SEGUNDA-FEIRA, 27-03-2017, ANO 18, N.º 6267
José Neto
Espaço Universidade
Lesões, as piores inimigas do atleta!... 2ª Parte (artigo de José Neto, 19)
14:17 - 27-11-2015
José Neto
Nota Prévia 1 – No sentido de melhor refletir em alguns resultados “tomba gigantes” nos jogos da recente eliminatória da taça de Portugal, aconselho à leitura do artigo “ E depois da pré época – a competição, o rendimento e o resultado … dos fracos não reza a história”. Poderá ajudar a compreender melhor algumas das possíveis razões como base dos sucessos e insucessos registados.

Nota Prévia 2 – Darei seguimento ao combinado no artigo anterior. No entanto e no sentido de criar uma nota de maior envolvimento com o leitor, procurarei acrescentar como observação final algumas histórias que fizeram vida no decorrer das sessões de treino e dos processos de recuperação envoltos em suor no levantar desses “deuses caídos” e que me foram confiados.

“muitos atletas correm e pensam com o mesmo músculo” – Óscar Gonçalves.

Prevalência e incidência das lesões e fatores mais predisponentes para a sua ocorrência.

Um dado de registo que importa já reter é que por estudos efetuados, sabemos que o índice de lesões aumenta à medida que o nº de sessões de treino e a exigência da competição também aumenta. A utilização de equipamentos inadequados e a agressividade colocada no domínio do jogo também a isso se vê determinado.

No que se refere aos fatores predisponentes e no que diz respeito aos aspetos psicológicos, regista-se a importância da inter- correlação das situações e acontecimentos de vida que têm para os atletas lesionados, sendo alguns experienciados como extremamente negativos, ou extremamente positivos por diferentes atletas, apresentando como exemplos: vida conjugal, nascimento dos filhos, morte ou acidentes graves de familiares diretos, grupo de trabalho ou equipa, mudança de clube ou treinador que do mesmo fazia parte.

Ainda a referenciar as fontes de apoio e ajuda de natureza social e emocional durante o processo de recuperação, como seja a esposa ou namorada, dos familiares mais próximos, da equipa médica, dos amigos e colegas da equipa. De registar ainda o facto de que, os atletas com maiores níveis de apoio social e emocional, admite-se uma notável e mais elevada rapidez da recuperação das lesões, experienciando ainda esses mesmos atletas menores estados de confusão, depressão, irritação e perturbação do estado de humor, demonstrando maior estado de vigor psicológico, porque uma lesão representa não só um problema físico, mas também um desafio à manutenção e ao equilíbrio emocional e mental do atleta.

Como fatores mais predisponentes para o aparecimento de lesões, poderemos enquadra-los em 3 grupos:

1- Fatores de risco intrínsecos – relacionados com as caraterísticas do próprio indivíduo, onde podemos destacar a avaliação das contra indicações médicas; a idade e o sexo; condição física e domínio da tarefa; morfotipo e composição corporal; fatores psicológicos e sociológicos.

2- Fatores de risco extrínsecos – relacionados com as caraterísticas do meio envolvente, onde podemos inserir as condições atmosféricas e fusos horários; o equipamento; o planeamento do treino; instalações desportivas e higiene.

3- Fatores de risco relacionados com a atividade de prática desportiva.
De todos estes fatores e não pretendendo ser exaustivo no seu desenvolvimento, poderei deixar algumas notas de referência contextual, no sentido de reflexão e alerta.

No que se refere aos fatores mentais, a incapacidade de concentração e de descontrolo emocional, associado por vezes aos excessos de motivação no sentido de tentar colocar à prova evidências ainda não disponíveis, podem originar estados de lesões que se podem tornar de alta gravidade em termos de recidivas.

Em relação à idade e sexo, podem referir-se algumas condicionantes, em especial às crianças e jovens que estão mais predisponentes às lesões músculo esqueléticas, devido a micro traumatismos de repetição em exagero ao nível de um osso em crescimento. É necessário conhecer as potencialidades do organismo dos jovens no sentido de detetar, selecionar e orientar possíveis talentos na perseguição dos mais altos níveis de rendimento e as implicações existentes entre a idade cronológica e maturacional, salientando-se os perigos da especialização precoce, usando e abusando das cargas como se uma criança fosse um adulto em miniatura.

Em relação à mulher, deve-se estar atento às diferenças morfológicas e funcionais (massa óssea, débito cardíaco, adiposidade, etc…) e sua capacidade se adaptação à exigência físico atlética.

No que se refere às condições atmosféricas e fusos horários, volto a remeter o meu estimado leitor para o artigo referido na nota prévia 1, não deixando de acrescentar que perante climas de baixas temperaturas ou temperaturas elevas por vezes associadas a altas taxas de humidade, poderá ocorrer um síndrome elevado de lesões, quer por contração espontânea do músculo, quer por desequilíbrio hidro electrolítico.
No caso das adaptações dom organismo aos fusos horários, importa anotar uma dissociação dos ritmos diários das funções psico –fisiológicas correspondentes a um dia por cada fuso. Alguns autores definem que a hora de dormir e acordar e a enquadrar a atividade intelectual e psicomotora normaliza de 1 a 5 dias, sendo necessário de 7 a 10 dias para boa capacidade de resposta às básicas exigências para o treino, demorando 2 a 3 semanas a atingir o máximo de competências para o sucesso. Alterando esta estratégia, teremos a porta aberta para possíveis estados críticos, onde a lesão espreita.

Ultrapassando o fenómeno do planeamento e periodização do treino (matéria substancialmente específica para um artigo desta natureza), terminamos referindo as condições de prática desportiva como um elemento predisponente para o aparecimento das lesões. Pisos mal tratados, irregulares e outros com dificuldade de aderência; a falta de material protetor ou uso de material inadequado; alterações sucessivas do uso de relva natural com a utilização do piso sintético; o conforto ou não pelo uso de calçado desportivo, sujeito às mais diversas incursões na absorção às cargas constantes nos deslocamentos e pelas alterações biomecânicas na execução do gesto desportivo; o uso de fibras e impermeáveis originado dificuldades respiratórias, tudo são razões a ter em conta para o aparecimento de lesões no praticante desportivo.

Uma história com vida

Em 26 de Janeiro de 1986, foi detetada no jogador João Pinto uma grave inflamação da pleura correspondente ao pulmão direito, tendo ocorrido a intervenção cirúrgica no hospital de S.João no Porto em 20 de Fevereiro do mesmo ano. Um dia, (quase imediato à intervenção cirúrgica), resolvi fazer-lhe uma visita, como era habitual a todos os atletas que no decorrer desse meu temp(l)o sagrado, eram submetidos á resolução das mais diversas patologias. Por vezes o próprio cirurgião até me convidava a assistir ao ato cirúrgico, ao que inicialmente tinha alguma dificuldade de apresentar um rosto de absoluta tranquilidade.
No dia combinado, lá me desloquei ao piso do hospital e troquei algumas palavras de conforto e o desejo de que rapidamente passaria para a “liberdade”. Quando me despedi, o João chamou-me perto de si e saiu-me com esta: ó professor, amanhã também passa por cá?

Eu lhe respondi que é claro, se fosse seu interesse, eu lá estaria, etc … então, diz-me ele: quando vier, traga-me um bocado de presunto.
Vim para casa e logo a pensar onde ía arranjar presunto de confiança para o nosso bom atleta que tanto desejado estava desse manjar. Recorri a um lavrador da minha terra (portista é claro) e lá lhe referi o pedido do já célebre lateral direito do clube do coração. Descemos à adega e com uma estocada faz cair um presunto inteirinho do porco que uns meses antes tinha sido abatido. Leve-lhe este inteirinho, disse-me o lavrador. Foi um problema, pois por mais que lhe explicasse que era só um bocado, ele reforçava a ideia que: nem pensar … só um traço de presunto para o João Pinto? … Enfim, lá consegui que ele usasse o facalhão e atacasse o presunto, retirando-lhe uma boa fatia.

No dia seguinte, lá fui eu para o hospital com o naco de presunto. Mal entrei na enfermaria, todo contente com a febra bem apetitosa do presunto para o João e ele interpela-me no imediato: o professor trouxe presunto ?!... Eh…eh… eh… eu estava a brincar!... Olhei para com cara de meio zangado e retorqui-lhe: eh…eh… eh… ai eh…eh…eh, digo eu: olha agora comes tu e como eu!.... Saquei duma navalha e fizemos ali mesmo numa risota um lanche à maneira.

Mas o mais importante de tudo é que esta história foi o princípio duma especial e terna amizade que serviu de estima envolta em afeto que acompanhou todo o processo de recuperação. Recordo que no início do mês de Março, mais propriamente no dia 2, o João iniciou o seu processo de treino de recuperação. Aconteceu precisamente no estádio da Antas, num domingo em que tínhamos acabado de ganhar (era um hábito saudavelmente repetido) por 5-0 ao Belenenses. Ainda tenho o registo do jogo, realizamos 38 ataques e 22 remates, atingido a bela média de 57% de eficácia relativa e 22% de eficácia absoluta e com mais de 61% de posse de bola sobre o adversário e em que um dos golos de Juary resultou de uma jogada em 9 toques consecutivos, a partir de Mlynarzik. Os adeptos estavam eufóricos de tanta alegria. Na zona do superior Sul ainda havia muitos sócios que ali ficavam a conversar e o João Pinto sobe a escadaria e aparece em pleno relvado recebendo uma sonora salva de palmas empolgantes, sendo o seu nome entoado em uníssono. E eu que as ouvi também …mas todas foram para o nosso João, já que inicialmente fiquei escondido no túnel, pois as palmas tinham que ser inteirinhas para o João … mas de momento lá tive que dar uma corrida para o segurar … é que ainda não havia autorização para iniciar o processo de corrida e já o João se lançava em correria agradecendo aos adeptos, enviando-lhes com um forte remate uma bola que havia ficado junto ao poste da baliza.

Depois de treinos e mais treinos de forma progressiva, no ginásio, na piscina, no relvado, etc, (chegamos a fazer 3 e 4 treinos por dia) … acabou por ser convocado para o mundial do México, sendo o melhor nos testes físicos realizados pelo Professor Monge da Silva.
Quando nos encontramos e é com frequência que o fazemos, para além dum abraço bem apertado que evoca a memória duma amizade vivida primeiramente em dor e agonia para depois ser exaltada… ainda me vem com esta – ó professor trouxe o presunto ?!...

Esta foi uma de entre algumas das histórias que irei evocar ao apresentar esta temática das lesões. Algumas das estratégias anotadas sempre aparecem submetidas à ideia que entronca na substância de uma relação de exigência, convertida em muita estima e que ao longo do tempo se pode medir minuto a minuto, esse tempo que passa na reconstrução da felicidade do tal “deus caído”, mas que um dia o estádio se encarregará de vibrantemente aplaudir!...

(continua)

José Neto
Metodólogo de Treino Desportivo
Mestre em Psicologia Desportiva
Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol
Formador de Treinadores F.P.F. – U.E.F.A.
Docente Universitário

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