QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
O Novo Trindade (artigo de José Antunes de Sousa, 26)
22:07 - 23-12-2015
José Antunes de Sousa
Tanto quanto sei, não é da família nem remotamente aparentado com o outro Trindade, o grande Alfredo – mas, tal como ele, pode, quem sabe, trazer consigo novos motivos de orgulho e alegria para a falange adepta do Sporting Clube de Portugal.

Ele é o novo Trindade: novo, desde logo, porque é jovem, mas novo sobretudo pela novidade das ideias que leva para o Sporting, depois de as ter implementado, na medida em que isso lhe foi permitido, mas com notório e inegável sucesso, no arquirival de Lisboa, o Sport Lisboa e Benfica.

Aliás, bem vistas as coisas, é flagrantemente irónica e paradoxal a tarefa que aguarda José Trindade: derrubar uma hegemonia, a do Benfica, que ele próprio ajudou a construir – com tenacidade e denodo, como eu próprio pude pessoalmente testemunhar.

Aliás, convém mesmo esta ressalva cuja simples menção é denunciadora do significativa que é:

Conforme os leitores farão a justiça de reconhecer, não costumo abundar em referências pessoais nos meus textos: contam-se pelos dedos de uma mão o número de protagonistas exclusivos nas minhas modestas reflexões – e esta, em bom rigor, não é propriamente uma excepção. É que, por detrás do pano e da boca-de cena, intervenientes há que, apesar de não expressamente mencionados, são, ainda que inviamente, aludidos.
Neste caso, dois aspectos sobretudo motivaram esta minha excepcional alusão a uma situação fulanizada da nossa actualidade desportiva nacional – para além de ser avisado proclamar que há mais desporto para lá do futebol.
Desde logo, o êxito na gestão desportiva, designadamente na modalidade de hóquei em patins, protagonizada por José Trindade, sugere uma verificação algo desarmante e certamente decepcionante para os carreiristas corporativos – a de que, afinal, o mito da continuidade funcional como requisito decisivo de habilitação para provimento em cargos de direcção não resiste ao teste da experiência – ele há dirigentes desportivos com grande proficiência e que mal sabem dar um chuto numa bola (o Zé Trindade, por exemplo, mal se aguenta encima de um par de patins), ele há ministros da saúde, como o Paulo Macedo, que nunca passaram pelas agruras de uma «directa» como a única maneira de enfrentar o medonho «tijolo» da Anatomia , como talvez seja possível (confesso que, neste ponto, não tenho a certeza) um bom ministro da Defesa sem nunca ter ido à Tropa, sem ter molhado o lombo na pista de obstáculos ou ter desmontado uma G-3 (o que, convenhamos, nestes nossos tempos de um civilismo demissivo e claudicante, nem é assim tão raro) – tem, em todo o caso, é que fazer uma recruta intensiva e aprender depressa a acertar o passo e a «perfilar pela direita».
O Trindade é o exemplo típico, e sugestivo, de como a competência resulta de um «salto criativo» íntimo e pessoal – ela faz-se a partir da criatividade pessoal (o que implica uma mente aberta e disponível), faz-se de argúcia, de perspicácia na avaliação e leitura das situações concretas, da capacidade de estabelecer laços afectivos e vínculos funcionais de compromisso e responsabilidade, da dedicação que resulta da paixão pela causa e a que se juntam notáveis qualidades de trabalho.
Ele, em cerca de seis anos ao serviço do Benfica ajudou, com a sua liderança convicta e impressiva, a conquistar quarenta e nove (49) títulos – é obra, sem dúvida! Ironicamente faltou apenas um para garantir a redondeza da cifra: seguramente, e ironicamente, uma vez mais, a Supertaça perdida inesperadamente para o Sporting.
Ganhou muito, sem dúvida, o Trindade, mas talvez não o suficiente para merecer a oportunidade de continuar a ganhar – será?

Deixem-me ser franco: talvez ele tenha exagerado: ganhar de mais pode ser perigoso! Já Winston Leonard Spencer Churchil cometera o mesmo erro aquando do seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns : «foi demasiado brilhante... e os seus inimigos não lhe vão perdoar» - sentenciou e vaticinou, na ocasião, um velho e sábio colega de partido.
Vejam só o que escreve Nelson Rodrigues numa das suas crónicas a que deu o sintomático título “O sucesso é um risco de vida”. Referindo o conhecido caso do seleccionador brasileiro João Saldanha: «o Saldanha estava no seu canto, muito quieto e muito feliz, com a vida que pedira a Deus. Até que um domingo, o Havelange e o Passo vão bater na sua porta. Queriam vê-lo como técnico da Selecção(...) Imediatamente todas as vaidades feridas se juntaram contra o João, dispostos a beber-lhe o sangue. Ainda por cima, ele teve a infelicidade de ser bem-sucedido».
E, claro está, há, como bem notou o próprio Platão, um certo tipo de luminosidade que «ofusca e cega» - e há estrelas cadentes que mal suportam a luz encandescente do astro que as oculta.

Resultado: agora, no Sporting, o Trindade vai, como já disse, enfrentar o desafio ingente e que, infelizmente para o Benfica, vai confirmar o erro de palmatória que foi tê-lo deixado sair: ele vai empenhar-se, como é natural num profissional ambicioso, em decapitar e destruir a hegemonia encarnada, nomeadamente no hóquei (tarefa bem difícil, reconheçamo-lo) e transferi-la para Alvalade, talvez já com um pavilhão a condizer – para gáudio dos sportinguistas, ele vai fazer juz ao nome auspicioso que ostenta: Tindade!

Embora, neste ponto, seja útil e pedagógico notar que uma hegemonia não se constroi destruindo o outro, mas construindo-se o próprio a partir da dinâmica auto-recursiva e auto-afirmativa: não, pois, uma motivação subsidiária da desgraça alheia, mas autónoma e endógena – para ser humanamente gratificante!

Ele tem uma característica própria dos homens de sucesso: uma mente aberta.
Enfim, de um lado, esbanjam-se estrelas de brilho, enquanto, do outro lado – basta atravessar a rua – é só abrir-lhes a porta: por onde possa entrar a luz que na Luz tão prodigamente se desperdiça. E, como diz o povo, «no aproveitar é que está o ganho».
Foi assim, primeiro com Jesus, a segunda Pessoa da Trindade, é, agora, com o Trindade – em pessoa!

Brasíla; 23 de Dezembro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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comentários

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SLB PAIXAO
30-12-2015 16:40
Linguagem floreada, pena o Prof. Sousa não ter feito um poema. Há um ponto em q se engana: a saída de JT não é uma infelicidade para o SLB. A última coisa de q precisamos é de lagartos! SLB

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