TERÇA-FEIRA, 30-05-2017, ANO 18, N.º 6331
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Alguns ligeiros pensamentos sobre o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 127)
21:01 - 21-02-2016
1. Quem ganha e perde jogos poucas vezes é o corpo, é quase sempre a alma. E há tão poucos treinadores que se ocupam da alma dos seus jogadores!

2. O primeiro Benfica-Sporting realizou-se noventa e poucos minutos antes de nascer o mundo. Findo o jogo e com tanta balbúrdia e ressentimentos acumulados, ocorreu o big-bang.

3. No futebol, há mais instinto do que inteligência. Porque se utilizam mais os pés do que as mãos. No futebol, o que se perde de inteligência compensa-se com o instinto. Será por acaso que o o Eusébio era o “pantera negra”, o Kempes era a “gazela”, o Butragueño o “abutre”, o Ardiles a “formiguinha”, etc., etc.? O futebol é a mais espetacular celebração do instinto.

4. O futebol-espetáculo reproduz e multiplica, demasiadas vezes, a sociedade altamente competitiva em que vivemos. Se gostassem de ler, certos dirigentes do futebol fariam d`O Príncipe de Maquiavel o seu livro de cabeceira. Mas não, um pouco de reflexão não é com eles. A sua cultura desportiva parece não passar da “doença infantil do palavrão”.
5. Se não existissem árbitros, seriam poucos os críticos do futebol, no nosso País. Tombaria sobre o futebol português um tédio irremediável, insuportável. Pois se há programas televisivos (não são todos, evidentemente) que levam duas horas a falar dos “erros dos árbitros”. Ou o futebol é só isto, ou aqueles senhores representam o zero nacional – consagrado!
6. Extraindo do maço, com solenidade, um cigarro, o escritor e jornalista brasileiro, Nelson Rodrigues costumava dizer. “Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia”. E o Nelson era um fluminense doente. Ora, eu que sou belenenses, desde muito antes de ter nascido, sou forçado a dizer: “Cada português, vivo ou morto, já foi Benfica por um instante, por um dia”.
7. O Nelson Rodrigues era um criador de piadas incomparáveis. Como esta: “A fidelidade havia de ser facultativa”. Até no futebol! Quando será que nos convencemos que o espetáculo desportivo é a mais importante das coisas pouco importantes?
8. Não jogamos porque há jogo, mas há jogo porque jogamos. Daí, a irracionalidade que percorre o futebol onde quase todos pensam que ninguém ganha porque sabe, mas que sabe porque ganha. A irracionalidade, no futebol, é uma força latente. Se não se vê – paira!
9. Esta alegoria surge nas Teses sobre a Filosofia da História, um texto curto, fulgurante, desesperado, escrito por W. Benjamin, em Setembro de 1940, poucos dias antes de suicidar-se: “Paul Klee tem um quedro intitulado Angelus Novus. Parece um anjo que paulatinamente se afasta de algo que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca aberta e as asas insufladas. Assim deve ser o Anjo da História. O seu rosto está virado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única catástrofe que vai amontoando escombros sobre escombros, lançando-os perpetuamente aos seus pés. O anjo gostaria de demorar-se um pouco mais, ressuscitar os mortos e juntar o que foi desmembrado. Do paraíso porém sopra uma tempestade que lhe agita as asas com violência e o impede de as poder utilizar. A tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, mas ele vira-lhe as costas, diante do monte de escombros que cresce até ao céu. A tempestade é aquilo a que chamamos progresso”. Ora, o progresso, que o século XVIII proclamou a sua grande paixão, conduziu a inúmeras ditaduras e à exploração da classe trabalhadora, fenómenos que ilustram o fracasso de um progresso sem valores de forte caráter antropológico. Temo que o progresso desportivo se resuma aos desempenhos espetaculares de atletas superdotados e supertreinados. Temo que muitos “agentes do desporto” desconheçam que há valores, para além dos económicos, ou de um individualismo sem regras, na prática desportiva. Temo que nas Faculdades onde o Desporto se estuda, seja a fisiologia a ciência-mãe e não a complexidade humana. Ou seja, não temo o progresso, mas o progresso daqueles que o põem ao serviço de inconfessáveis interesses...

10. É de Fernando Pessoa o Poema em Linha Recta: “Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido / campeões em tudo (…). / Quem me dera ouvir de alguém a voz humana; / que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / que contasse, não uma violência, / mas uma covardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há, neste largo mundo, que me confesse / que uma vez foi vil? (…). / Arre, estou farto de semi-deuses! / Onde é que há gente no mundo?”. E o Fernando Pessoa nunca ouviu falar alguns treinadores de futebol – que se dizem o sol e... andam na lua!

11. É famosa a tese de Marx: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversos modos, mas trata-se de transformá-lo”. De facto, não é a filosofia que transforma o mundo; não é certamente só com teoria que se ganha um jogo de futebol. Mas, sem filosofia, não há transformação, nem conveniente, nem duradoura. Porquê? Porque quem não compreende não sabe transformar. Portanto, no remate da tese décima primeira sobre Feuerbach (“trata-se de transformá-lo”) não se trata de praticar sem pensar, mas de fazer mais humanamente o que se tem de fazer. Para transformar, humanamente, não há teoria sem prática, nem prática, sem teoria. Embora o primado da prática...

12. “O Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol elegeu João Mário, médio do Sporting, como o melhor jovem a atuar na Liga Portuguesa, durante o mês de Janeiro”. Parabéns ao João Mário, um jovem que é uma lufada de inteligência no modelo de jogo do Sporting. Para o mês de Fevereiro, não se esqueçam do Lindelof. Nele, está a nascer um defesa-central diante do qual os adeptos do Benfica ainda irão prosternar-se maravilhados.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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