TERÇA-FEIRA, 30-05-2017, ANO 18, N.º 6331
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Clube: o lar do povo (artigo de José Antunes de Sousa, 34)
21:07 - 21-02-2016
Sim, o clube, se nos ativermos aos casos em que pertencer-lhe (tê-lo) representa para alguém sinal de identidade, não é propriamente um lugar, um sítio – sequer uma ideia. É, mais que tudo, uma mítica entidade de convergência afectiva e, nessa medida, significativa – ele mobiliza os afectos e se constitui em mediador simbólico do assintótico movimento de realização individual.

Claro que há nisto uma gradualidade, talvez, melhor, uma diferença de nível: não é a mesma coisa ser do clube lá da «santa terrinha», ou do clube do nosso bairro que ser do Benfica, do Sporting ou do Porto – há quem já arrisque ser do Guimarães ou do Braga, como o Presidente eleito: numa futura oportunidade falaremos desta curiosa situação.
Ser dum clube modesto, mas que garbosamente ostenta os símbolos lá da terra onde cantarolámos, ao desafio com as raparigas, as primeiras canções de seduzir, na inebriante faina da vindima, onde aprendemos os sabores da pera rocha ou do figo branco à beira-rio, e onde aprendemos o encantamento de ver crescer os pepinos e os repolhos, é claro que isso nos é agradável – é até inevitável! Trata-se, neste caso, de um impulso do que em nós é a radical e primária emoção de ser gente que responde, por sua vez, a esse apelo telúrico do chão que nos amassou. É um tipo de relação evocativa que nos situa no mundo e nele nos sinaliza – mas, atenção, confinando-nos ao acanhado recinto da nossa aldeia, do nosso sítio – é uma dimensão estrictamente paroquial, local: abre-nos uma janela vaidosa para o mundo, mas fica-nos o mundo todo para espreitar e conquistar.

Ora, o clube grande vem oferecer-nos essa oportunidade de ser gente, de botar figura na Praça Maior. Mais, o clube grande proporciona-nos a ínvia oportunidade de nos vingarmos dessa pequenez de nascença que nos não permite ousadia mais para lá do espreitar furtivo desde a janela da casinha onde a nossa avó preparava, com a mestria da experiência de anos a fio, as inigualáveis «papas de sarrabulho».

O clube grande como que nos outorga uma simbólica carta de alforria, fazendo-nos sentir cidadãos do mundo inteiro e passageiros de primeira e encantados de uma glória, não apenas insinuada, mas realmente concretizada através de sonantes e assinaláveis feitos – mesmo a nível internacional. O clube grande promete glória e oferece condições credíveis para a obter e, nessa glória, todos os adeptos se revêem.
Enfim, o clube grande sofre um salto significativo que o liberta do seu contextual constrangimento territorial e, desterritorializando-o, eleva-o a uma mítica condição – e, no íntimo do coração de cada um dos seus adeptos, ele torna-se uma realidade viva, existencial. Por isso, não há um Benfica, um Sporting ou um Porto – ele há-os tantos quantos benfiquistas, sportinguistas ou portistas: é o fenómeno da apropriação afectiva – e eis como o clube se torna no lar do povo!

Como na nossa cidade (excepto se essa cidade for Lisboa onde as sarjetas parecem estar cronicamente entupidas) onde os colectores recolhem as águas fluviais – e os esgotos -, assim o clube grande, que nem sempre é um grande clube, constitui-se em colector de anseios, frustrações e sonhos de milhares, milhões de pessoas que, mergulhadas e instaladas no rasismo de uma sobrevivência aflita, vêem no clube o seu salvador, no qual depositam a esperança bradada de uma vitória que lhes iluda o olhar decepcionado nesta vida de chumbo – e, nesse sentido, os jogadores são os delegados dessa missão redentora. E é até por isso que passam tão depressa de heróis a vilões – logo e sempre que falham na soberana missão de aos adeptos os instalarem no trono de uma glória, tomada como sua aos gritos alucinados de: «ganhámos!», ou «é nossa!», referindo-se à taça que o seu clube acaba de conquistar na roleta dos penáltis.
É esta dimensão vicarial (em que o clube assume as vezes dos seus adeptos que nele se sentem representados) que ao clube grande o santifica aos olhos deslumbrados do seu povo, para quem, desde que lhe contentem a alma, todos os meios usados para lhe incendiar o coração são não apenas lícitos, mas deveras louváveis.

Esta ética assente no vaivém emocional dos mendigos de uma glória efémera e fátua – e sempre virtual – desliza ao sabor do fluxo da adrenalina, na lógica de um contentamento idiota – e nada mais adequado a essa volúpia oscilatória do que a incerteza da vitória desportiva, uma incerteza que, paradoxalmente, alimenta e ateia a paixão dos que com ela sonham.

Em 1992, John Kenneth Galbraith publicou um livro com o sugestivo título A Cultura do Contentamento: é por nela vivermos tão incondicionalmente imersos que, por exemplo, as guerras entre o Benfica e o Sporting nos chamuscam um pouco o sangue!

E, sabendo disso, do quão primitiva é a torrente emotiva das massas que são «a matéria inflamável» (Klein e House; 1995), a um líder cuja função de presidente basta para atear a chama, o mínimo que se lhe pede é que tenha cuidado com os fósforos.

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

comentários

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TigreGange
25-02-2016 12:26
EXCELENTE *****!

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