SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
José Neto
Espaço Universidade
Lesões, as piores inimigas do atleta … 3ª parte (artigo de José Neto, 20)
17:08 - 09-12-2015
Redação
É um erro comum confundir o desejar com o querer…
O desejo mede os obstáculos…
A vontade vence-os!... Alexandre Herculano

Fatores Psicológicos Associados à prevenção e recuperação de lesões desportivas. Avaliação do impacto emocional do atleta lesionado.

São vários os motivos que nos levam a considerar as lesões como acontecimentos negativos da vida dos praticantes. Em primeiro lugar a produção de dor e a interrupção da atividade desportiva e competitiva, com todas as consequências que daí podem advir: perda do lugar na equipa, prémios pecuniários, perda do estado de forma desportiva, etc.
Das várias ciências que justificadamente se dedicam a este fenómeno, a Psicologia do Desporto assume um significado especial, pois tem-se notado que variáveis psicológicas como a motivação, o stress, a autoconfiança, a persistência e o estado de ânimo, poderão influenciar, aumentando ou diminuindo a possibilidade dos desportistas se lesionarem e nestes casos, contribuindo positiva ou negativamente, para os processos de recuperação de lesões e prevenção de futuras recaídas.
As lesões como todos sabemos assumem uma importância fundamental no rendimento desportivo. A longevidade e o sucesso da prática desportiva poderá estar na capacidade do atleta resistir às lesões e na possibilidade de uma boa recuperação, quando tal acontecer. De facto, uma lesão pode provocar na pessoa lesionada um estado traumático de consequências psicológicas e físicas de uma enorme imprevisibilidade.
No âmbito da prevenção e recuperação de lesões uma das questões que imediatamente se deve colocar a quem tem a responsabilidade de recuperar a pessoa lesionada, consiste na avaliação das reações comportamentais do atleta, dado que o possível abandono da prática desportiva pode conduzir a uma perda de identidade, medo e ansiedade associados à preocupação da capacidade de recuperar totalmente, gerando como consequência falta de confiança, podendo evidenciar para os atletas, decréscimos significativos de rendimento.

São referidas algumas técnicas e estratégias de intervenção, tais como:
.- A relação a ser mantida com o atleta deverá ser baseada na seriedade e no otimismo;
- A metodologia de treino a efetuar deve ser do conhecimento do atleta lesionado;
-O uso de competências psicológicas como a visualização mental e o treino de relaxamento deverá ser convenientemente programado;
- O atleta lesionado deverá estar preparado para ultrapassar quaisquer fatores imprevisíveis no decorrer da recuperação;
- Deve ser tido em conta uma dinâmica de apoio e ajuda emocional constante por parte das pessoas que partilham mais diretamente a vida do atleta.

Anotamos alguns aspetos fundamentais a ter em atenção para uma recuperação com sucesso:
- Formular objetivos diários para a recuperação, bem como objetivos a curto e médio prazo e utilizar algumas das técnicas já referidas; enfatizar os aspetos positivos da recuperação; descrever ao atleta a lesão, expressando sempre as imagens positivas da recuperação; estar em alerta em relação ao discurso interno, evitando aspetos negativos ao nível do pensamento, dada a intranquilidade que pode despertar; ser encorajador perante os desafios, estabelecendo rankings comportamentais ajustados á evolução da recuperação;
tentar recolher o maior número de informação possível acerca da lesão, da evolução da recuperação, incorporando estas temáticas na metodologia de treino.

No correspondente à Avaliação do impacto emocional do atleta lesionado,
Podemos referir como diagnóstico causal, desde os fatores precedentes à lesão como a aproximação de competições de maior significado, distúrbios alimentares, mudanças significativas na vida pessoal, até aos fenómenos da somatização muitas vezes caraterizados por uma longa história de dor e variadas queixas somáticas, pelo frequente uso de medicamentos e propensão para múltiplas consultas médicas, tendo como origem fenómenos vagamente definidos.

Ainda a considerar, entre outras, o estado psicológico do jogador marginalizado, porque geralmente têm tendência a ocultarem lesões, com receio de perderem a oportunidade de serem convocados; a sobrecarga de treino que se manifesta por um aumento desregulador da fadiga que acusa uma evidente instabilidade emocional no aumento e a suscetibilidade a doenças infeciosas, perturbação do sono, etc.. ; os fatores psicológicos associados à lesão e a carga emocional correspondente durante a reabilitação, em que a sensação da dor, o local onde ocorreu a lesão, a perceção de culpabilidade, etc, podem estar ligados ao potencial sucesso e insucesso da reabilitação da mesma.

Ainda a referir, os momentos da ocorrência das lesões em que no caso de ocorrerem no ponto fulcral da carreira de um atleta, ou até em final de época, condicionando o regresso em forma na época seguinte, poderão ter consequências tremendas; o apoio social e emocional de pessoas significativas e importantes na vida dos atletas lesionados merece um significativo e importante interesse, pois ajuda a transmitir confiança, a enfrentar os problemas e dificuldades com mais empenhamento, gerando um aumento de perceção de eficácia e autoconfiança na reabitação com êxito; a anotar ainda as reações dos adeptos e da comunicação social que podem trazer um efeito relevante, mas que tanto pode ser positivo ou negativo, dependendo da formulação de expectativas e sua conversão nas respostas.

Para terminar esta 3ª parte gostaria de referir algumas das questões mais pertinentes a fazer no processo de avaliação da lesão ou pós-lesão, valendo-me da opinião cientificamente comprovada por autores consagrados, por exemplo, Heil (1993); Buceta (1996); Williams & Roepke (1993); Sooligard (2010) eTessitore (2008):
1-Identificação: Em que consiste exatamente a lesão? A lesão produz muita ou pouca dor?
2- Dor: Qual a zona do corpo que está lesionada? Está a ser administrado algum medicamento?
3- Atividade: A lesão interfere com a atividade normal do desportista? Ou terá de interromper a atividade? Por quanto tempo? Tem limitações da prática desportiva? Quais?
4- Hospitalização: A lesão obriga a hospitalização? Por quanto tempo? Vai ser submetido a intervenção cirúrgica? Qual? Vai aplicar-se algum tratamento imediato? Qual?
5- Ajudas: Qual o impacto para o atleta lesionado, das medidas adotadas? Qual o tipo de ajudas?

6- Recuperação: Qual o prognóstico da lesão? Quanto tempo para o seu reaparecimento? Poderá voltar a render como antes? Deverá restringir a atividade futura? Será provável uma diminuição das capacidades ou possibilidades de rendimento? Quando se espera que comece a recuperar? Em que consiste o trabalho de recuperação? É possível a implementação de algumas estratégias capazes de otimizar o trabalho de recuperação? E que forma é ocupado o tempo que está a recuperar?
Estas serão algumas perguntas para as quais darei algumas respostas no próximo artigo – 4ª Parte (conclusão).


Entretanto e como prometido cá vão mais algumas histórias com vida:

Quero começar por referir o início das minhas novas funções de metodólogo de treino 1984/85 com Artur Jorge (recuperador físico e treino específico e complementar) na minha universidade da vida (F.C.Porto), jamais abdicando dos processos da observação e análise de jogo, iniciado com o senhor Pedroto em 1982/83 (assunto que, logo após a temática das lesões, irei evidenciar para os meus estimados leitores).
Jaime Magalhães fica na história da minha vida, já que foi o primeiro atleta que me foi confiado, após intervenção cirúrgica à atropatia púbica, vulgarmente conhecida por pubalgia. Atenção que na faculdade vimos por vezes “carregados” de conhecimento e “cobertos” pela razão da ciência, mas, quando entramos em campo, parecemos uns perdidos, caso a teoria esteja desprovida da prática. Assim foi que, perante lesões de alta gravidade e com o apoio extraordinário do departamento médico do clube a iniciar pelo saudoso Dr Espregueira Mendes, Dr Domingos Gomes e paramédicos (já referidos na 1ª parte), conseguimos de forma multidisciplinar, autenticamente determinada por princípios de exigente respeitabilidade, fazer com que cada atleta tivesse atingido o êxito previsto, pelo rendimento desejado e sem se ter registado alguma vez, inoportunas e tão nefastas recidivas.

Jaime Magalhães, operado em 14 de Novembro de 1985 e após 2 meses e 17 dias estava inserido no grupo normal de trabalho, sendo convocado para o jogo do F.C. Porto no D.Chaves, sendo o autor do golo da nossa vitória por 1 – 0.

Refiro este caso como fonte de aprendizagem que jamais esquecerei, pois numa deslocação a Paris, onde o precioso contacto com Dr Busquet ( o campeão das pubalgias), originou o conhecimento de estratégias de treino propriocetivo e ingestão nutricional, sendo que outros atletas à posteriori, com as mesmas patologias, a título de exemplo, Fernando Gomes, João Pinto, Rui Barros, Folha e Secretário (Sp. Braga) e Dimas (Vitória de Guimarães), utilizando um treino específico de prevenção, viram ultrapassadas os sintomas deveras dolorosos e também impedidos de se recorrer à intervenção cirúrgica, sendo continuadamente convocados, obtendo prestações de excelência.

Outro caso a referir corresponde ao meu querido vizinho Jaime Pacheco. Operado em 14 de Janeiro de 1987 aos ligamentos cruzados, iniciamos o plano de recuperação no imediato, tendo sido totalmente apto para competir 4 meses depois. Convocado para a final da Taça dos Campeões Europeus em Viena ( 27 de Maio), entrou em campo no último dia do mês de Maio, na 2ª parte do último jogo do campeonato, em que ganhamos por 6-0 e ainda a tempo de estar em abraços nos 4 golos marcados pela equipa nesse 2º tempo.

O Jaiminho é por natureza um brincalhão. Tem a alegria estampada no rosto. Dali soltam-se sorrisos, gargalhadas … é um campeão, também da felicidade. Quando a equipa técnica estava a ultimar o plano de treino, e porque o nosso gabinete era próximo do balneário dos jogadores, sabíamos logo quando chegava o nosso Jaime Pacheco, pela gargalhada imposta numa anedota ou simples questiúnculas hilariantes “encomendadas” entre jogadores. Fez muito bem Artur Jorge convocar Jaime Pacheco para a final de Viena, não apenas para jogar, caso necessário, mas fundamentalmente para servir de “veículo” promotor de transmissão duma onda de alegria e entusiasmo, tão necessário para o aumento do espírito de coesão das equipas, como todos sabemos.
Bom, estávamos a iniciar uma fase mais “agressiva” em termos de treino de potência, com base num circuito de elevada exigência e havia necessidade de explorar um sentimento de muita alegria, em especial para quem teria que ultrapassar o estado de agonia e dor provocado pelo rigoroso cumprimento do plano de treino idealizado.
… Força … Jaime … arranca, meu filho !… Que depois do treino vamos beber uma canequinha bem fresquinha!... Onde? perguntou de imediato o meu interlocutor. É pá onde quiseres!.. Pode ser ali para a zona de Miramar … Até convidamos o Gomes que vive ali perto. Isso … isso e ele paga, pode mais que nós!...

E lá se fazia o 1º e 2º circuito!... Aquilo é que vai ser, vizinho …. Aquela canequinha fresquinha … glu … glu … glu … a escorregar pela garganta abaixo!....
E arranca o 4º circuito… Isso, espetacular Jaiminho, estás um herói!... Olha, digo eu no intervalo da 5ª série, temos também de meter uns carabineiros com umas torraditas, o que achas? Pode ser só carabi…nei…ros!... Responde-me já ofegante!...
E… já para aí na 10ª série, digo eu: E um arrozito de marisco? Também entrava a matar?!... Ele, completamente exausto, encosta-me o vozeirão e de olhos arregalados, lança-me esta: Arroz, arroz, o cara… Estou para aqui num frangalho, vejo agora que já vamos em quase numa hora de treino e vem-me falar de arroz de marisco … quando eu estou mais morto que vivo!...

Tenho uma das mais emocionantes imagens gravadas em vídeo, quando no fim desse treino, Jaime Pacheco de mim se aproximou, levando ao rosto a minha camisola para limpar o seu suor feito alegria e entusiasmo por mais um treino ter sido cumprido com o rigor da exigência e a paixão de um enormíssimo profissional.
Ontem como hoje, Jaime Pacheco … um amigo, um confidente, uma pessoa de bem, um excelente pai (tive a felicidade de o ano transato ter sido professor de seu filho na faculdade), um marido exemplar, um filho de grande evocação moral e um grandíssimo treinador!...
( Continua )

José Neto
Metodólogo de Treino Desportivo
Mestre em Psicologia Desportiva
Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol
Formador de Treinadores F.P.F. – U.E.F.A.
Docente Universitário

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