SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
José Neto
Espaço Universidade
O árbitro e o julgamento do jogo (artigo de José Neto, 26)
19:16 - 03-03-2016
Da orla dos estádios, solta-se de quando em vez um estranho vozeirão de agonia, raiva e ira para quem dentro de momentos terá de julgar o grande jogo da hora anunciada.

Torna-se por mais evidente que a arbitragem tem um papel fundamental a desempenhar na análise e no julgamento de um determinado lance que, avaliado num tempo limite, revertido em escassos milésimos de segundo, apenas fazendo apelo aos seus órgãos sensoriais, tem de ser julgado à luz da verdade.

O saber estar no jogo, o estado de confiança e serenidade no relacionamento com todos os seus intervenientes, irá permitir uma melhor segurança nas decisões a tomar perante uma avaliação que se impõe, seja isenta dos fatores e das ações competitivas que lhe advém. As situações de jogo pelos estímulos que as originam, como sejam: o ruído ambiente, o fervor clubista, a temperatura, o comportamento de todos os intervenientes no espetáculo desportivo, a importância do jogo, etc, podem condicionar no capítulo das decisões a tomar.

Tudo isto implica uma preparação séria e sustentada nos domínios físico - atlético, técnico, psicológico e humano, para que a decisão impere como justa e descomprometida.

Nesta envolvência, a figura do árbitro deverá assumir uma função de profundo equilíbrio, cultivando o rigor, a isenção, a tolerância, a integridade, a firmeza, a retidão, a imparcialidade, a coragem, a coerência, o decoro, a sobriedade, … caraterísticas estas que se vão consolidando com a experiência participativa, sendo o treino devidamente orientado e a qualidade na forma de cultivar a vida, uma das melhores garantias para o seu suporte, vendo-se autenticado o seu valor participativo no julgamento do jogo, uma estreita colaboração:
Colaboração, usando a competência como juízo de valor técnico; colaboração, usando a imparcialidade como juízo de valor humano; colaboração, usando a autoridade como juízo de valor técnico e humano.

Ao árbitro de Futebol exige-se rigor na aplicação da lei e é nele em que se repara verdadeiramente quando por vezes erra ao decidir contra a absoluta opinião, nem sempre justificada à luz da verdade pela incompetência de um básico (des)conhecimento.

A labareda de impropérios arranca da bancada para o centro da luta, onde toda a gente, aproveitando a onda de azedume e oportunidade, quer para si a verdade, tantas vezes traída de coerência e justiça. O eco da discórdia, nesse odioso libertador de consciências descompostas, vai arrastando até às áreas protegidas pelas redes, (chamo-lhe o espelho dos cobardes), os “heróis” da festança.

A prática do futebol e os seus altos níveis de exigência para a função permitem-lhe a existência de faltas com um grau de dificuldade e complexidade que, para serem prontamente julgadas à luz da verdade, só o recurso à decomposição múltipla de imagens é que permitirão, a posteriori, confirmar a decisão correta do juiz do jogo. No entanto, o julgamento das mesmas tem que ser imediato e nesse milésimo de segundo em pleno ato, sem que o árbitro possa obter recurso a qualquer tecnologia de ponta, fazendo depender o uso exclusivo da sua própria competência, por vezes apoiado pelos seus assistentes e perante um elevado índice interpretativo à luz das leis do jogo, decidir!...

No entanto, alguns jogadores, fiéis intérpretes de simulações desacreditadas, acordam o desejo de chamar para si a razão; alguns dirigentes, exploram o momento único de reivindicação pública perante um resultado desfavorável; alguns treinadores agradecem a oportunidade para justificar perante o erro (?) do árbitro as suas incapacidades de dar resposta às exigências que a competição a todo o momento lhe questiona!...

É por demais conhecida, e os exemplos atestam-no, a forte influência que a pressão da responsabilidade, dos valores em confronto e do ambiente proporcionado têm sobre o comportamento do árbitro, desafiando-lhe a conduta para discernir com oportunidade e capacidade de isenção.
Salta quase sempre para a praça pública a ocasião para a discussão do desempenho da equipa de arbitragem; arrumam-se mesas redondas repletas de entendidos em tudo e no que mais de futebol todos sabem, estendendo o dedo acusatório perante o febril interesse clubístico das faltas que viram no campo, sem porventura lá terem estado ou nem sequer viram quando lá estiveram.

Função ingrata e difícil do árbitro

Habituei-me a ver no árbitro e na arbitragem um sector que sempre me mereceu uma atenção muito especial, precisamente a partir do momento, e já lá vão alguns anos (meados da década de 90), me solicitaram a oportunidade de apoio, nomeadamente nas ações de formação e reciclagem. Fui descobrindo, perante muita gente de bem, uma fórmula de apoio séria e desinteressada. Recordo uma visita do dirigente máximo da Arbitragem da U.E.F.A., sr. Paolo Casarini e em que os árbitros se encontravam a preparar a efetuação de testes no Estádio da Maia. O presidente do então conselho de arbitragem, Dr. Laureano Gonçalves, me solicitou apoio para a realização desses mesmos testes. Estava a terminar as minhas aulas da opção Futebol do 4º ano do Instituto Universitário da Maia e, com muito gosto acedi á tarefa.
Ao verificar as dificuldades de resposta por parte de alguns árbitros e assistentes em cumprir as exigências impostas, questionei os mesmos sobre o tipo de treino que realizavam. Fiquei como estupefacto perante as respostas de alguns: “corremos à volta dum campo pelado lá da zona, 2 ou 3 vezes por semana … vamos ao parque da cidade 2 vezes por semana … temos a pista do Inatel ou CDUP” ou estádio universitário”. No melhor dos casos, existia um grupo que treinava no estádio do Estrela da Amadora e zonas do Jamor com o Prof. Aparício. “E como treinam?” E logo de imediato me respondem: “Olhe, corremos e fazemos uns abdominais no final ”!...

Isto ficou-me na reflexão durante alguns dias e decidi colocar alguns alunos ao serviço da observação do jogo do árbitro e do assistente, sempre movido por aquela base já experienciada na Observação e Análise de Jogo de Futebol, processo criado e iniciado em Portugal no início da década de 80, no Vitória de Guimarães e de imediato no F.C.Porto com o sr. Pedroto: ”olha para o jogo e ele te dirá como deves treinar.”

Elaborei uma ficha modelo e qualificamos a distância percorrida e a forma de realizar o deslocamento (marcha, corrida lenta, rápida e sprint, deslocamento à retaguarda e lateral), condicionamos as referências do nº de ataques das equipas e faltas existentes, estado do tempo, etc e até em alguns casos pedi autorização para colocar um polar para medir a frequência cardíaca. Apurada toda esta base de dados, verifiquei situações verdadeiramente desconhecidas: um árbitro realizava no total entre 7.200 m a 11 km em jogo, podendo atingir frequências cardíacas muitas vezes durante o jogo de 150 a 160/m e algumas vezes de 170 a 180/m e nem sequer era preciso a estar em grande correria, pois uma dúvida da marcação de um penalty ou uma interpelação grave por parte do público fazia induzir um estado emocional absolutamente descontrolado.

Quanto ao árbitro assistente os valores eram completamente divergentes em termos da tipologia de deslocamentos, não obstante os valores de frequência cardíaca se apresentarem similares.

A partir desse momento estava disponível para aconselhar uma metodologia de treino, o que fiz através duma publicação, editada pela A.S.A. (A Preparação Física e Psicológica do Árbitro de Futebol) e que, tendo em conta que praticamente nada existia na bibliografia nacional, esgotou em poucos dias.
Tomando conhecimento desta realidade, o então Diretor Executivo da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, Dr. José Guilherme Aguiar, propôs a criação dos Centros de Treino para a Arbitragem, o que na vigência do Presidente da Liga Major Valentim Loureiro e sendo o sr. José Luís Tavares o Presidente da Comissão de Arbitragem se levou a efeito, tendo eu próprio assumido o cargo como supervisor dos mesmos, avançado com as metodologias a administrar pelos vários metodólogos de treino admitidos para o efeito, alguns dos quais, meus alunos, advindo da universidade, onde exercia a docência (Instituto Universitário da Maia – ISMAI).

No Porto, Braga, Coimbra, Leiria, Lisboa, Setúbal, Évora, Portalegre, Faro e Funchal, forma criados Centros de Treino para todos os árbitros do Futebol profissional (admitindo a demais árbitros da Federação e das respetivas Associações), tendo à sua disposição 2 ou 3 vezes por semana um metodólogo de treino e um campo relvado onde treinavam de acordo com as exigências do jogo, sendo para tal avaliadas e testadas em alguns jogos realizados, as suas componentes, já referidas. De forma periódica mensal reunia com o staff técnico dos diversos Centros de Treino de forma a apurar situações de normalidade existente ou porventura criando uma cultura de exigência de mais desempenho ou rigor no cumprimento de tarefas. Em 2004/5 terminei as minhas funções devido à inoperância de estratégias necessariamente fundamentais para a melhoria duma responsabilidade partilhada.

A qualificação do treino e a observação do rendimento físico atlético e psicológico do árbitro, os testes físicos e demais temáticas realizadas, bem como outras estratégias de planificação que deveriam ser objeto de intervenção … fará parte do próximo artigo.

José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores FPF/UEFA; Docente Universitário.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

comentários

1
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)
tristeza
04-03-2016 21:53
Pobres de espirito é ler e perguntar : sera normal criticar tanto os homens do apito? Sim sentado à volta duma mesa até o meu avô fazia quanto mais Rui Santos e outros iguais !!! Fico-me por aqui

mais de ESPAÇO UNIVERSIDADE

Espaço Universidade Como posso ter regressado a um sítio onde nunca estive fisicamente? A resposta é simples e deriva logicamente da pergunta. Não estive em Olímpia através do corpo, mas muitas vezes frequentei esse lugar sagrado com o espírito tomado pela gesta históri
Espaço Universidade Quando nos surge a oportunidade de falar do valor histórico do basquetebol brasileiro temos, em primeiro lugar, que lhe tirar o chapéu e, de seguida, valorizar um património desportivo repleto de vitórias e êxitos notáveis que conduziram à conquista

destaques