QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Jogar com os afetos (artigo de Manuel Sérgio, 112)
23:44 - 08-11-2015
Manuel Sérgio
Comecemos por reflectir com António Cabral: ”O que é o jogo? Uma actividade que dá prazer. Quem joga? O homem. Porquê? Porque tem necessidade de prazer (...). Mas façamos uma última pergunta: para que joga o homem? A resposta é, só pode ser esta: para vencer. Numa palavra, o homem joga pelo prazer que o jogo lhe dá, mas o prazer implica uma finalidade, sem a qual deixa de o ser. Essa finalidade é a vitória”(1). No entanto, a ideia da vitória supõe a consciência da imperfeição ontológica e o consequente movimento intencional da superação.

O prazer, ou a realização do desejo da vitória, diz-nos que na origem de tudo o que é humano está o desejo... incluindo o desejo de conhecer! O próprio Espinosa transformou a razão em paixão, pois que ela se move por um libido cognoscendi. A razão também aprendeu com Freud que não passa de “um delgado verniz na superfície do córtex, recém-chegada numa economia pulsional muito mais antiga e sujeita a ser subvertida pelos poderes mais arcaicos do inconsciente”(2). Que o mesmo é dizer: se bem atentarmos, o ser humano é um ser de prazer, porque é um ser de desejo. E, enquanto o desejo não se concretiza e a plenitude do prazer (ou a felicitas dos latinos e a beatitudo dos teólogos medievais) não chega, não nos resta senão jogar.

Só que antolha-se-nos justa a afirmação de que o jogo é centrífugo, ou seja, procura a vitória, escolhe o encontro. Distingo, por entre o acervo de recordações dos finais da década de sessenta, as minhas aulas na Escola de Educação Física de Lisboa, onde aconselhava os alunos à leitura do livro de Roger Caillois (Os Jogos e os Homens) e o de Jean Chateau (le jeu de l’enfant). Num país que, naquele tempo, adoecia, com uma guerra interminável, mumificado em academismos conformistas, aqueles livros despertavam a afogueada expectativa dos alunos.

Relembro que Roger Caillois definia essencialmente o jogo como uma atividade livre, delimitada, incerta, improdutiva, regulamentada, fictícia. Jean Chateau adiantava, como factos fundamentais constitutivos de todo o ato de jogar, a ficção, a exploração, a competição, a regra e pouco mais. Enfim, comecei a sentir instintiva simpatia pelo veio fresco das fontes do jogo, que parece brotar da motricidade humana, do corpo em movimento intencional. Será possível uma antropologia do prazer, a partir do jogo? Não duvido, pois que se toda a arte é jogo e se há uma racionalidade artística nos momentos mais altos (mais conseguidos) de qualquer actividade humana – é caso para acrescentar que o jogo se encontra até na parcela mais remota do prazer. Galileu afirmou que a Natureza se escreve, em signos matemáticos.

Só que todo o real é complexo (será preciso relembrar Edgar Morin, na sua Introdução ao Pensamento Complexo?) e o excesso de razão leva à loucura. Demais, é este mesmo autor que nos adverte: ”Temos hoje conhecimento do nosso duplo enraizamento, no cosmos físico e na matéria viva. Estamos simultaneamente na Natureza e fora dela”(3). E voltemos ainda a Edgar Morin: ”Devemos fazer tudo, para desenvolver a nossa racionalidade, mas é no seu próprio desenvolvimento que a racionalidade reconhece os limites da razão e efectua o diálogo com o irracional”(4).

E de novo sigo na esteira de Kant (sem ser inteiramente kantiano): a arte é jogo e o ser humano só o é, verdadeiramente, quando joga, ou seja, reconcilia em si mesmo a imaginação e o entendimento. Aliás, é por ser livre também e não residir aprisionado em qualquer código natural, inamovível e fixista, que o ser humano é um ser criador e moral. O determinismo da biologia, da psicanálise e do marxismo esquece que já o Sartre afirmou que não há essência, antes da existência. Por seu turno, António Damásio, um neurologista português de prestígio internacional, aconselha a que se substitua o cartesiano penso, logo existo, pelo sinto, logo existo ( e por que não amo logo existo?). De facto, segundo ele, “sem o sentir, não é possível pensar ou conhecer o que se pensa. Sem sentir, não há si. E, na ausência da maquinaria da emoção e do sentir, duvido que o comportamento moral jamais tivesse emergido”(5). No seu livro, Ao Encontro de Espinosa – as emoções sociais e a neurologia do sentir (2003), Damásio reafirma que os sentimentos integram o processo de regulação homeostática da vida. Por aqui se vislumbra a importância dos afectos, na vida toda do ser humano.

“Que ninguém entre aqui, sem desejo”. Esta frase de Valery poderia perfeitamente encimar o Banquete de Platão, onde o eros é o princípio da própria vida espiritual. Bruno Giuliani chama a atenção para o facto de o erotismo não ser somente a procura variada da excitação sexual, como diz o dicionário.” Ele diz respeito, na realidade, ao conjunto da existência humana, já que o seu objecto verdadeiro não é a sexualidade, mas o amor. Erótico qualifica tudo o que leva ao amor, tudo o que faz nascer o desejo amoroso: texto, obras de arte, actos, palavras. O erotismo não qualifica um objeto ou uma prática, mas uma situação existencial, simultaneamente física, afectiva e espiritual”(6).

Que fortuna não teve (não tem ainda) a pergunta de Michel Foucault: por que razão eros e logos surgem tão intimamente ligados, na cultura ocidental? O primeiro volume da Histoire de la sexualité intitula-se La volonté de savoir e assim se parte em busca da genealogia da sexualidade. Para os Antigos, o desejo tornava perigosas as práticas sexuais. Aristóteles diz isto mesmo, de forma lapidar, quando tenta explicar a funda incompatibilidade entre desejos e saber:”O desejo do prazer é insaciável e tudo o excita, no caso de ser destituído de razão, e o exercício do desejo aumenta a sua força inata. E se esses desejos forem grandes e em número excessivo podem ir até à exclusão da reflexão”(7). Para S. Agostinho, a ereção sexual era um sinal seguro do pecado original, inscrito indelevelmente no nosso corpo.

O Cardeal Cerejeira, nas suas Cartas aos Novos, afina pelo mesmo diapasão e, por isso, diz aos estudantes universitários, a quem se dirige, que para ser-se livre e puro é preciso combater “pela dura penitência todas as prisões da carne”(8). De facto, eros e logos, a desordem do prazer e a ordem da razão não coabitam, em toda a História da Igreja, sem desconfiança mútua. É que “o Amor (...) é inimigo dos amores, quem não tiver forças para quebrar amados ídolos de barro, não chegará nunca a adorar o Amor Vivo, que é o próprio Deus”(9). A felicidade, segundo alguns católicos (não todos, graças a Deus!), só se alcança, através da repressão do que há, em nós, de mais natural!... Schopenhauer afirmou, como se sabe, que o sujeito conhece-se a si mesmo como um volente e não como um cognoscente. Só que este sujeito cognoscente conhece-se a si mesmo como corpo e conhece esse corpo como vontade.

Wittgenstein subscreve esta antipatia insopitável de Schopenhauer pelo idealismo (hegeliano ou outro), dado que, também para o filósofo vienense, o sujeito é corpo e vontade. Ele vai ao ponto de afirmar que a vontade é “o suporte do bem e do mal”. Demais, tanto para Wittgenstein como para Schopenhauer, o mundo é axiologicamente neutral, pela razão mesma da sua contingência: no mundo, tudo é como é, não há nele qualquer valor. Com efeito, os valores residem no sujeito, não nos acontecimentos. Mas não é verdade que o sujeito é condicionado pelas ideologias, pelas instituições, etc.? Ora, não pode falar-se do erotismo, sem evocar o obscurantismo religioso, o puritanismo e todos os dogmas morais dos que defendem as públicas virtudes dos vícios ocultos (pois não é verdade que a virtude e o vício se encontram inextrincavelmente unidos?), que vêm condicionando, obstaculizando o jogo dos afetos.

Não defendo que as pessoas se deitem molemente no jardim estéril de Epicuro, como se mais nada houvesse a fazer na vida, mas não há realização pessoal, sem as emoções e os sentimentos de quem ama (porque também se ama) e se sente amado. Nos Manuscritos de 1844, Marx sustenta que “a relação imediata, natural e necessária dos seres humanos é a relação do homem com a mulher”. Ora, até há pouco (e ainda hoje, designadamente em lugarejos menos urbanizados) a inferioridade da mulher pervertia (perverte) qualquer relação afetuosa, pois que a relação homem-mulher refletia (reflete) a relação senhor-servo. A problemática dos afetos empurra-nos às questões mais fundantes da luta contra um determinado tipo de sociedade que perpetua a proibição sobre o direito ao prazer. Interessa, por isso, politizar este problema, em primeiro lugar através da denúncia das limitações que o legado platónico de Santo Agostinho nos deixou, mormente no capítulo dos afetos e da vida sexual.

O direito a práticas homosexuais e ao aborto e à sexualização do corpo-sujeito (mesmo no período infantil) deve merecer o tratamento teórico adequado e atempado, na própria Escola, a qual deverá ensinar, no mundo novo que é o nosso, a recriar o ser, o saber e o fazer. A repressão sexual, fundamentada na “vontade de Deus”, foi sempre aceite acriticamente e sempre decorreu da imposição despótica de alguns papas, conluiados com as relações capitalistas (e não só capitalistas) de domínio. No entanto, Freud, como se sabe, ampliou a noção de sexualidade, incorporando nela outras (não todas) formas de prazer. Num ponto havemos de convir: uma livre e libertadora vida afetiva e sexual não pode harmonizar-se com a exploração e alienação sociais, já que a submissão a um trabalho manipulador des-sexualiza a vida toda, re-sexualizando-a, demasiadas vezes, tão-só através da prostituição e do adultério; ou apenas sob o primado da função genital, como se o organismo, na sua globalidade, não fosse o fundamento da sexualidade.

Se não laboro em erro, foi W. Reich a declarar que “a essência da moral burguesa é a atrofia sexual”. De facto, ao exigir-se o que é biologicamente impossível, preparam-se as pessoas a todo o tipo de servilismos e absentismos. O regime salazarista recebeu da Igreja a bênção papal:” Numa hora de trevas e desvairamento, quando a nau do Estado Português, perdido o rumo das suas mais gloriosas tradições, desgarrada pela tormenta anticristã e antinacional, parecia correr a inevitável naufrágio, inconsciente dos perigos presentes e mais inconsciente dos futuros (...) - o Céu, que via uns e previa outros, interveio piedoso e das trevas brilhou a luz e do caos surgiu a ordem e a tempestade fez-se bonança e Portugal encontrou e reatou o perdido fio das suas mais belas tradições de Nação fidelíssima, para continuar (...) na sua rota de glória de povo cruzado e missionário”(10).

Só que, na Nação fidelíssima, “Salazar discordava profundamente do emprego feminino, considerando-o um atentado contra o ideal funcionamento das famílias”(11). A mulher tinha, verdadeiramente, uma única e superlativa missão: preparar-se para ser mãe e dona de casa. Nada mais! E, por isso, “a doméstica portuguesa, contemporânea da II Guerra Mundial, era, independentemente da sua condição sócio-económica, indiferente aos grandes problemas do país e do mundo. Ignorante e desligada da vida, transformava-se numa espécie de autista, sob a dependência do marido”(12). Seria possível, assim, um autêntico e aprazível relacionamento afetivo? “Nos segredos das alcovas raramente se consegue penetrar, mas todos sabemos que a tranquilidade das nossas mães e avós advinha mais da resignação do que de uma efetiva alegria”(13). A politização das relações afetivas (Reich propugnava mesmo a politização de toda a vida sexual)) dá-nos a informação bastante para concluirmos que os afetos não estão imunes ao contágio da política ambiente.

A moral sexual, por exemplo, não decorre da sociedade em que se pratica? O importante, neste campo, não é só a sexualidade, mas toda a emergência ontológica global, donde irradia a própria instância humana. Os afetos são a expressão do sentido que damos à nossa própria vida. O sexo constitui e constitui-se, na unidade dialética de factores objetivos, materiais e sociais, e fatores subjectivos, onde há consciência e desejo. Este é um ponto que Freud abordou parcialmente, quando asseverava que o recalcamento sexual é a condição prévia mais importante da evolução cultural e que a civilização se baseia na sexualidade recalcada. E uma pergunta é mister levantar-se, a propósito: e não há interesses sociais e políticos, no recalcamento sexual? Quando a lógica económica é a exploração do trabalho, o reconhecimento axiológico do ser humano como fim e não como meio (Kant, Die Metaphysik der Sitten, p.395) não é seguramente respeitado e nem a própria libertação sexual é oficialmente aceite, num contexto onde a liberdade se legitima, de acordo com os interesses oligárquicos e financeiros.

“Ao contrário do que os seus ideólogos apregoam, a atual fase de predomínio do capital financeiro é marcada pelo baixo crescimento económico e pelo aumento das desigualdades sociais, entre ricos e pobres, no mundo como um todo. A razão fundamental, para o comportamento declinante da economia mundial, parece residir, como aponta Chesnais (1988,p.18), na queda das taxas de investimentos, nas principais economias do mundo(...). Contudo, não parece correto creditar a estagnação de vastas áreas da chamada periferia e o aparecimento de bolsões de pobreza, nos países centrais, apenas ao baixo desempenho da economia mundial. Indícios sugerem que a nova configuração do capitalismo é adversa para o desenvolvimento económico e para o emprego em geral, mas particularmente para a periferia do sistema internacional, onde inúmeros países entraram, nas últimas duas décadas, numa fase de estagnação, que coincide, em muitos casos, com o naufrágio dos programas de desenvolvimento”(14). Pensar a vida afetiva, ou “a metáfora do coração”(Maria Zambrano), sem ter em conta que existir é coexistir e que a busca do humano do homem se encontra também no cuidado e na solicitude, que as estruturas políticas proporcionam – é, de facto, um reducionismo.

A pergunta pelos afetos, a pergunta pelo ser do homem provém (também) da compreensão dos fundamentos políticos do exercício da sua cidadania e, portanto, pela superação de uma especulação apenas subjectiva, apenas anseio de liberdade. Seria interessante, neste passo, revisitarmos a noção grega de bios politikós, como o fez Hannah Arendt (veja-se o seu livro A condição humana, editado, em 1995, pela Forense Universitária do Rio de Janeiro) e voltarmos ao pensamento pré-socrático, onde prática e teoria resultavam da mesma experiência vital. De facto, nesta autora, é no bios politikós e não no bios theôretikós que radica o próprio pensamento.

É preciso partir em demanda de paradigmas perdidos, anunciados, na modernidade, por Marx, Nietzsche e Freud, os quais nos ensinam que não há mistérios ocultos, mas ideologia; e que não há factos, mas interpretações e que estas são um mero jogo de poder. Jogar com os afetos também é jogar com o poder, pois que, também neste jogo dos afetos, há uma natureza, uma essência, um projecto de relação entre pessoas. Compreende-se, aqui, o lema augustiniano: “Ama e faz o que quiseres!”. Isto, desde que o querer seja igual ao dever e, assim, amar tenha como seu correlato um constante aperfeiçoamento moral.

Tenho diante de mim o livro de María Zambrano, A Metáfora do Coração e outros escritos, onde se lê que a função da metáfora é a de “definir uma realidade inabarcável pela razão, mas propícia a ser captada de outro modo. E é também a sobrevivência de algo anterior ao pensamento, pegada num tempo sagrado e, portanto, uma forma de continuidade com tempos e mentalidades passadas, coisa tão necessária numa cultura racionalista (15). Por isso, partindo do que esta autora sugere, há uma diferença abissal entre realidade e ser: este encontra-se ligado ao que é falado; aquele é a fala do infalável É que falar é reduzir, limitar a realidade, “na medida em que a realidade é não só o que o pensamento pode captar e definir, mas também isso que permanece indefinível e imperceptível, isso que rodeia a consciência, destacando-a como ilha de luz, no meio das trevas”(16).

Assim, podemos concluir que há, em nós, duas racionalidades distintas: a que se encontra ligada ao polo cerebral que, circunscrevendo a realidade ao ser, a manipula no sentido da visibilidade, da eficácia e do poder: e a que vive unida ao polo do coração, a qual “pretende manter intacta a diversidade e a incomensurabilidade da realidade e, por isso, se afunda numa comunhão com ela, permanecendo numa penumbra silenciosa”(17). Jogar com os afetos situa-se ao nível do polo do coração e supõe a rejeição da exclusividade de um paradigma puramente racional, observacional e externo, na análise dos fenómenos, incluindo os sociais e humanos, e o assumir de um paradigma pós-cartesiano, existencial e holístico, onde a verdade não resulta unicamente de uma aproximação, dirigida a um ideal de objectividade matemática, mas da revelação do sentido decorrente da fusão de horizontes humanos e humanizantes.

Concordo, sem dificuldade, com Jorge Dias de Deus, quando escreve:”Não há demonstrações rigorosas, ou com carácter definitivo, em ciência. Mas tal não implica que as ciências não produzam resultados válidos, testáveis e com aplicação prática”(18). Há que distinguir, porém, entre o que se faz intencionalmente, por motivos e razões e os acontecimentos naturais, resultantes de causas. O monismo metodológico, associado à tradição de Galileu e Descartes, e a sua intelecção pura, sobranceira ao tempo e à história, não têm em conta o mundo-da-vida, ou a totalidade da condição do ser-no-mundo. Daí, que Heidegger caracterize o pensamento ocidental como “metafísico”, sempre em busca de um fundamento unitário, assente na adaequatio rei et intellectus. Demais, o próprio logos é mythos, porque todo o pensar se fundamenta na vida, que é mito também, dado que a totalidade do ser humano é atravessada pela função simbólica.

Segundo Gilbert Durand, “a mitologia vem primeiro do que toda a metafísica e do que todo o pensamento objetivo. São a metafísica e a ciência que são produtos da repressão do lirismo mítico”(19). António Damásio, sem as flores inumeráveis da retórica, escreve:”As emoções desenrolam-se no teatro do corpo. Os sentimentos desenrolam-se no teatro da mente (...). Temos emoções primeiro e sentimentos depois porque, na evolução biológica, as emoções vieram primeiro e os sentimentos depois”(20). E mais adiante: ”corpo, cérebro e mente são manifestações de um organismo vivo. Embora seja possível dissecar estes três aspectos de um organismo, sob o microscópio da biologia, a verdade é que estes três aspectos são inseparáveis, durante o funcionamento normal do organismo”(21).

Em qualquer obra regida pela poética do jogo, a emoção, o imaginário, o mito surgem inevitavelmente. Para Fernando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo” E não é a imaginação que reescreve a realidade? Por isso, não há jogo, sem imaginação. Ora, “a infância constitui a etapa decisiva da formação do imaginário. O lento desenvolvimento da inteligência abstrata, durante os primeiros anos (Wallon e Piaget), associado às fortes estimulações pulsionais e ao instinto de jogo, tornam o psiquismo da criança particularmente recetivo à imaginação e aos sonhos”(22).

E poderíamos acrescentar, sem a sísmica voz dos dogmáticos: e ao jogo! “A relutância em reconhecer o carácter pedagógico do jogo, especialmente quando aplicado a crianças, só se justifica pela crença de que o conhecimento significativo é apenas aquele que a escola reconhece como tal”(22). Só que, ao jogar-se, nasce a hora entreaberta do espírito crítico e do sonho. “Se fizéssemos a experiência de acompanhar uma criança ou um adolescente, durante um dia em que não fosse submetida a obrigações pelos adultos, certamente testemunharíamos o jogo. É quase só o que fazem, quando estão livres (...). Deveríamos pelo menos dizer: Caramba! O que eles fazem deve ser, de fato, fundamental para as suas vidas. Caso contrário, não dedicariam tanto tempo a isso!”(23). E é fundamental porque a infância encontra, no jogo, liberdade, sonho, criatividade. Ao jogarem, a criança e o jovem procuram-se e educam-se a si próprios. “ Tal como tem necessidade de respirar e de comer, a criança tem necessidade de jogar. Uma criança que não joga será um adulto deficiente, dado que é através do jogo que ela forma a sua personalidade”(24). Ora, o homem todo e todos os homens medem-se, acima do mais, pelo imaginário, pelo sonho, pelo jogo – afinal, pela sua vontade de ser o que não são. E, portanto, viver é, principalmente, jogar, projectar, imaginar, antecipar, deixar todo o nosso ser a um vento que parece provir dos começos do mundo.

Jogar com os afetos é superar o vazio fundamental da vida, é tornar possível o prazer e o sonho. Todavia, neste exacto instante, a minha memória esguicha imagens de homens apaixonados, que vomitam ódio, crueldade, barbárie, como se a força explosiva da humanidade se desentranhasse tão-só numa demência insanável.

A História está fortemente enodoada por monstros deste jaez. No entanto o mal pesa como anúncio do bem. O Homo Sapiens-Demens (Edgar Morin) é pelas “desordens da afectividade e as irrupções do imaginário” que, muitas vezes, persegue o possível e cruza, em amor ou amizade ou admiração, toda a sua vida, com a vida do seu semelhante. E é precisamente nesses momentos que é preciso saber jogar e concretizar essa lúdica sabedoria, como um génio não nasce apenas do estudo, mas da capacidade para (de forma singular, acrescentemos) materializá-lo. O jogo prova, servindo-nos das palavras de Sartre, que a liberdade é o estofo do nosso ser. E, porque sou liberdade vivida, eu sou necessariamente um projecto, onde serei uma, entre as muitas possibilidades que a indefinível complexidade do que sou permite.

Por isso, jogar com os afetos é ter a certeza que nada do que é humano permanece imóvel, espetral, porque tanto nós, como os outros, somos a vontade permanente da nossa liberdade. E, daí, a sabedoria para jogar com os afetos e o sonho (ou até a loucura), para encontrar nos motivos dos afetos um fim, um verdadeiro imperativo categórico, dado que os sentidos, as emoções, a imaginação não são inimigos do pensamento. Ao invés: são sua condição indispensável. O ser humano faz-se, fazendo-se e, ao fazer-se, joga com os afetos, principalmente com os afetos. O que é o homem sem afetos? Ou frio, distante, insensível? Ocorre-me o Fernando Pessoa: ”uma besta sadia, um cadáver adiado que procria”.

(1) Cabral, António: O mundo fascinante do jogo, Notícias Editorial, Lisboa, 2002, p.23
(2) Rouanet, Sérgio Paulo: “Razão e Paixão”, in Vários, Autores: Os Sentidos da Paixão, Funarte-Companhia das Letras, 1987, p.461
(3) Morin, Edgar: O Método V. A Humanidade da Humanidade – a identidade humana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2003, p.21
(4) Morin, Edgar: Amor, Poesia, Sabedoria, Epistemologia e Sociedade, Instituto Piaget, Lisboa, 1999, p. 12
(5) Damásio, António: O Sentimento de Si – O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2000, p.53
(6) Giuliani, Bruno: Do Amor da Sabedoria – Iniciação à Filosofia, Epistemologia e Sociedade, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, pp. 242/3
(7) Aristóteles: Ética a Nicómaco, III, 15, 11, 9 b3
(8) Cerejeira, Gonçalves: Cartas aos Novos, Casa do Castelo Editora, Coimbra, 1944, p.62
(9) Idem, ibidem, p.79
(10)Pio XII: “mensagem de 31-09-1942, in Salazar – antologia de depoimentos, Nova Arrancada, Lisboa, 2000, p. 25
(11)Martins, Maria João: O Paraíso Triste, Veja, Lisboa, 1994, p. 121
(12)Idem, ibidem, p.119
(13)Idem, ibidem, p. 117
(14)Martins, Clélia Aparecido: “Em defesa de uma ética universal”, in Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, Janeiro-Março de 2003, pp. 230/231
(15)Zambrano, Maria: A Metáfora do Coração e outros escritos, Assírio e Alvim, Lisboa, 1993, p.19
(16)Zambrano, Maria: El Hombre y lo divino, Ediciones Siruela, Madrid, 1991, p.79
(17)Henriques, Fernanda: “Maria Zambrano e as Metáforas do Coração”, in Poiética do Mundo – homenagem a Joaquim Cerqueira Gonçalves, Edições Colibri, Lisboa, p. 627
(18)Deus, Jorge Dias de: Da Crítica da Ciência à Negação da Ciência, Gradiva, Lisboa, 2003, p.50
(19)Durand, Gilbert: Les structures anthropologiques de l’imaginaire, Borda, Paris, 1969, p.458
(20)Damásio, António : Ao Encontro de Espinosa, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2003, pp. 44/46
(21)Idem, ibidem, p. 220
(22)Freire, João Batista; Scaglia, Alcides José: Educação como prática corporal, Editora Scipione, S.Paulo, 2004, p. 160
(23)Idem, ibidem, p.162
(24)Sousa, Alberto B.: Educação pela Arte e Artes na Educação – 1º volume – bases psicopedagógicas, Horizontes Pedagógicos, Instituto Piaget, Lisboa, 2003.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

NOTÍCIAS RELACIONADAS

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de ÉTICA NO DESPORTO

Ética no Desporto “O futebol é muito mais do que um esporte profissional de alto rendimento: é a metáfora de uma sociedade. Em outras palavras, é a síntese de múltiplas determinações objetivas e subjetivas – emocionais, existenciais, culturais, sociais, humanas” (p. 1
Ética no Desporto Para deixar tudo na mesma e alimentar a impunidade, o habitual é tratar de problemas ao lado do que eles são. Dá circo e espectáculo, enquanto há atenção pública; mas, apagadas as luzes das câmaras e desligados os microfones, vê-se tudo na mesma.

destaques