QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Líder: arquitecto de simetrias (artigo de José Antunes de Sousa, 19)
16:20 - 06-11-2015
José Antunes de Sousa
Ele há episódios, nestas coisas do futebol, que me fazem lembrar a guerra do Raul Solnado: empregado numa indústria de productos farmacêuticos, deixou cair e partir – grande desgraça! – um comprimido e foi despedido! Assim acontece, volta e meia – ou só meia volta – com os treinadores de futebol – em toda a parte, mas sobretudo aqui no Brasil onde as mudanças se dão ao ritmo do forró. Creio até que a treinador que consiga manter-se num clube (time) durante a temporada inteira bem se lhe poderia erguer uma estátua por tão singular feito ou, num registo bem mais prosaico, bem se poderia compensá-lo com um lugar de senador.

A história é bem conhecida, de tão frequentemente repetida: críticas dos dirigentes para alguns jogadores pouco empenhados e em clara contenção de custos com a lavandaria e, em contrapartida, enfática reafirmação de total confiança no timoneiro: claro que, ao próximo resultado negativo, é precisamente o treinador que é posto no olho da rua – e, ao contrário do que se costuma aduzir nestas circunstâncias, não é nem por ser o elo mais fraco, nem por ser mais fácil despedir uma pessoa apenas do que toda uma equipa. Vejamos:

Embora estas decisões expeditivas se revelem, na maior parte dos casos, inconsequentes, pois um grupo doente tende a contaminar quem dele se acerca, a verdade, porém, é que tal atitude dos dirigentes, tem, apesar de quase sempre precipitada, alguma lógica. Merece um pouco da nossa atenção.

De facto, censurar a falta de empenho e de compromisso de alguns atletas, como acaba de suceder na Luz no rescaldo amargo do recente dérbi, e, ao mesmo tempo, declarar o apoio ao técnico principal, é, em si mesmo, uma insanável contradição: porquê? Vejamos.

Estamos ou não todos de acordo que é da própria natureza da função do treinador, enquanto líder, garantir a coesão intencional e empenhativa do grupo, isto é, de todos e cada um dos seus membros, sem qualquer excepção? Que há sempre uns tipos mais renitentes e complicados? Como aquele mais gordinho e amigo das estrelas que vem ficando de fora das opções? Cabe ao treinador assumir a função de um facilitador de consciência, de dinamizador de vontades e de harmonizador de intencionalidades – em ordem à unidade motivacional do grupo, isto é, um conjunto diverso unificado na qualidade e intensidade das intenções em torno dos objectivos institucionalmente estebelecidos. Sim, cada um tem toda a responsabilidade, mas cabe ao treinador garantir que sejam todos a tê-la, a assumi-la.

Entendamo-nos: com isto, eu não estou, nem por sombra, a fazer a apologia dos intempestivos despedimentos, o que sim estou a afirmar é que na gestão motivacional de um grupo, no caso vertente, de uma equipa de futebol de um clube, sobretudo se for de grande dimensão em relação ao qual a pressão social aumenta exponencialmente, tem que haver uma correcta e proporcionada atribuição da cota de responsabilidade: é o princípio da equidade funcional.

É por isso que merece que se denuncie a ligeireza com que, hoje em dia, se opta pela carreira de treinador – só porque se foi jogador ou só porque os pais puderam pagar o curso de verão em Rio Maior: sem real capacidade de autoempoderamento - pois só comanda os outros quem em si mesmo manda - nada feito.

Numa situação em que se detecta a existência de bolsas de resistência, de zonas de depressão no mapa da geografia motivacional do grupo, o líder tem que comportar-se como um arquitecto de simetrias, apesar das óbvias assimetrias interpessoais, desempenhando a função agregadora de vontades – ele é o sedutor por excelência do coração de cada um dos elementos do grupo. Sim, porque o coração é a sede da vida intelectiva: «o coração tem razões que a razão desconhece» (Pascal). E o grupo não se confina ao número daqueles que mais vezes jogam – este mais um dos erros clássicos. E os lesionados de quem o técnico se costuma alhear -«estão entregues aos cuidados do departamento médico», como se tivessem sido apartados do grupo por uma espécie de cintura sanitária – eles devem sentir, a todo o tempo, a efectiva solidariedade do grupo e de todos. Sim, todos: os dirigentes são também parte importante do grupo, como o são, a seu modo, os próprios adeptos. E ver e sentir esta concentralidade de anéis como constituintes de um ninho significativo – eis o que se requer da inteligência prática e emocional de um verdadeiro líder.

Voltemos ao coração, que é lá que reside a verdadeira solução para os nossos problemas: a um coração radioso e apaixonado pela vida e por aquilo que ela dá nada o fatiga – e as equipas felizes quase não se cansam: «correr por gosto não cansa». Neste caso, o ácido láctico, ou, mais rigorosamente, o lactato, até parece não acumular-se nos músculos e no sangue, mas como que é transmutado, ao jeito de uma autorecursividade energética, como se, por efeito de esta consciência expansiva e jubilosa, acontecesse uma espécie de alquimia da felicidade.

E como é que a consciência se expande? Através do acesso a novos contextos de significado – eis o segredo de um sucesso consistente! Digamo-lo do seguinte modo: o sucesso só acontece realmente quando o grupo partilha, em uníssono, da experiência criativa de um súbito e gostoso acesso a um novo contexto significativo. Neste sentido, o treinador tem que ser uma espécie de prestidigitador que inventa, a cada passo, contextos novos que concitem a adesão entusiástica de todos, rigorosamente todos – e entusiasmo vem de en+theos («em Deus»), ou, ainda mais expressivamente, de enthousiazein, que significa «estar possuído por um deus»!

Só a alegria é verdadeiramente criativa. De resto, como poderia uma equipa triste criar, se estar deprimido é estar desligado, desconectado de si próprio? Disse de si próprio, isto é, da sua essência, não das suas coisas que vêm e vão e por isso é que se cai na depressão. E estar desligado de si é estar necessariamnete desligado do dínamo de toda a criatividade: as equipas tristes e contrariadas são apenas um conjunto de pessoas – homens ou mulheres – vergadas pelo cansaço que lhes envenena o sangue e o coração – a derrota é o seu clima natural.

Eis, a talho de foice, o mecanismo que favorece, basicamente, o insucesso: o stress competitivo, gerado pela drástica e excessiva preponderância da vivência agonística em prejuízo da pura ludicidade, isto é, do gozo fruitivo do jogo, provoca, pela sua natureza centrífuga, um estado de dissociação entre a mente do ego-self, restrita e ansiosa, e a serena posse de uma mente expandida, ou seja, esse desequilíbrio, egóico e ansioso, promove, por via do seu próprio teor disfuncional, a desconexão do atleta com a essência de si, esse campo fértil e fervilhante de toda a criatividade. Certamente que alguns treinadores e atletas do Benfica, ao lerem estas linhas, recordar-se-ão de pequenos truques que lhes sugeri e que visavam justamente a chamada à ordem, uma certa forma de retoma de auto-poder, num processo reflexo, enfim, de recentramento consciencial, beneficiando criativamente dos breves hiatos competitivos.

É por isso que vejo no líder, qualquer que seja, mas, no nosso caso, no treinador, antes do mais, um polidor de arestas na demanda permanente de uma harmonia que se expressa excelentemente na redondeza do grupo, numa alusão viva à pitagórica «dança das esferas».

Porque se não, «quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão». Como, fazendo-se eco do dito popular, escreveu José Cardoso Pires em Dinossauro Excelentísssimo.

É que o treinador, para além de ser, dentro de uma geometria da exigência no interior do grupo, o maior responsável, ele, tal como o mexilhão na rocha e à superficie, está mais exposto à tempestade e à frúria das ondas alterosas.
Pois é.

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

comentários

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TigreGange
06-11-2015 17:45
Excelente! Do melhor que já vi, aqui no jornal "Abola", senão mesmo, o melhor artigo! Excelente!

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