SEXTA-FEIRA, 21-07-2017, ANO 18, N.º 6383
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
A coroação do infante (artigo de José Antunes de Sousa, 36)
16:59 - 05-03-2016
As leis são inelutáveis e infalíveis – como a da gravidade. Mas há um outro tipo de leis que, não sendo propriamente da física, elas pertencem ao grupo que poderíamos designar por leis estatísticas. E uma destas é a que rege um estranho mas indesmentível facto - o da irreformabilidade interna das instituições. Sim, eu esclareço:

Nas instituições é certo que acontecem episódios reformantes, como o mostra, por exemplo, a história da Igreja Católica, ou, a seu modo, a da própria Igreja Anglicana – só que é preciso que venha de fora o estímulo, o acicate, para desencadear a mudança. Ou seja, as instituições, em rigor, nunca se reformam a partir de dentro, ab intra, mas só a partir de fora, ab extra. Na implosão do sistema soviético, para dar um exemplo sonoro no mundo da ordem internacional, verificamos que o próprio Gorbachov irrompe a partir de um desalinhamento com o cerne burocrático do sistema, a Nomenklatura, ou seja, ele só provoca a mudança, que em rigor o não foi, mas a implosão, enquanto actor forasteiro que usa o poder nuclear (não no sentido atómico) de forma surpreendente e imprevista - ou seja, ele quebrou a inércia da autoperpetuação do sistema, saindo fora dele para assim o dinamitar – como se de um agressor se tratasse. E, à semelhança do que acontecera com o Império Romano, o império soviético desabou porque o sistema foi incapaz de a si mesmo e em tempo oportuno se reformar.
Continuando a utilizar o exemplo acima invocado, acode-me o axioma frequentemente acenado sobre a reformabilidade da Igreja Católica. «Ecclesia semper reformanda» que, contudo, só em parte o poderemos considerar verdadeiro: de facto, ela está sempre em vias de poder reformar-se e, nesse sentido, ele é verdadeiro, mas o estímulo ou o factor desencadeante dessa mudança vem sempre das margens, da periferia – de fora do núcleo duro, burocrato-administrativo, da própria organização: Carol Vojtyla chegou, súbito e informal, das paragens frias da Polónia – e já Albino Luciani fora eleito por corporizar uma alternativa à Cúria, como, flagrantemente, acaba de suceder com o refulgente meteorito de esperança e que dava pelo nome de Jorge Mário Bergoglio e que é hoje mundialmente conhecido como o Papa Francisco.

Ora, se esta lei da entropia institucional se aplica a uma Instituição que se crê privilegiadamente assistida pelo Divino Espírito Santo, que dizer da instituição que supervisiona o futebol mundial e que, não tendo direito a qualquer graça do Divino Paráclito, ainda por cima, parece orientar-se exclusivamente pelo sacrossanto desígnio do lucro?

Não, meus senhores, a eleição de Infantino para suceder a Blater à frente dos destinos da FIFA foi tudo menos uma infantilidade – talvez o tenha sido só na medida em que possam ter acreditado que nós, o povão da bola, nos convenceríamos facilmente dos propósitos reformistas deste novo protagonista.

Só que nós sabemos todos que o sistema – e Infantino é o sistema em todo o seu noturno esplendor – não toma nunca a iniciativa de se reformar: quando a tal parece aceder é porque a isso foi obrigado. E, neste caso, Infantino, melhor, o infante dos monarcas Blater e Platini ascende ao trono do futebol mundial por via dinástica – mais em resultado de uma designação do que de uma real eleição!

Mais: o desígnio homeostático que caracteriza os sistemas vivos não funciona propriamente no sentido de uma mudança adaptativa, mas mais no sentido do retorno ao estado anterior ao elemento desafiante e/ou agressor. De facto, a escolha deste advogado caracterizado por uma certa duplicidade (dupla função – na UEFA e na FIFA, de dupla nacionalidade – italiana e suíça) representa mais o instinto desfensivo e contractivo - de um auto-fechamento, ao jeito do caracol – do que uma resposta proactiva e reconstitutiva da instituição: trata-se da promoção – e prémio – de um infante, educado na duplicidade e no jogo de cintura para reinar num tempo novo, de um democrático escrutínio, um tempo de ameaças ao território que se julgava o fortim da imunidade e da impunidade.

O sistema foi posto a descoberto e as suas complexas redes clientelares estão em vias de serem expostas à luz do dia, enfim, o sistema está ameaçado de ver a sua lógica simoníaca e nepotista desmascarada e, neste contexto de alerta máximo, era preciso reforçar a sua capacidade de resistência. E quem melhor para liderar esta operação defensiva do que alguém que, ao longo de longos anos, a tal sistema serviu com extremoso e exemplar zelo?

Esta opção, manifestamente continuista, reflecte, a seu modo, a capacidade simulativa das instituições para fugir ao ónus da sua transformação – por isso o sistema soviético acabou na auto-implosão.

Impunha-se e reclamava-se uma nova FIFA? Pois, aí têm – um velho rosto, calvo e liso, que quase se confunde com os mais antigos móveis que decoram as salas da sede de Zurique onde, para abono do meu bom nome, eu nunca entrei.

Donde, pois, tantos aplausos? Quem celebra tão previsível escolha? Justamente todos os que têm tirado benefício do sistema – e são muitos, a maior parte, porque é preciso garantir o contentamento raso de uma maioria dócil e reverente!

Nada do que aqui se afirma envolve, porém, qualquer juízo moral acerca da honorabilidade pessoal do personagem em causa, que o protagonista não é bem ele, mas o sistema de que ele é apenas uma simpática criatura. Em todo o caso, ocorre-me, a mim e ao meu estimado leitor, o velho ditado romano: «à mulher de César não basta ser séria: precisa de parecê-lo» - e aqui sim, a infantilidade de querer fazer acreditar que possa contrariar o sistema quem por ele foi diligente e intencionalmente criado – é bem «a quadratura do círculo»!

Acresce que a investigação despoletada pelos EUA não está encerrada e a proximidade, para não dizer mais, do novo Presidente com os anteriores monarcas, agora em desgraça (veremos que se não acaba tudo numa graça!), aconselharia uma escolha mais prudente e mais imune aos efeitos colaterais do processo policial em curso. Mas quando o aperto é grande tem que se entregar a chave ao porteiro!

Se, por milagre, conseguir atravessar o fogo sem se chamuscar, pode ser que um outro milagre aconteça – que possa ajudar a converter o lobo ávido e voraz em manso cordeiro.
Haja quem acredite! Mas o mundo labiríntico do futebol está entrincheirado na célere e imediatista magia fascinatória do lucro – até cair no rio das suas contradições e, tal como Narciso, acabe morrendo afogado.

Sim, o futebol corre sérios riscos de afogamento: basta olhar para a obscenidade ostentatória das contratações das grandes estrelas, enquanto milhares de jovens, queimados no altar da ilusão de uma carreira efêmera e vazia, caem na vala comum das periferias da vida!
Que regresse a humanidade ao futebol – este o meu voto em tempo de Quaresma: que o futebol, ao fim, possa ressuscitar da tumba em que tombou!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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