SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Profetas da desgraça (artigo de José Antunes de Sousa, 31)
16:55 - 01-02-2016
José Antunes de Sousa
Seja-me permitido começar com uma ufana declaração: eu decidi escrever estas linhas subordinadas a este tema antes de saber os resultados do Sporting e do Benfica nesta última jornada: eu já sabia, tinha a certeza de que seriam necessariamente apertados. Porquê?

Porque conheço minimamente um dos indefectíveis princípios funcionais da mente humana, e, obviamente, do treinador de futebol, (que os milhões não dão para adquirir uma mais avançada!) e que o psicólogo social canadiano Albert Bandura estabelecera, ao verificar, de forma consistente, que as crenças genuínas das pessoas sobre as suas próprias capacidades podem constituir-se em indicador mais preciso e eficaz dos seus futuros níveis de desempenho do que qualquer resultado antecedente, qualquer resultado alcançado no passado.

Dito de um outro modo: diz-me que pensas sobre ti mesmo e sobre os desafios que no momento enfrentas e dir-te-ei qual a cota de sucesso que te espera.

O mecanismo mental que neste processo de autocondicionamento se envolve leva o pomposo e clássico nome de «profecia auro-realizável».
Quando, por exemplo, alguém está sinceramente instalado na doce crença de que não é atraente e que ninguém poderá verdadeiramente interessar-se por ele ou por ela, fácil é para nós todos vaticinar-lhe um futuro – o da mais perfeita solidão, tal como o próprio para si mesmo decretara, induzido pelo efeito constrictor do medo, esse mágico demiurgo justamente de tudo aquilo que se teme! Porque a mente egoica tem dois elementos constitutivos que se nos colam à pele como as modernas e exibicionistas tatuagens em corpo de adolescente: botar figura e ter razão (Leon Festinger) – e nisto se joga a nossa personalidade.

E, quando o treinador do Benfica, na sequência da retumbante vitória sobre o Moreirense para a Taça da Liga e na projecção (projectar: lançar para a sua frente) do novo jogo contra o mesmo adversário, agora para o campeonato, afirma do alto da sua mediúnica clarividência: « a história vai ser completamente diferente (,,,) vai ser um jogo diferente e difícil». E quando o guarda-redes Júlio César, sintomaticamente condicionado pelo mórbido contexto do Hospital da Luz, decretava também: «domingo será diferente (...) vai ser muito difícil» a profecia estava, com estalido e pompa, lançada ao éter, a dimensão onde muitos acreditam se tecem e se cozinham as fatalidades (e, já agora, os êxitos também).

E o treinador do Sporting, por sua vez – e nisto ele é dos mais reincidentes –confirmava, naquele seu estilo categórico e rotundo, a tendência que, segundo ele, a sua equipa tem para denunciar fragilidades quando desafiada por equipas do fundo da tabela, como, uma vez mais, acaba de acontecer no seu jogo contra a Académica. Vitória? Sim, mas aflita – como ele tão sabiamente profetizara. E, depois do jogo, ufanamente reconhecera – afinal, tinha razão!

O mesmo com o Benfica: Que ganhou? Mas talvez não com a mesma leveza com que o fizera na terça-feira, mas com mais algum suor , como o treinador tão convictamente vaticinara – ah, e com bastante mais trabalho para o guarda-redes encarnado, como o próprio antevera desde a enfermaria do hospital a meio da semana.

Estes nossos melífluos treinadores não têm mesmo emenda: enredados no mito de uma fátua omnisciência, acreditam piamente que prevendo - e dando pública prova dessa previsão – as dificuldades, dão, com isso, acrescidas provas de competência, quando, pelo contrário, se convertem em elemento de maldição para o seu próprio grupo de trabalho, ao darem, deste modo, provas de uma gritante «dissonância cognitiva»: como diz Paul McKenna, «é como descer a rua com um pé no acelerador e outro no travão».

Como pode, por exemplo, enriquecer alguém que passa a vida a amaldiçoar os ricos e a anatemizar o dinheiro? Do mesmo modo, como poderá um treinador esperar genuinamente o sucesso se, em cada esquina, só vê perigos e tormentas?: mesmo que o Adamastor não passe, afinal, de um simples rochedo, as caravelas serão inapelavelmente assoladas pela intempérie e pelas ondas alterosas – tudo o que a criativa e fabulosa mente, amedrontada, ali colocara!

É ainda o mito da imolação, do sacrifício, enfim do «vale de lágrimas» a fazer o seu ninho na dócil cabeça dos nossos pedreiros esforçados de um êxito incerto e fugaz, como, de resto, a sua própria vida de treinadores pautada pelo inelutável princípio da incerteza.

Mas, meus senhores e como dizia Santo Agostinho, « non quia durum aliquid verum», ou seja, aquilo que é verdadeiro e para o ser não tem que ser forçosamente duro: um jogo pode ser ganho com facilidade e não tem que obrigatoriamente ser difícil – a não ser que, no íntimo de nós, isso tenhamos irrevogavelmente decretado.

Por isso, muita atenção, meus profetas! Lembrai-vos do poder mágico das vossas previsões!

À contenção nas palavras corresponderá a exuberância na celebração do êxito: garanto!

Brasília; 1 de Fevereiro de 2016

PS: Já tinha acabado de escrever este texto quando tomei conhecimento do resultado folgado do Benfica em Moreira de Cónegos, o que parece contrariar a tese aqui enunciada – tese que não é minha, como creio ter ficado claro.

Primeiro: toda a regra contém a sua excepção cuja função é confirmá-la.
Segundo: há resultados que, apesar de desnivelados ao final, apenas iludem as muitas dificuldades encontradas – há muitos exemplos, ainda que não seja o caso deste jogo do Benfica.

Terceiro e muito importante: Esta tese tem um requisito essencial: que tenha sido genuinamente sentido aquilo que se disse. Ora, o mais certo é que, neste caso, tenha sido só conversa táctica servida por uma íntima convicção na vitória – que o que é decisivo não é o que se pensa, mas o que realmente se sente.

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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