DOMINGO, 25-06-2017, ANO 18, N.º 6357
José Neto
Espaço Universidade
Lesões – “as piores inimigas do atleta”!... Conclusão (artigo de José Neto, 25)
23:15 - 14-02-2016
José Neto
Anotei algumas histórias com vida referentes a alguns atletas que fizeram parte da minha relação profissional. Ficaria contudo com um sentimento de ingratidão se omitisse, muito embora de forma muito genérica, alguns outros que também fizeram parte do património dos meus deveres e obrigações e que ao longo do tempo também continuam a cultivar de forma afetiva a minha memória.

Fazendo um relato que a história do tempo sempre haverá de constituir expressão, refiro:

No F.C.Porto e na modalidade de Futebol – Vitoriano Ramos; Quim; Jaime Magalhães; Vermelhinho; Domingos Paciência; Jaime Pacheco; Zé Beto; Semedo; Toninho; Festas; André; João Pinto; Augusto Inácio; Laureta; Casagrande; Eurico; Frasco; Paulo Ricardo; Lima Pereira; Celso; Fernando Gomes; Celestino; Paulo Alves; Varito; Futre; Juary; Mlynarzick; Best.
Na modalidade de Hoquei em Patins – Vítor Bruno e Castanheira
Na modalidade de Andebol – Luzia.

No Sp.C.Braga – Eugénio; João Mário; Secretário; Folha; Virgílio e Marcão.

No Vitória de Guimarães – Samuel; Dimas; Paulo Bento e Zaovich.

Atletas de outros clubes: Xico Afonso e Simão (Petro Atlético e Seleção de Angola); Rui Barros (Juventus); Fernando Chalana (Bordéus e S.L.Benfica); Álvaro Magalhâes (S.L.Benfica); Tonanha (Belenenses); Ricardo Fernandes e Altino (Moreirense); Gama (Rio Ave); Agostinho (Real Madrid); Carlos Carneiro; Carlos Miguel e Brandão (F.C.P.Ferreira); Lawden (S.C.Freamunde) e João Viva (F.C.Penafiel).

Outras modalidades: Ni Amorim (automobilismo);

Atletas portadores de lesões, em geral de alta gravidade (cerca de 90% com intervenção cirúrgica), sofrendo um processo de recuperação por vezes muito distinto, pois como sabemos, lesões iguais em atletas diferentes o planeamento de trabalho a desenvolver exige uma metodologia de diferente intervenção.

Fraturas; Ligamentos cruzados; Pubalgias; Luxações; Roturas … foram algumas das lesões mais evidenciadas.

Encontrei alguns desses mensageiros de uma esperança provisoriamente perdida mais tarde como alunos na Faculdade, caso do Celestino, concluindo de forma brilhante o seu curso superior de Educação Física e Desporto; outros porém também me foram confiados nos seus cursos de treinadores, caso do Jaime Pacheco, Semedo, Paulo Alves, João Mário e Gama e ainda por intermédio do sangue que lhes transporta a vida, alguns dos seus filhos que encontro no Instituto Universitário da Maia e que revejo no olhar de campeões “cavados” no tempo e também com muito orgulho procuro numa sintonia de entendimento pedagógico e científico ajudar a encontrar no futuro uma renovada esperança.

São eles: João e Gonçalo Paciência (este com interregno por via profissional); Jaime Pacheco Júnior; Martin Gomes (filho de Fernando Gomes); Ana Lucinda Barros (filha de Rui Barros); Sérgio Conceição Júnior; Pedro Martins Júnior; Laureta Júnior e Caetano Júnior, juntamente com outros profissionais de competência exercida ou desempenho já evidenciado, como Jorginho, Fábio Faria e André Vilas Boas.

No decorrer do meu percurso profissional, como por vezes digo e repito, pela universidade da vida, que foi o F.C.Porto, entre as épocas 1982 e 1988/89, o tempo de férias nos finais de época sempre me fiz acompanhar por alguns atletas que se encontravam em situações de transição de competências pós clínicas e pré competitivas, tentando apurar exigências de diversa ordem físico atlética e técnica no sentido de reentrar em pleno no início de nova época.

Pode pensar-se que as tais férias se tornavam momentos únicos de relaxamento e recreio. No entanto sempre procuramos inserir treinos bidiários de cerca de 120 minutos cada, quer no início do dia, como no final da tarde. No intervalo sempre dava para alguns momentos de envolvimento familiar.

Não obstante o facto de ninguém ser obrigado a efetuar este tipo de trabalho, não imaginam o grau de profissionalismo que sempre nos norteou, como premissa a ser cumprida com o rigor e disponibilidade demonstradas.

Só assim se explica que, como já foi referido, a integração sem limites de todos os atletas no arranque de nova época.

Lembro a dupla Semedo e Zé Beto que de forma tão distinta, expunham a sua categoria quer no ginásio do Hotel Montechoro, quer nos relvados em anexo, geralmente acompanhados pelos aplausos de quem interrompia o percurso de uma ida ou vinda de uma manhã ou tarde de praia.
Recordo as minhas deslocações, juntamente com Álvaro Magalhães em que todos os dias se processavam entre o Hotel em Albufeira e as excelentes condições de treino no Vale do Lobo, onde estavam instalados Fernando Gomes, Lima Pereira e Chalana.

Noutra época muito especial que antecipou a assinatura de Fernando Gomes com o Sporting de Sousa Cintra, e que dos relvados do Vale de Lobo e ginásio Barrington, transitamos mais 20 dias para o estádio nacional. Quantas foram as vezes que a comunicação social tentou interpelar o atleta bibota de ouro para tecer considerandos menos abonatórios contra o club que, (apenas profissionalmente, registe-se), nesse momento de nós não fazia parte. No entanto sempre mas sempre evitamos emitir qualquer frase ou palavra que colocasse em causa a instituição F.C. Porto que também nos deu vida. Um parêntesis para informar que após este trabalho, cada um de nós seguiu o seu destino, assinando o Fernando Gomes pelo Sporting e eu a seguir pelo Sp.C.Braga.

Ainda a referir que posteriormente estive em vários colóquios com a presença de Fernando Gomes e perante as questões “armadilhadas” dum desejo feito guerrilha contra o club, o nosso bibota de ouro sempre pautou o seu discurso de notável inteligência intelectual, expressando uma exemplar dedicação às pegadas da experiência vivida como campeão repetido em temp(l)o que para nós sempre foi sagrado. É com muito orgulho e alegria que o vejo no seio da estrutura do club, exercendo notáveis e importantes funções, quer na observação e avaliação de jogadores potencialmente a contratar, como nas honrosas missões de embaixador nos palcos internacionais. A história das instituições que também de nós fez gente, exige nobreza de princípios que a memória sempre deverá acordar em devoção e aplauso.

Poderei anotar mais uma ou outra história com vida (são tantas … cada atleta daria uma bela história), mas acrescento contudo uma outra: ainda no F.C.Porto existia um atleta de nível internacional que tanto se envolvia no desejo de acudir à obtenção dum record da sua recuperação que nos treinos tinha que limitar ao máximo a intensidade do exercício. Julgava ele que aquilo era para rebentar e eu sentia-me quase impotente para o impedir. Quantas vezes era necessário chamar o Artur Jorge e o médico Dr Domingos Gomes e até o segurança para fechar as portas de acesso aos locais de treino.

As cargas estavam devidamente ajustadas e cientificamente planificadas. Mas o certo é que a recuperação estava muito deficitária e, claro, encontrava-me num dilema, pois não sabia como explicar a situação. Até que um dia ouvi alguém balbuciar: o … fulano tal … todos os dias desloca-se de bicicleta entre uma tal zona plana de Leça com belas vistas para o mar … Logo pensei: lá está, este “inteligente”- anda a dar cabo do meu trabalho!... Até que num belo dia, desloquei-me para uma zona isolada, escondido mas com vistas para a estrada, até que vejo a despontar à distância o nosso herói feito ciclista, rolando em boa pedalada. Registei o tempo e como aquilo era numa reta prolongada, até registei as pedaladas ao minuto … e aguardei!...

Mal acabava de anotar os dados e … lá me aparece o “figurão” que continuava, tronco inclinado e lançado sobre os pedais em roda livre.
Aguardei o tempo necessário para uma visita à sua residência. Toquei à campainha (ainda tenho presente aquele som: tlim-tlão) e aparece-me a sua esposa que me convida a entrar e tomar uma bebida. Segui-a até à sala de estar e que vejo eu?! … o dito cujo em pleno treino, usando uma máquina de musculação “quase fora de combate” e até desregulada, com cargas perfeitamente desajustadas!...

Bom, não imaginam a discussão que ali se gerou, com a esposa a cerrar os dentes e a desaparecer para outro aposento!...

Como é possível, um atleta a recuperar no club com uma determinada orientação metodológica subjacente nos princípios básicos de evolução de competências, usando a carga com exata percentagem, intervalo, intensidade e volume, etc … e tendo a necessidade de tempo de intervalo para recuperar, abusou de forma extemporânea colocando em grave causa a sua total recuperação e claro, talvez menos importante, mas a minha própria gestão de competências. Sinceramente até sentia o chão a fugir-me debaixo dos pés, com os médicos a olhar-me de soslaio!...

Bom, com a promessa de uma absoluta modificação de comportamentos, lá voltamos a ter o “inteligente” em ótimas condições para competir, embora mais tarde do que o previsto, relembrando a frase muitas vezes utilizada: “nunca esqueças que a água a mais também mata a planta”!...

Como referi, outros casos geravam tantas histórias, algumas até hilariantes, desde consultas a videntes em noites de lua cheia, vergados por superstições que se foram transformando em incertezas para alguns, razões para outros, e porventura muitos difíceis de contrariar. Pressões e alertas por parte de diretores, empresários, treinadores, médicos e paramédicos, jornalistas, familiares e até do próprio atleta …seria um desafio à minha integridade moral e ética que jamais verei hipotecada. Por isso essa parte da minha vida sempre ficará expressada no eco do meu pensamento silencioso!...

Concluindo: ir ao encontro desse passado, nesta como dizer romagem de saudade e de peregrinação pelas veredas do humanismo, com atletas em situações de crise e com os quais partilhei as mais exaltantes emoções, quase todas de glória e triunfo, após um tempo de luto pela ausência do absorvente desafio em aplauso, foi como partilhar a natureza da vida.
Dou graças a Deus por da mesma me ter permitido encontrar razões e necessidades para desapertar as sandálias e lançar-me à estrada. Fui escutando no eco do meu silêncio memórias, imagens e sonhos que sempre ajudarão a iluminar o meu caminheiro do futuro!...

Nesta conformidade, revisitando a viagem do tempo, ilustrado pelas muitas canseiras apetecidas e devidamente partilhadas, foram acontecendo outras histórias com vida e que poderei cognominar de “Fontes para o Sucesso”, essas autenticadas por algumas das razões que no próximo artigo poderei evidenciar.

José Neto
Metodólogo de Treino Desportivo
Mestre em Psicologia Desportiva
Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol
Formador de Treinadores F.P.F. – U.E.F.A.
Docente Universitário


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