DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
As sementes da ira (artigo de José Antunes de Sousa, 21)
12:40 - 19-11-2015
José Antunes de Sousa
Não escondo que o título do famoso romance de John Steinbeck esteve presente e me alentou, que não há como ignorar uma certa analogia entre as situações que a ambos motivaram. Também nós vivemos um tempo similar ao da grande depressão e, à semelhança dos desafortunados rendeiros expulsos da sua quinta de Oklahoma e, com eles , milhares de okies em busca de emprego, também nós assitimos a intermináveis hordas de desesperados em busca de um sol que lhes amanheça a alma.

Há dias, neste mesmo espaço, Manuel Sérgio escrevia sobre os bárbaros atentados de Paris, facto que me fez hesitar se devia voltar ao assunto, depois de tão reputado mestre. Arrisquei – para corroborar o que foi escrito e para acenar com mais uma ou outra perspectiva sobre tão candente problemática – a do terrorismo: deixámos de assistir à liquidacão selectiva de personalidades (Hanns-Martin Schleyer, na então Alemanha Federal, Aldo Moro, em Itália, ou Carrero Blanco, em Espanha), para assitirmos, atónitos, a um terrorismo que visa matar o maior número possível de pessoas inocentes – ou, melhor, desarmadas. Imaginem a carnificina que teria sido se o steward não tem afugentado o terrorista que se fez explodir no túnel contíguo ao estádio...

Manuel Sérgio notava, e bem, como o fanatismo dogmático de certas franjas intolerantes do Islão se deve, em parte, ao inditoso facto de não terem vivenciado o cadinho do iluminismo – de acordo. Mas, de passo, seja-me permitido denunciar o que me parece ser «gato escondido com rabo de fora»: aliviando, embora, o peso da «canga da transcendência» (Vergílio Ferreira), descomprimindo, sem sombra de dúvida, a asfixia do dogma, o iluminismo, ou, o «século das luzes», como poeticamente preferem chamar-lhe alguns, e que nos trouxe, entre outras coisas, também a democracia, eis que, ao revelar-se incapaz de deter-se no limiar do excesso da usurpação, nos impôs, ironicamente, outro dogma com a sua avantajada dose de tirania: o da razão, não apenas como instância todo poderosa, mas, mais perigosamente, como símbolo de poder (Michel Foucault).

Se na pré-modernidade prevalecia a concepção teocrática e mítica da realidade, na modernidade iluminada impera a dissociação: só vale e existe o que a capacidade cognitiva, apoiada na experimentação, decide como real; tudo o resto não é sequer refutado – é simplesmente ignorado. E, neste desdém, são liminarmente excluídos domínios poderosos da multidimensionalidade humana – uma parte significativa de nós é deitada fora como lixo camarário.

Ou seja, a dissociação tornou-nos desentendidos de outras dimensões deveras relevantes do ser humano e que bem nos poderiam ajudar a construir uma mundividência menos fundada no poderio económico (que alimenta, quantas vezes, uma estratégia promíscua de segurança disfarçada de barris de petróleo), na cruenta dicotomia «senhor-escravo», ricos e pobres, «norte-sul», etc. e que, rasgando este nosso triste mundo ao meio, faz com que, desse rasgão, dessa trágica fenda cisional, se soltem, em infernal torrente de fogo, as vozes do desespero e da vingança: impressiona até ao sufoco como tanto ódio alimenta a alegria de morrer para matar – e, se possível, muitos! É o fundo lunar de uma brutal irracionalidade que só o desespero ajuda a explicar.

E a construção simbólica do céu muçulmano a partir da projecção cultural do jardim do paraíso, das atracções sexuais das houris e frutos exóticos, construção na qual os «mártires» kamikazes depositam a mais viva esperança escatológica, favorece, e de que maneira, a conhecida estratégia de assédio e arregimentação confessional que parece caracterizar o Estado Islâmico.

Qualquer estratégia contra terá, por isso, que sê-lo tendo em conta dois contextos - o de um território difuso, fluido e indeterminado (com a proliferação capilar e incontrolada de células activistas, uma espécie de sementeira soprada pelos ventos do ódio) e de um céu, bem real, e do qual vai ser muito difícil, se não impossível, fazer algum desses fanáticos jihadistas descrer!

De resto, talvez seja útil ter presente a seguinte verificação: não há uma maneira perfeita de lidar com a mente humana: um progenitor simplesmente não pode aceitar e amar um filho viciado em cocaína, sem tomar uma iniciativa; como a tolerância não será suficiente para impedir os excessos bárbaros dos fanáticos: tem que haver criatividade nas respostas, pois a ductilidade é característica da mente humana.


Nessas respostas ajuda sobremaneira o auto-conhecimento, a percepção auto-identitária, bem como o conhecimento do outro: teme-se o que se desconhece – e o temor vem da autopercepção como vítima!

E eis que vêm à minha memória alguns conselhos do famoso Sun Tzu (544-496 a.C.), o general do Rei Hu Lu e que as escolas superiores de guerra tão bem conhecem: «Se você conhece o inimigo e a si mesmo não precisa de temer o resultado de cem batalhas; se você se conhece mas não conhece o inimigo, por cada vitória sofrerá também uma derrota, se você não conhece o inimigo nem se conhece a si mesmo, perderá todas as batalhas». Veja-se até que ponto de insolvência nos pode ter conduzido esta cegueira da moderna dissociação – como fenómeno não apenas epistemológico, cultural, mas também psicológico.

O mesmo General-filósofo, recorde-se, que alertava para o risco que representa o inimigo totalmente encurralado: se não lhe oferecemos uma hipótese ele, desesperado, torna-se particularmente imprevisível e perigoso – como aquele touro miura, o Islero, ferido de morte, e que levou consigo o Manolete, lembram-se?

Enfim, também eu, imitando o meu querido amigo Manuel Sérgio, quisera terminar com um poema (a sua escolha de Daniel Filipe foi particularmente feliz, dado tratar-se de um cidadão de um país, paradigma de paz social e de boa governação) – agora de um outro Daniel, Faria, esse meteorito da poesia mística portuguesa (a mística ou «olho da contemplação», precisamente uma das dimensões desdenhadas pelo actual monismo materialista ocidental), uma réplica inspirada de Frei Agostinho da Cruz, e que passou pela vida como um raio de luz, “Conserto a Palavra”:

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio/Restauro-a/ Dou-lhe um som para que ela fale por dentro/Ilumino-a/Ela é um candeeiro sobre a minha mesa/Reunida em forma comparada à lâmpada/A um zumbido calado momentaneamente em exame

Esta não se come como as palavras inteiras/Mas devora-se a si mesma e restauro-a/ A partir do vómito/Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza/ Como um homem nadando para trás

E sou uma energia para ela
E ilumino-a
(in “Homens que São como Lugares Mal Situados”)

Verifico, entretanto, que múltiplas vozes se vêm levantando reclamando a mudança de país para sede do Euro 2016 – vozes do medo: justamente aquelas que os terroristas querem ouvir!

E uma nota final: França, EUA e Rússia – todos unidos. É da Psicologia Social: a ameaça comum dissolve as querelas internas, como bem observou Musafer Sherif. Mas foi preciso que o coração da Europa fosse atingido: enquanto o sangue correu pelas margens do mundo todos dormíamos o sono letárgico da distância e da indiferença.

Acordemos, de uma vez!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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comentários

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TigreGange
24-11-2015 15:16
(cont.) de outros povos, quando existe um choque de culturas e onde ambos, não respeitam as culturas e os credos, daí resultando, maioritariamente das vezes, cinismos que matam e faccionismos terroristas. Cabe, como nos "remete", José A. de Sousa, unirmo-nos todos, de ambos os lados, e... conversar!
TigreGange
24-11-2015 15:11
E eis que na grandeza dessa mesma Natureza, ela sendo Mãe, heterossexual, nos dá, a nós filhos, a Liberdade de imaginar o possível e o impossível, inclusive o matricídio da própria Natureza! Não admira que a uma petulância, a uma soberba e a um desdém do Ocidente, hajam reacções tresloucadas (cont.)
TigreGange
24-11-2015 15:06
Acontece por exemplo, na própria dogmatização duma sexualidade liberal, que transcende, consciências, respeito e a própria Razão, em cuja a Natureza nos trouxe até aqui. Sem esta mesma Natureza, na lógica dessa mesma Natureza, nunca existiriam dois homossexuais a questionarem-se sobre a co-adopção!
TigreGange
24-11-2015 15:01
Excelente! Concordo em absoluto! No seguimento deste maravilhoso enunciado, acrescento que a pseudo-dogmatização deste "caminho" do Ocidente, é fruto do próprio medo de acatar Verdades, que não vão de encontro, à tendência dos corpos, buscando na palavra - Liberdade - a fuga para os seus devaneios.

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