e agora” expressas. Porque escrevi n`A Bola um artigo de aplauso e admiração pelo JL, ou seja, por um jornal de Letras, Artes e Ideias e pelo seu Diretor? Porque desbravar terreno para lançar sementes de um Desporto, que é Cultura, que é fraterno encontro entre os homens e os povos, também A Bola o considera como objetivo muito seu, desde quando, “in illo tempore”, aqui escreviam Cândido de Oliveira e o próprio João Gaspar Simões; desde quando A Bola, pela primeira vez, disse que era diferente e queria fazer diferente. Ad multos annos, ao JL e ao Dr. José Carlos de Vasconcelos. Ad multos annos ao vosso iluminismo filosófico, onde o Desporto poderá aprender a criticar e a criticar-se, a transformar e a transformar-se. Não basta filosofar (bem me lembro) chegou o tempo de transformar...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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comentários

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TigreGange
15-03-2016 17:40
Não leio o JL, mas sublinho e aplaudo a quase reverência, que o prof. M. Sérgio faz à cultura, como vector essencial da educação humana, cada vez mais rara, por este mundo! Muito louvável, professor!

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