SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
 José Neto
Espaço Universidade
O meu conto de Natal: «o menino que subiu a montanha» (artigo de José Neto, 21)
12:37 - 17-12-2015
José Neto
Nota Prévia – Dado que estamos a entrar num tempo muito especial, irei fazer uma pausa de algumas semanas no sentido de intervalar a sequência das lesões (4ª e última parte) para dedicar aos meus estimados leitores dois contos de Natal. Hoje segue o primeiro e na semana da comemoração dos “ reis ” remeterei o segundo.

Estes contos fazem parte de um livro que publiquei e a “Tribuna Pacense” editou e cujo produto da sua venda tem sido ofertado a instituições de solidariedade da minha terra que constrói alguns cabazes de roupas e prendas destinados a meninos que não têm pai … ou têm e frequentemente se encontram ausentes!... (segue o contacto, caso entendam adquirir a obra – tribunapacense@iol.pt ou tribunapacense@gmail.com ou telefone 255863987).

São dez Contos que rubricam ensinamentos, memórias e imagens com um sentimento bem fraterno de uma humilde comunidade que tanto me honrou dela também fazer parte.

Com este primeiro conto vai o meu desejo para que as bênçãos de um Deus que se fez menino há mais de 2000 anos, ajude os meus queridos leitores a viver o Natal, numa partilha de felicidade e afeto familiar, convertendo quantas vezes a crua e bravia rudeza da vida em muita felicidade e esperança, continuando a renascer no coração de cada um de nós!...

«O menino que subiu a montanha»

Mais uns dias e o relógio do tempo cantará um acontecimento que marcou a minha primeira estação. Foi pelo Natal, tinha eu algumas semanas de vida, quando a minha avó, de cestinho debaixo do braço, calcorreou os gélidos carreiros por entre os montes desde a Tapadinha e Refojos e, com dois passos, a Lamelas e, dadas as condições precárias de saúde de minha mãe e de mim próprio, me enrolou em cobertores e me carregou, (hoje aqui estou e minha mãe, que partiu com 95 anos, ainda nos finais de vida se revelava em recordações de encantar por entre um jardim que plantava e tratava e tantas vezes o via a sorrir-lhe).

Em cesto de canas agasalhado, da cabeça de minha avó fiz almofada, para, no regresso, agarrar a vida no aconchego de meus avós. Contaram-me que ao sétimo mês estive em casa vestidinho, feito mortalha e também de renda asseado pela Esperancinha de Inveja, pois parece que uma arreliadora pneumonia me queria levar. Contaram-me que, num acto de valentia e desespero, a minha avó correu pelo caminho do Outeiro e, soltando-me ao vento, gritava – «o meu netinho não morre!…o meu netinho não morre!...»

Contaram-me que, foram vários os meses que a Miquinhas do Sr. Urbaninho de Vale de Suz me atendeu de 6 em 6 horas com a repetida injecção reabilitadora…

…e o leite da vaca a que meu avô dispensava a melhor manjedoura, me dava o sustento e ao calor do brasido do lar que todo o dia crepitava entre as “tempras” em cada dia, ia reaparecendo, com o meu Jesus ali ao lado na Igreja a velar pela vida por tantos desenganada.

Fui conhecendo-O aos poucos naquela casa humilde por entre os olhos meigos da minha avó Emília que vigiava os meus passos e, nos dóceis lábios do meu avô Florêncio que aqueciam o meu corpo, afagando-me com trémulas carícias com aquelas mãos grandes e rugosas e talhadas pela árdua luta do manuseio da enxada e do arado, que as lides da lavoura sol a sol, para não dizer noite a noite eram o seu quotidiano desafio.

Um dia, depois da canseira encantadora de ter ornamentado o meu presépio, tive vontade de ir para pertinho Dele e subi à alta torre da Igreja, só que, depois, com o medo de descer aquelas escadas todas quase a pique, lá me retive até alta noite e só com chamamentos aflitivos de minha avó, da Sr.ª Rosa da Tulha e do Sr. Padre Ramiro é que consegui descer até ao adro.

Sempre associo a minha existência ao Natal e àquela relação divina dos meus avôs entre gente pura e simples da terra que me viu crescer, aquele paraíso da minha infância, pátria encantada aonde a gente ainda hoje ao abrir os olhos nela se revê!...

Quanto à Sr.ª Rosa, já velhinha, um dia eu me ofereci ao cair da noite para tocar as trindades na torre, já minha conhecida.

— Mas tu não podes menino, nem sequer chegas ao sino! – respondeu-me.
— Olhe, empreste-me um banquinho! – retorqui-lhe eu.
— Bem, vai lá, já que me custa tanto subir aquelas escadas todas! – disse-me ela entre um sorriso de expectativa.

Tão pronto me coloquei debaixo daquele grande sino, trepei ao banco, meti a cabeça debaixo, agarrei no badalo com as duas mãos com toda a força e comecei – Tom…Tom…Tom… – parecia que estremecia todo por dentro, mas nada de desanimar e, – Tom…Tom…Tom… – até via estrelas, tão forte era o zumbido daquele sino que caía sobre mim, mas tinha que terminar a tarefa e – Tom…Tom…Tom…

Nem sei como consegui descer da torre, ao encontro da velhinha sentada no muro do adro e que tinha à minha espera uma mão cheia de bombons, brilhando de todas as cores.

A partir daí, muitas vezes eu esperei ao cair da tarde, pelo banquinho para subir à torre e tocar as trindades… e sentir bem perto o som que se tornou terno e insubstituível do grande e velho sino da Igreja de Penamaior.

Ainda hoje, de quando em vez, no fim dum trabalho de estudo ou de preparação de aulas, abro a janela do meu gabinete e aguardo ansiosamente o seu bater que rompe a noite e meigamente vem até mim – Tom…Tom…Tom… – trazendo-me as recordações do passado envoltas em sonho de menino que num Natal subiu a montanha num cestinho feito de canas sobre a cabeça da sua avozinha!…

BOAS FESTAS

José Neto - Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto /Futebol; Formador de Treinadores FPF-UEFA; Docente Universitário

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