SEGUNDA-FEIRA, 27-03-2017, ANO 18, N.º 6267
José Neto
Espaço Universidade
As equipas felizes ganham mais vezes (artigo de José Neto, 16)
17:01 - 10-10-2015
José Neto
UMA NOVA CONSCIÊNCIA DA VIDA PARA UMA MELHOR QUALIFICAÇÃO DO JOGO

Por muito que a tática funcione como “identidade” coletiva de uma equipa e contribua para que os jogadores atuem de acordo com princípios e subprincípios de jogo sistematizados com o treino, muitos são os fatores incontroláveis que impõem uma imprevisibilidade num resultado.

Nos dias de hoje, torna-se possível através da análise estatística e dos avanços tecnológicos, identificar e quantificar diferentes parâmetros da equipa e dos adversários e construir estratégias para tirar partido das suas debilidades. Mas a cada momento são sempre os jogadores a tomar as decisões e a dar ao jogo um novo rumo.

Fatores como a autoconfiança, a motivação, o espírito da equipa, a atenção e concentração, etc, assumem um significado especial para que a imprevisibilidade do resultado possa ser mais limitada e o rendimento do jogador possa ser justificadamente otimizado.

De acordo com Goswami (2008), a “Consciência é a base de toda a existência”, facto que implica necessariamente o absoluto primado dessa mesma consciência sobre os demais elementos na construção da forma desportiva (física, técnica, atlética, funcional…). Isto é, um corpo fisicamente em forma mas descrente nos objetivos de conquista, não é de modo algum suficiente para garantir o sucesso no seu desempenho.

Como temos vindo a referir, o estado de crença no rendimento para a conquista de objetivos, terá que estar arreigado a uma condição de uma sólida consciência competitiva, medida pelo eco libertador de um estado de felicidade. E o sucesso desportivo jamais poderá assumir-se como um desígnio absoluto, pois ele inscreve-se inelutavelmente na dinâmica polar da experiência humana (Sousa, A. 2014).

Tudo isto assenta na tese da intencionalidade operante (Sérgio, M. 2008), que nos garante que é a partir do tónus mental e emocional que cada sujeito cria a própria realidade. Deste modo bem podemos explicar o contributo inestimável de um estado de consciência ancorada num estado de felicidade, que permite um estatuto pleno do ganhador.

De facto, a felicidade enquanto “estado de satisfação agradável da mente” (Oxford English, ap. Uugh Prather, 2002), permite admitir uma condição essencial e necessária de um qualquer sucesso, que o seja realmente. As equipas felizes ganham mais vezes e com a inestimável e decisiva vantagem de, mesmo perdendo poderem continuar felizes, pois ficam mais disponíveis para em seguida ganhar. Porque efetivamente aquilo que melhor pode explicar a capacidade reativa de um desaire, não é pelo facto de cair (falhar), mas pela prontidão com que se levanta, passando a ganhar. E porque se passou por uma posição de sofrimento experienciado da derrota, essa sabedoria do vivido irá fazer detonar uma dose indutora de libertação de endorfinas e dopaminas, o “químico da motivação” no cérebro e por compensação, um espasmo de serotonina, o chamado “químico da felicidade”, restabelecendo o equilíbrio consciente da vitória anunciada.

Equipas felizes transportam no seu seio uma energia autenticada pela segurança no que querem fazer, ocultando o que têm de evitar e são capazes de produzir relações de elevada estabilidade, autenticadas pelo sucesso alcançado. Os elementos que delas fazem parte estabelecem um clima de relações mais estável e porque possuem um sistema imunitário mais resistente e duradouro, fazem das causas participativas, no viver e no treinar, os melhores instrumentos para atingir resultados de sucesso.

Sabemos que a capacidade humana para se adaptar a novas circunstâncias é especialmente admirável. Somos instrumentos facilitadores do reencontro com as coisas da vida. Nós encorpamos ações que ao se verem repetidas se transformam em hábitos. Assim é que se torna imperioso qualificar hábitos de vida e hábitos de treino onde possa imperar o entusiasmo, a confiança, a alegria, a felicidade, o otimismo, gerando um ciclo virtuoso que possa estimular os mecanismos do encontro com o êxito pensado para o sucesso conseguido.

Por isso se constata, e tenho-o repetidamente referido, para estas equipas, muitas vezes os níveis de dificuldade nas respostas às exigências da competição, se transformam em força mobilizadora e aglutinadora que, por sua vez, se traduz num enorme empenhamento coletivo onde se vê despertar o sucesso, porque foi vivenciada a felicidade adquirida, e ao se sentir bem com a própria vida e o sucesso conseguido, porventura advindo de múltiplos desafios colocados, porque se tornam mais desafiadores, geralmente perduram mais no tempo.

E recorrendo novamente a Sérgio, M.; (2008): “ quanto mais se conhece o homem, mais conhecemos os homens que jogam, porque na prática do belo jogo sempre aparece o indivíduo e seu aporte físico, biológico, social, político, cultural onde a ciência e a consciência não se limita à degradação dos gastos energéticos e neuromusculares e ainda porque, em cada gota de suor, terá sempre de conter um grão de pensamento”. Nessa configuração estrutural de reflexão crítica, continua ainda o nosso querido Professor Manuel Sérgio “ o ser humano, é corpo, mente, desejo, natureza e sociedade. Esse corpo em ato onde emerge a carne, o sangue, o prazer, a paixão, a rebeldia, as emoções e os sentimentos, tudo isto, visando a transcendência ou a superação”.

Como referia Aristóteles: “ nós somos o que repetidamente fazemos” e confirma Padre António Vieira: “ nós também somos o que pensamos e fazemos. Quando nada fazemos, deixamos de existir, apenas duramos”. Neste domínio do consciente, da vida para o treino, do treino para o rendimento, do rendimento para o resultado, do resultado para o sucesso … um longo caminho que importa percorrer com humanismo, ciência e razão!...

Obs.: Estive num destes dias no “quartel general” da seleção nacional na apetecida e bela cidade de Braga, num local que também marcou de forma afetiva a minha vida profissional, no tempo em que exercia as funções de metodólogo de treino do SC Braga, e que durante 3 anos, o Hotel do Parque, se constituiu o nosso local de estágios.

Senti no ar que escapava entre as vozes, sorrisos e também do silêncio dos jogadores, selecionador, presidente da FPF. e restante staff da equipa de todos nós, uma brisa leve e suave, onde se enxergava uma espectativa de otimismo, como chama anunciadora de sucesso.

Tal aconteceu no cair da noite de 8 de Outubro, no emblemático Estádio Municipal, também conhecido por “Estádio da Pedreira” e que da pedra, do cimento e ferro se passou a erguer os alicerces para o “castelo dos sonhos” do Europeu – França 2016.

VIVA PORTUGAL

José Neto
Metodólogo de Treino Desportivo
Mestre em Psicologia Desportiva
Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol
Formador/Instrutor FPF–UEFA
Docente Universitário

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