SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Gustavo Pires
Olimpismo
Desenvolvimento, Estratégia e “Realpolitik” (artigo de Gustavo Pires, 29)
23:17 - 23-02-2016
Gustavo Pires
Segundo a etimologia grega a palavra estratégia significa ”conduzir o exército”. Na Grécia antiga, o “stratego” era o chefe máximo que tinha por missão governar e comandar a defesa da cidade. Como referiu Joly de Maizeroy, estratégia é a “ciência do general” a que os gregos chamavam de “ciência profunda, vasta e sublime” na medida em que englobava muitas outras. Por isso, os generais eram, sobretudo, homens de ação e coragem. Arquíloco (Séc. VII a.C.) proeminente cidadão e soldado grego, a respeito dos generais proclamava aquilo que, hoje, muitos dirigentes de clube devem pensar quando contratam um treinador: “não gosto de um general alto, nem de pernas abertas, nem orgulhoso com os anéis do seu cabelo, nem barbeado. Para mim, quero um que seja pequeno e de pernas tortas, que mexa os pés com firmeza, e cheio de coragem.

Para os gregos, a estratégia jogava-se na dialética entre, a brutalidade da força e a subtileza da astúcia. Estas perspetivas estão representadas em duas personagens emblemáticas de Homero (700-800 a.C.):

• Na Ilíada, Homero construiu a figura de Aquiles como símbolo da coragem, da violência do combate direto e da entrega pela abnegação;

• Na Odisseia, Homero construiu a figura de Ulisses como símbolo da astúcia, do ardil, do combate indireto e da racionalidade pelo calculismo.

Ao desenhar os contornos psicológicos destas duas figuras, Homero traçou a dimensão filosófica da cultura estratégica dos gregos antigos que, ainda hoje, pode servir de inspiração a muitos líderes de organizações desportivas sejam eles treinadores ou dirigentes. Aquiles era o guerreiro forte que representava o desejo voluntarioso de se envolver no combate, quer dizer, na luta do confronto direto com os adversários. Era o herói corajoso para quem a honra e a glória valiam para além da vida que estava disposto a sacrificar em nome da glória póstuma. Pelo contrário, Ulisses, porque não tinha nem os argumentos físicos de Aquiles nem as suas competências marciais, estava condenado ao uso da inteligência, do estratagema, do confronto indireto que lhe permitiram, ludibriar, vencer e sobreviver.

E, é esta dualidade entre entrega e calculismo que nos relata Tucídides (460-395 a.C.) na obra – A Guerra do Peloponeso – escrita com um profundo sentido didático, tal qual um manual de estratégia dos tempos antigos. Para Tucídides, a arte da guerra devia corresponder a uma perfeita relação entre as coisas políticas e as militares. Quer dizer, tal como o General André Beaufre nos explicou já em pleno século XX, era a arte de gerir as tropas no campo de batalha a fim de conseguir os objetivos determinados politicamente para a campanha. Por isso, como refere o historiador Victor Davis Hanson, Tucídides é uma leitura obrigatória nas escolas militares americanas pelo que “A Guerra do Peloponeso”, geralmente, é evocada quando se equacionam os mais diversos conflitos sociais. E assim é, porque a obra de Tucídides não se resume a uma luta entre Esparta e Atenas. Como refere Luís Lobo-Fernandes, o enunciado de Tucídides tem um caráter intemporal pelo que configura “um conjunto de lições empíricas” de fundamental importância para a compreensão das mais diversas dinâmicas sociais de confronto. De facto, Tucídides transformou a sua obra numa espécie de laboratório social de onde decorrem múltiplos ensinamentos que podem ser aplicados a outras áreas sociais caracterizadas por um ambiente conflitual de soma nula onde os diversos atores coabitam numa luta constante pela sobrevivência. Ora, destes conflitos, não podemos excluir os do futebol um jogo de confronto direto e indireto que se processa à escala global onde estão envolvidos: milhões de euros; inúmeros interesses diretos e indiretos de múltiplos agentes económicos e sociais ligados à indústria do futebol; milhares de adeptos; famílias; regiões e; países. Porque, o que nos fica dos relatos de Tucídides é que o comportamento dos homens permanece imutável: a fraqueza do espírito democrático; a ambição e o apego ao poder; a demagogia das soluções de conveniência; o desrespeito pela dignidade humana; a hipocrisia das atitudes oportunistas ou; o desprezo pelos valores morais. Ora, estas atitudes e comportamentos revelam o caráter intemporal e universal da condição humana.

A guerra do Peloponeso durou vinte e sete anos (431-404 a.C.). Tucídides, devido à sua morte, só tratou dos primeiros vinte anos. Contudo, pela originalidade, precisão e clareza do seu texto, Tucídides é, hoje, considerado como o primeiro dos cientistas sociais na medida em que tratou não só as questões relativas às operações militares como, também, as questões relativas à luta pelo poder, às negociações políticas, e à dinâmica das relações entre estados (cidades Estado), analisando as decisões dos protagonistas no quadro das circunstâncias que os envolveram. E Tucídides analisou as circunstâncias da guerra com grande rigor descritivo e cronológico e, sobretudo, à margem de quaisquer explicações de ordem divina que, ao tempo, serviam para explicar os mais variados acontecimentos. Para ele, não era nem o destino nem qualquer outra razão de ordem transcendental que faziam mover a história mas, tão simplesmente, a vontade dos homens. Por isso, estava totalmente convencido que o seu relato era um “capital imperecível”, mais importante do que a própria guerra. E foi o que aconteceu.

A guerra do Peloponeso trata de um conflito de soma nula entre dois blocos imperialistas Atenas e Esparta que, no contexto de uma “paz insegura” ou “paz precária” procuravam obter vantagem competitiva na dialética do balanço do poder. Enquanto Atenas liderava a Liga de Delos, Esparta liderava a Liga do Peloponeso, mantendo sob as respetivas hegemonias a proteção de várias cidades. Era uma luta permanente pela sobrevivência que, na ausência de entidades superiores que estabelecessem uma certa ordem e disciplina, caminhava, tendencialmente, para a anarquia na medida em que o aumento excessivo do poder de uma das partes desencadeava nas outras partes sentimentos de insegurança e de revolta difíceis de ultrapassar. A este sentimento, no âmbito das relações internacionais, John Herz denominou de “dilema da segurança”. Quer dizer, quando um Estado (leia-se clube) se sente ameaçado investe em armamento (leia-se jogadores) o que faz com que os Estados vizinhos (leia-se outros clubes), ao sentirem-se ameaçados, invistam igualmente em armamento (leia-se jogadores). Deste modo, cria-se um círculo vicioso que, hoje, podemos ver na dinâmica de investimentos em jogadores dos clubes das mais diversas Ligas de clubes. Em consequência, no balanço final, todos acabam por ficar mais fracos. Quer dizer, os clubes estão “cada vez mais falidos”.

Um dado sistema pode viver numa espécie de “status quo”, quer dizer, numa situação de “equilíbrio de poder” entre as partes que pretendem conquistar o mesmo objetivo. Este equilíbrio impede qualquer supremacia uma vez que, da multiplicidade de relações, podem formar-se coligações que, em cada circunstância e momento, procuram proteger os elementos mais fracos e contrabalançar a distribuição do poder. Como refere Tucídides é o receio de cair numa situação de desvantagem que, numa forte polarização de forças, leva uma das partes agir e a atacar. E explica: “a verdadeira causa desta guerra é, na minha opinião, aquela que oficialmente mais tem sido ignorada. O crescimento do poderio de Atenas e o alarme que provocou em Esparta tornaram a guerra inevitável. E Tucídides continua: “de qualquer modo, é conveniente dar a conhecer as razões alegadas por cada uma das partes para chegarem à rutura do acordo de tréguas e ao desencadeamento da guerra”. E, na conveniência das razões alegadas por cada uma das partes, Tucídides deixa para a posteridade a problemática do realismo das relações internacionais, fazendo-nos lembrar aquilo que, hoje, se passa com a designada “realpolitik. E, a este respeito, relata-nos o desenvolvimento das negociações entre os atenienses e os mélios (habitantes da ilha de Melos que eram independentes tanto de Esparta como de Atenas e assim desejavam continuar) que conduziu ao terrível massacre de todos os homens em idade adulta e à venda das mulheres e crianças como escravos, episódio que expressa bem o contexto do tudo ou nada da política imperialista protagonizada por Atenas.

Perante a imposição de força dos atenienses, os mélios, à partida, afirmaram não ter quaisquer esperanças na medida em que, quer vencessem quer não a argumentação, o destino deles era a morte pela guerra ou a escravidão. E, da sua esperança diziam: “tudo quanto podemos razoavelmente esperar desta negociação é: a guerra no caso de provarmos ter a razão do nosso lado e recusarmo-nos submeter; e, em caso contrário, a escravidão”.

E, na lógica da realpolitik da força do poder, os atenienses contrapunham a sua posição e diziam: “pela nossa parte, não vos incomodaremos com nenhum tipo de falsos pretextos, seja ele que temos o direito ao nosso império por termos vencido os mélios ou que vos atacamos por causa dos danos que nos causastes, ou com um longo discurso em que não acreditaríeis. Em contrapartida, esperamos de vós que, em vez de tentardes influenciar-nos, dizendo que não haveis aderido aos Espartanos, embora sendo sua colónia, ou que nenhum mal nos fizestes, vos preocupeis com o que é exequível, tendo em consideração os verdadeiros sentimentos de ambas as partes, uma vez que sabeis, tão bem como nós, que o direito, nos tempos que correm, é apenas uma questão aplicável aos que se igualam em poderio, enquanto o forte faz o que quer e o fraco sofre o que deve. (…) prosseguiremos, agora, para vos mostrar que aqui viemos por interesse do nosso império e que diremos o que seguidamente iremos dizer para a salvaguarda do vosso país, assim como gostaríamos de exercer esse império sobre vós sem conflitos e de vos vermos protegidos, para o bem de ambos.

E os mélios perguntavam: “como pode, dizei, numa tal circunstância, ser assim tão bom para nós servir como é para vós exercer o poder? E os atenienses ripostavam: “porque teríeis a vantagem de vos submeterdes antes de sofrerdes o pior, enquanto nós só ganharíamos por não termos de vos destruir.

E os mélios voltavam aos seus argumentos: “quer isso dizer que não consentiríeis que fôssemos neutrais, amigos em vez de inimigos, mas não sendo aliados de nenhum dos lados”. E os atenienses concluíram: não, porque a vossa hostilidade não pode causar-nos tanto prejuízo como resultaria de a vossa amizade ser vista pelos nossos súbditos como prova da nossa debilidade, enquanto, pelo contrário, a vossa inimizade reflete o nosso poder”. (…) “… não partilhais a opinião de que a conveniência anda de mão dada com a segurança, enquanto a justiça e a honra não podem ser respeitadas sem os inerentes riscos?”

Esta é a realidade competitiva que, atualmente, se vive na sociedade portuguesa. Na Assembleia da República, em muitas autarquias, na cultura, no desporto e na educação.

É neste sentido que entendemos o exemplo de Trasímaco do “Livro I da República” de Platão. Para Trasímaco a vantagem do mais forte é um conceito político que fundamenta a prática dos Estados gregos, especialmente do ateniense, cuja supremacia se fundamentava no seguinte axioma: “a força cria o direito”. E afirmava ainda: “... cada governo institui leis (novmoi) para a própria utilidade. (…) Assim acontece, para quem saiba raciocinar bem, em toda a parte, o justo é sempre idêntico ao que é útil para o mais forte”. É este o dilema da sociedade portuguesa e dos seus mais diversos setores sociais. O justo não é aquilo que deve ser mas aquilo que o mais forte consegue impor aos mais fracos. Não numa estratégia de desenvolvimento mas, numa estratégia de defesa dos mais fortes.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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