TERÇA-FEIRA, 23-05-2017, ANO 18, N.º 6324
Gustavo Pires
Olimpismo
Simplesmente…, Mulheres… (artigo de Gustavo Pires, 28)
21:48 - 09-02-2016
Gustavo Pires
Pierre de Coubertin, ao contrário do que geralmente se afirma, não era contra a prática desportiva das mulheres. Ele até dizia que, se as mulheres quisessem praticar desporto, pois que o fizessem. E, imediatamente depois dos Jogos Olímpicos de Amesterdão (1928) onde, pela primeira vez, o atletismo feminino fez parte do Programa dos Jogos, Coubertin até disse: “… as mulheres são livres de jogar futebol ou boxe desde que tal se passe sem espectadores, pois os espectadores que se juntam à volta de tais competições não estão lá para verem praticar desporto”. Na realidade, Coubertin estava era contra uma prática desportiva que se transformava num espetáculo obsceno para gaudio de alguns “voyeurs” que reduziam as mulheres a meros objetos dos seus instintos mais primários e do seu prazer mais animalesco. Ora, perante estas circunstâncias, dizer que Coubertin era um misógino quando ele, já em 1901, apelava “à urgência de certas reformas relativas aos direitos das mulheres”, parece-nos um atrevimento que só se permite quem nunca leu Pierre de Coubertin e, por isso, se atreve a proferir opiniões sustentadas em mero “conhecimento de orelha”.

Claro que a hipocrisia é a mãe de todas as imbecilidades. Por isso, do outro lado da moeda, quando hoje vemos a comunicação social anunciar em grandes parangonas que as capitais europeias se dobraram subservientemente aos dignitários do Irão cobrindo de vestes as “vergonhas” expostas pelas estátuas de Miguel Ângelo, estamos, muito provavelmente, perante uma das maiores imbecilidades até agora cometidas no século XXI. Até porque, hipocrisia das hipocrisias, enquanto na Europa se cobrem as “obscenas” estátuas, é o próprio Irão a anunciar que as mulheres já não estão proibidas de assistirem ao evento “Kish Island Open 2016 - Homens” em voleibol de praia que decorrerá entre 15 e 19 de Fevereiro na ilha de Kish um “resort turístico” do Golfo Pérsico. Kish, que faz parte da província de Hormozgan do Irão, devido ao seu estatuto de zona de livre comércio foi escolhida pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) como um dos locais para a realização do evento. Na realidade, Kish tem inúmeros centros comerciais e hotéis de luxo e outras infraestruturas que podem suportar a logística de qualquer evento desportivo, independentemente da sua dimensão. Em conformidade, o Governo iraniano ao desejar tirar partido do processo de desenvolvimento daquela estância turística encara a organização de eventos desportivos internacionais como um instrumento capaz de contribuir para a rentabilização dos investimentos realizados pelo que teve de ceder no seu fundamentalismo religioso. E, Richard Baker, diretor de comunicação do FIVB, informou o portal “insidethegames”: "tivemos a confirmação dos organizadores que o evento será aberto aos fãs de todas as faixas etárias e sexos".

O que está a acontecer é um triângulo virtuoso entre a economia, o desporto e os direitos humanos que, de momento, já está a provocar transformações significativas na mentalidade dos dirigentes iranianos e, a prazo, vai, certamente, provocar muitas mais na medida em que quem saboreia o gosto da liberdade jamais fica saciado. Em consequência, as mulheres iranianas vão, certamente, continuar com as suas reivindicações. E o desporto, para além dos resultados, das medalhas, do dinheiro e do espetáculo, é um excelente instrumento para as ajudar a, de uma forma pacífica, afirmarem os seus direitos humanos perante as autoridades do seu País.

Não é a primeira vez que uma simples organização desportiva provoca grandes transformações de ordem social e política à escala do Planeta. Recordamos que, em 15 de Julho de 1971, o Presidente Nixon surpreendeu os americanos ao comunicar-lhes que tinha havido conversações em Pequim entre Zhou Enlai e Henry Kissinger e que o Primeiro-ministro da República Popular da China (RPC) o tinha convidado para visitar o país. Tudo tinha começado quando, a 6 de Abril de 1971, a equipa de ténis de mesa dos EUA que estava no Japão a participar no 31º Campeonato do Mundo, recebeu um convite para visitar a RPC. Entretanto, a 12 de Abril, nove jogadores americanos, quatro altos funcionários, acompanhados por 10 jornalistas, atravessaram uma ponte que liga Hong-Kong à China continental e, deste modo, inauguraram não só uma nova era nas relações internacionais entre os EUA e a RPC como, também, uma nova visão relativamente às funções que o desporto, no quadro da diplomacia internacional, pode desempenhar. Ao tempo, Zhou Enlai, durante o banquete em homenagem aos visitantes, no Grande Hall do Povo em Pequim, afirmou: “Vocês abriram novo capítulo nas relações entre o povo americano e o chinês” (…) “Tenho a certeza de que o re-início de nossa amizade resultará num maior apoio entre os dois povos.” E a metáfora da “política de ping-pong” passou a fazer parte dos manuais de ciência política como exemplo de uma estratégia de “softpower” da RPC que, ao tempo, desejava libertar-se do jugo soviético estabelecendo relações com os EUA.

Muito provavelmente, agora, estamos perante uma situação semelhante. Claro que se trata de uma pequena abertura, contudo, enquanto os dirigentes políticos, vergados pelo peso dos interesses económicos, se curvam perante os dignitários iranianos, a FIVB, pelo contrário, faz vergar a mentalidade retrógrada dos dirigentes iranianos e diz-lhes que, ― se desejam organizar o evento desportivo, devem começar por tratar as mulheres como seres humanos. E foi esta a condição que os dirigentes desportivos impuseram aos dirigentes políticos de um dos países mais retrógrados do mundo relativamente aos Direitos Humanos das mulheres. É para isto que o desporto serve. E a FIVB até já está a negociar com as autoridades para que as mulheres sejam autorizadas a assistirem aos jogos da Liga Mundial de Voleibol que se vão realizar em Teerão no próximo mês de Junho. Entretanto, também se espera que a lei que proíbe a mulheres de assistirem aos jogos desportivos seja abolida sem quaisquer reservas antes do início dos próximos Jogos Olímpicos a realizar no Rio de Janeiro.

Seria bom que os dirigentes políticos e desportivos compreendessem que o desporto, ao contrário daquilo que alguns dirigentes cabeçudos e académicos de sacristia viciados em mordomias à conta do desporto possam pensar, é uma arma de combate no domínio do “softpower” que pode fazer muito pela institucionalização de regimes democráticos e pela defesa dos direitos humanos. Nada tem a ver com a exploração de atletas em benefício de atávicas prebendas e mordomias; nem com a obsessão por viagens a fim de sublimar carências congénitas; nem com festarolas pacóvias de adornos e lantejoulas onde, por vaidade pessoal, se gastam milhares de euros; nem com caricatas homenagens por duvidosos serviços prestados; nem com “honoris causa” a gente que é expulsa do COI por corrupção; nem com ignóbeis subserviências aos detentores do poder em troca de favores de circunstância; nem com situações de nepotismo encapotado a fim de resolver o desemprego da prole. O desporto, o verdadeiro desporto, tal como decorre do exemplo deixado por Pierre de Coubertin nada tem a ver com tudo isto. O desporto tem, tão só, a ver com desenvolvimento humano que passa por uma defesa intransigente dos direitos humanos. Por isso, quando Pierre de Coubertin, em princípios do século passado, procurava evitar que as mulheres fossem utilizadas como objeto de espetáculos aviltantes, não era por qualquer sentimento misógino. Era, tão só, pelo direito das mulheres à sua própria dignidade. Tal como hoje, a FIVB reivindica o direito das mulheres à sua própria dignidade. Quer dizer, a deixarem-nas ser…, simplesmente, mulheres.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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