QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Não há circo! (artigo de José Antunes de Sousa, 27)
20:56 - 28-12-2015
José Antunes de Sousa
Vejo-me obrigado a abrir este meu modesto comentário com um desabafo: este nosso futebol caseiro, certamente um futebol de trazer por casa, é mesmo de morte! – ele ampara-se na teimosa e instável acrobacia de viver de cabeça para baixo, semi-coberta de areia (areia que, pela sua porosidade, é também símbolo de permeabilidade e ligeireza), ao jeito da avestruz. A posição favorita deste nosso inefável mundo do futebol luso é a do pino – a posição invertida é a que melhor joga e condiz com a sua condição de pervertido.

Sim, que não é pequena perversão reclamar, zeloso e altissonante, a sua natureza de negócio que, como qualquer empresa, importa acima de tudo rentabilizar, e, depois, com os clientes em fila e a bater à porta em acotovelado assédio, fechar-lhes essa mesma porta na cara como se, pelo facto de serem clientes lhes merecessem a hostilidade da recusa.

Imaginem o Pingo Doce (não, nada me pagam pela publicidade, apenas acho graça ao nome e lhe reconheço alguma poesia e imaginação, coisa que vai escasseando cada vez mais por aí) fechar as portas nesta quadra natalícia sob o comovente pretexto de proporcionar umas festas felizes aos seus dedicados funcionários. Ou o Coliseu, numa altura em que os pais se dispõem a um encantado regresso ao mundo fabuloso de meninos, na companhia das suas crianças, fechasse portas sob a ternurenta justificação de que os artistas, incluindo naturalmente os palhaços, também têm direito aos mimos do Pai-Natal.

Imagine-se o Circo Cardinali fechar as portas, que é como quem diz, desarmar a tenda, com tanto trabalho erguida ali no Parque das Nações, que o é das diversões também, só porque os palhaços, tanto o rico como o pobre, insistem no seu inalienável direito de passar o Natal com a família.

Eu bem sei que, às vezes, ser palhaço não é nada fácil, que fazer rir sem nada dentro de si ter que se ria dói que se farta, cansa, desgasta e deprime – como o confirma o famoso episódio do palhaço de Viena que, numa tarde plúmbea, procurou alívio para a sua corrosiva depressão no consultório de uma psiquiatra que começava a dar que falar, Sigmund Freud, de seu nome. Na conversa, eis que surgiu, pronta como um soluço, a freudiana receita em jeito de sugestão: «por que não vai ver esta noite o palhaço ao circo – parece que é muito engraçado e as pessoas «riem a bandeiras despregadas». «Pois, só que há aí um pequeno problema: esse palhaço sou eu». Triste fado o seu: fazer rir toda a gente, menos a si próprio! Mas, indo ao que aqui nos interessa, a verdade é que, mesmo deprimido, isto é, desligado do centro de si, a verdade é que, mesmo assim, este palhaço de Viena, na noite desse mesmo dia, lá estava ele ordeira e docilmente instalado na linha de montagem de um humor em pacote – mas estava!

À noite, com a precisão de um relógio suíço, lá estava ele ternamente acomodado na carruagem da obrigação de uma trovoada de gargalhadas com hora marcada – no Natal, pois claro, que é o tempo apropriado para os pais levarem os filhos ao circo. E a sua função, mesmo que chova no coração dos palhaços, é fazer rir os filhos e, já agora, por efeito da «ressonância imediata», os pais também. Sim, perguntem aos artistas de circo, aos artistas de teatro e de televisão qual o melhor tempo para ganhar uns «cobres» que ajudem a cobrir os buracos no orçamento de pelintras ao longo de um ano desigual e incerto.

Perguntem aos artistas da ilusão (os ilusionistas, que não raro iludem os outros ao mesmo ritmo a que a si próprios se desiludem!) ou até aos vendedores de castanhas da Praça da Figueira, perguntem qual a melhor altura para o negócio. Aos artistas de variedades do Maria Vitória e às bandas, de rock e mesmo as outras, as de música tradicional ou mesmo as de música mais de meia-bola-e- força, vá, perguntem-lhes se fecham para poderem comer o bolo-rei com a família.

Pois bem, todos de acordo que no Natal e passagem de ano é que é bom para o negócio –menos o doce mundo de um futebol que reclama para si o estatuto de negócio, mas que, bem vistas as coisas, se revela um negócio de trazer por casa, como já referi. Ou seja, é muito mais um futebol de negociatas do que um verdadeiro negócio, flagrantemente da área do lazer e do divertimento e que, nessa sua condição, deveria aproveitar a maior predisposição e maior disponibilidade de potenciais fruidores desse espectáculo da bola, num tempo de férias, de visita em número significativo de emigrantes – mas, não, temos que fechar, porque os nossos artistas, coitadinhos, não suportam passar o Natal longe da vovó, que também tem um papagaio que, morto de saudades, repete com a regularidade da voz mecânica que anuncia os comboios da Fertagus, o nome do inditoso neto que, tão longe, anda por lá, a ganhar a vida aos pontapés a uma bola: sem dúvida, digno de dó quem a tão triste sina tem que sujeitar-se!

Veja-se o exemplo da Inglaterra: não só não pára como aumenta, de forma drástica, com o famoso “Boxing Day”, a oferta dum espectáculo que reune todas as gerações nas bancadas, num movimento de salutar repristinação do futebol, geneticamente um espectáculo de multidões.

Vamos lá, sejamos sérios: o futebol fechar para férias natalícias é uma incompreensível aberração e retira credibilidade a uma actividade que, sendo de carácter lúdico e fruitivo, deveria, desde logo, no plano ético, estar ao serviço de quem esse produto procura, que clientes é coisa que não falta. Mas, sendo também – eles dizem que sobretudo - negócio, então essa aberração brada aos céus.

É como se, uma noite destas, as nossa crianças, em tumultuosa fila de esperança, vissem o seu sonho , por insensibilidade dos adultos, dissipar-se na névoa fria de Dezembro – tudo fechado!

O circo fechou porque os palhaços meteram férias: uma autêntica palhaçada!

Brasília; 2 de Janeiro de 2016

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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comentários

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TigreGange
29-12-2015 10:43
***** (5 estrelas)!

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