SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Gustavo Pires
Espaço Universidade
Educação Física & Desporto: Um Absurdo Epistemológico (artigo de Gustavo Pires, 21)
15:53 - 26-10-2015
Gustavo Pires
O desporto é um criador de imagens, de recordações e de mitos. Por isso, o ano de 1912, com a fundação do Comité Olímpico Português a 30 de Abril, a primeira participação nacional nuns Jogos Olímpicos (JO), os de Estocolmo (1912), e o colapso de Francisco Lázaro em plena prova da maratona do qual resultaria a morte do atleta, é o ano mítico do desporto português.

A fase de arranque do desporto português aconteceu em meados do século XIX a partir das mais diversas atividades recreativas esporádicas, ligadas ao cultivo das terras, à faina do mar, às artes e aos ofícios, à instrução militar, aos trabalhos do circo, bem como às atividades, do ponto de vista desportivo mais consistentes, desenvolvidas já em finais do século, de acordo com o paradigma do industrialismo que determinava a organização da sociedade por toda a Europa. Esta dinâmica, em grande medida, ficou-se a dever à Família Real e, em especial, ao empenho do Rei D. Carlos (1863-1908) a quem os portugueses devem a institucionalização do MO em Portugal, a consequente fundação do Comité Olímpico Português e a participação de uma Missão portuguesa nos JO de Estocolmo (1912).

A partir da segunda metade do século XIX tinham começado a surgir as primeiras organizações desportivas como a Real Associação Naval de Lisboa fundada em 1856 que desencadearam um conjunto de práticas desportivas mais ou menos sistematizadas segundo um calendário de festas populares à semelhança daquilo que ia acontecendo por toda a Europa. Contudo, quando, a 19 Outubro 1889, D. Carlos foi aclamado Rei, as práticas desportivas em Portugal tinham pouco significado e o jornal “O Sport” no seu segundo número comentava que “o sport ainda não foi compreendido como deve ser em Portugal”. De facto, o desporto no País estava reduzido a um escasso número de modalidades, praticadas informalmente por um número limitado de “sportmen” principalmente provenientes da burguesia e da aristocracia dos principais centros urbanos, muito mais numa perspetiva de recreação do que propriamente sob a forma de competições estandardizadas que o desporto moderno, desencadeado pelo industrialismo, impunha.

O primeiro sinal de que as coisas estavam para mudar no mundo do desporto aconteceu quando, a 20 de novembro de 1905, D. Carlos iniciou uma visita oficial a França. Segundo Mário Reis autor do livro “Curriculum-vitae do Dr. José Pontes” (1944), o primeiro representante do Comité Olímpico Internacional em Portugal foi indicado a Pierre de Coubertin a pedido deste pelo rei D. Carlos que escolheu médico António Lancastre certamente por ele este estar ligado à Assistência Nacional aos Tuberculosos e, ao tempo, ilusoriamente, se julgar que o desporto, enquanto atividade pretensamente no domínio da educação física, podia ajudar a resolver o dramático problema da tuberculose. António Lancastre exerceu as funções de representante em Portugal do COI a partir de 9 de junho 1906 data da carta em que informou Pierre de Coubertin aceitar tal incumbência, até 10 de novembro de 1910 data em que, devido à instauração da República, escreveu uma carta de resignação a Pierre de Coubertin. António Lancastre, na medida em que, enquanto tísico, nada tinha a ver com o desporto, acabou por deixar o COI sem que tivesse tido qualquer ação.

Entretanto, no domínio da educação física o processo também avançava. O Diário do Governo, de 4 de Novembro de 1905 aprovou os programas do curso dos Liceus entre eles o de “educação física” que se consubstanciava no modelo sueco de ginástica que, segundo Furtado Coelho, já vinha, por ele próprio, a ser desenvolvido em Portugal desde 1891. Ao tempo, a educação física estava subordinada aos médicos, aos militares e os professores de ginástica que tinham nascido mais ou menos de “geração espontânea” a partir das atividades circenses. Entre eles é de referir o nome de Luiz Monteiro considerado o primeiro professor de ginástica português que, por tal facto, devia ter um busto em sua honra na entrada do Instituto Nacional de Educação Física / Faculdade de Motricidade Humana. Contudo, como a memória dos homens é fraca…

O que hoje é claro, embora politicamente incorreto dizer, é que as preocupações e os anseios dos apaniguados do desporto que, simplesmente, desejavam participar em competições e quadros competitivos organizados que deviam resultar na participação nos Jogos Olímpicos, nada tinham a ver com as preocupações dos apaniguados da educação física que estavam interessados nas questões relativas à anatomofisiologia; à saúde sobretudo às relacionadas com o combate à tuberculose, bem como à eugénica melhoria da raça portuguesa de fundamental importância para alimentar a cultura belicista da época que resultou na participação portuguesa na primeira Guerra Mundial.

Note-se que a primeira pessoa a verificar que entre a educação física e o desporto se estava perante dois paradigmas contraditórios e em acelerada rutura epistemológica foi precisamente Pierre de Coubertin quando, a partir do segundo Congresso Olímpico realizado no Havre em 1897 consumou uma rutura definitiva com a educação física ao tempo protagonizada por Filippe Tissié um suecofílico exacerbado para quem a bicicleta era um instrumento de ginástica por oposição aos “sportmen” para quem a bicicleta era um apetrecho de competição desportiva.

Entretanto, em 1907 Furtado Coelho publicou o livro intitulado “A Gymnastica Sueca” e, a 29 de dezembro, proferiu, em Lisboa, na Academia de Estudos Livres, uma palestra subordinada ao título “o méthodo de Ling considerado como a base da educação physica”. Estes dois acontecimentos, associados ao prestígio de Furtado Coelho, foram certamente as causas próximas que levaram um conjunto de prosélitos da educação física, menos de dois anos depois, a 26 de outubro de 1909, a fundarem a Sociedade Promotora da Educação Physica Nacional (SPEPN).

A este respeito o que nos interessa considerar é que Furtado Coelho concluiu a sua conferência com a seguinte proclamação: “parece-me pois evidente que deverá ser pela – respiração - que se deve começar a educação physica da creança portugueza, e sendo assim a importância do perfeito ensino das posições iniciais do methodo de Ling, aos olhos do pedagogista, uma importância do mais alto valor.” Ora bem, o problema era que os prosélitos do desporto não estavam dispostos a terem de “aprender a respirar” (!) antes de poderem praticar desporto. Todavia, muito embora as práticas desportivas acontecem de uma forma espontânea, os ventos não corriam favoráveis ao desporto. O dramático assassinato de D. Carlos a 1 de fevereiro de 1908 constituiu um enorme retrocesso para o desporto nacional. Desde logo porque, como o acontecimento mereceu um forte repúdio por parte da generalidade dos países europeus, Portugal acabou por não ser convidado a participar nos Jogos Olímpicos de Londres (1908) como naturalmente teria acontecido uma vez que seria o próprio Coubertin a encarregar-se do convite.

A SPEFN era dominada por médicos, militares e professores de ginástica que, balizados no método sueco de ginástica tinham uma visceral antipatia por qualquer atividade desportiva que, à semelhança daquilo que se passava em França, fosse para além de uns jogos recreativos de carácter pedagógico. Por isso, o desporto, enquanto atividade popular que era, destabilizava-lhes o método, a ordem, a regra, a disciplina e a hierarquia, tão necessárias à afirmação corporativa dos professores de educação física que lutavam por um lugar de quadro “à mesa do orçamento”. A este propósito é significativo o exemplo de Duarte Rodrigues, um prestigiado “sportsman” que, em 1909, teve de se manifestar contra o higienista Dr. G. Ennes que, no Diário de Notícias de 8 de setembro de 1909, escreveu um artigo com o elucidativo título: Deve Proibir-se o Foot-ball?

Por isso, não é de estranhar que, segundo José Pontes, em 1913, tenham surgido divergências insanáveis entre a SPEFN e o COP, quer dizer, entre os prosélitos da educação física e os do desporto. As divergências avolumaram-se ao ponto de, em 1916, no 1º Congresso de Educação Física organizado pelo Ginásio Clube Português, ter sido apresentada uma proposta com o objetivo de submeter a população envolvida no futebol a uma rigorosa inspeção médica para se apurar quanto à sua sanidade mental. Dizia o seu proponente o Dr. Manuel Ferreira Ribeiro, Coronel Médico:

“É absolutamente indispensável que se faça um rigoroso inquérito á população do Foot-Ball em Portugal, procurando saber o grau de mortalidade e o grau de morbidez, que nesta população se observa; se os interessados nestes jogos têm cursos científicos ou trabalhos literários, se têm o corpo sem taras e o cérebro desintoxicado muito bem equilibrado; se têm boa robustez física, demonstrada pelas modernas fórmulas antropométricas, perfeitamente aplicadas; se têm boa respiração, bem demonstrada por meio de um bom espirómetro; se têm velhice precoce ou se podem obter a velhice natural, prolongando a vida para além dos cem anos; e finalmente se êm fecundidade, boa saúde e franca longevidade. Por um ou por mais inquéritos muito apropriados assentando em observações bem feitas e claramente expostas se apure a verdade que possa contrapor-se a exageros, que se divulgam e merecem ser contestados. O Congresso em todo o caso resolverá o que tiver por mais justo ou por mais conveniente”.

A posição do Coronel Ferreira Ribeiro representa bem o espírito que já vinha do século XIX relativamente aos preconceitos em relação ao desporto produzidos pelos apaniguados da educação física. Por isso, não é de estranhar que, perante a mais completa indiferença da SPEFN, sem qualquer vocação estatutária para desencadear a preparação de uma Missão portuguesa a estar presente nos JO de Estocolmo, a 30 de abril de 1912, numa assembleia conjunta da direção da SPEFN e os delegados de diversas coletividades desportivas à qual se associaram diversos jornais e jornalistas que, ao tempo, eram os maiores e melhores propagandistas do desporto, foi fundado o Comité Olímpico Português.

E note-se que, conforme relata a revista “Tiro e Sport” de 12 de julho de 1912, a orientação para fundar o Comité Olímpico Português chegara a Lisboa por indicação do próprio Pierre de Coubertin. Este, com aquela capacidade de ver mais longe e primeiro, no ano anterior tinha publicado no número 67 da Revue Jeux Olympiques um texto intitulado “mens fervida in corpore lacertoso” que estabelecia uma rutura com a velha máxima de Juvenal, adotada pelos arautos de uma educação física de caráter higienista. Coubertin considerava que “o mens sana…”, de tanto ter sido utilizado em tudo quanto era discurso proferido por gente perfeitamente ignorante, se transformara numa expressão ridícula sem qualquer significado para o desporto. Para ele, era uma expressão do foro médico, demasiado higiénica e pouco desportiva, pelo que até procurou arranjar-lhe um substituto lançando uma nova máxima a fim de contrariar os ideais dos higienistas suecos, bem como os seus desejos de imporem o seu método ao Movimento Olímpico.

Ao fazê-lo, assumiu do ponto de vista epistemológico uma rutura com o “mens sana in corpore sano” para abraçar uma nova divisa com uma compleição, dizia ele, eminentemente desportiva: “mens fervida in corpore lacertoso” quer dizer, “um espírito ardente num corpo treinado”. E assim, esclareceu que se estava perante por uma nova prática, a desportiva, livre, criativa e popular que nada tinha a ver com o caminho fechado, estandardizado e corporativo do equilíbrio cartesiano que a educação física dizia preconizar. Na realidade, equilíbrio estático do “mens sana…” de Juvenal entrava em contradição com a euritmia do equilíbrio dinâmico dos excessos do “citius, altius, fortius” do desporto popular e do homem total que se sustentava em organizações espontâneas como eram os eventos desportivos populares na velha tradição pedagógica da auto organização dos estudantes da escola pública de Rugby superiormente dirigida por Thomas Arnold.

Por isso, sobre a subordinação do desporto à educação física ou até, tão só, sobre a coordenação entre o desporto e a educação física, estava-se perante uma impossibilidade epistemológica que, ainda hoje, continua por resolver. Quer dizer, era impossível conciliar uma educação física erudita que, por motivos elitistas, queria educar as massas no falso equilíbrio estático entre o corpo e o espírito simbolizado no “mens sana…” e os prosélitos do desporto que encontravam no desporto o equilíbrio dinâmico da euritmia da competição formal consubstanciada num desporto popular que, por via da superação competitiva, desejava a excelência da participação em grandes eventos desportivos entre eles os JO a fim de conseguir a ascensão económica e social.

Quer dizer que, independentemente do processo histórico e de todos os acontecimentos que dele decorrem, que trataremos numa próxima oportunidade, as diferenças epistemológicas entre a educação física e o desporto assumidas clara e frontalmente por Pierre de Coubertin que utilizou a expressão educação física ao longo dos milhares de páginas que escreveu não mais de meia dúzia de vezes, levam-nos a concluir que a educação física e o desporto sempre foram realidades que produziam práticas sustentadas em discursos completamente diferentes. A educação física baseada na ginástica sueca tinha um discurso erudito sustentado nas questões da saúde, no apuramento da raça e na preparação militar. O desporto desenvolvia um discurso popular baseado na medida, no rendimento, no record, no espetáculo, no profissionalismo, na participação nos JO e na ascensão social.

Quer dizer, a identidade cultural e os objetivos prosseguidos por cada uma das duas instituições sempre entraram e ainda entram em confronto. Se quisermos, a palavra-chave que determina a impossibilidade epistemológica entre elas é “competição”. Pretender encontrar pontos de referência mútua entre ambas trata-se de um absurdo epistemológico. Por isso, a fundação do Comité Olímpico Português, aliás como aconteceu em demais países, como um ato genuíno, singular, independente e criativo, aconteceu a 30 de abril de 1912 a fim de preparar a Missão portuguesa que havia de estar presente nos Jogos da V Olimpíada que iam acontecer em Estocolmo.

Quando o Comité Olímpico de Portugal insiste considerar a data da sua fundação como sendo a data da fundação da SPEFN para além de não estar a respeitar o ano de 1912 que foi o ano mítico do desporto português, está profundamente errado sob o ponto de vista epistemológico, bem como, como posteriormente veremos, historiográfico.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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