SEGUNDA-FEIRA, 26-06-2017, ANO 18, N.º 6358
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
João Paulo S. Medina: - o “intelectual” do futebol brasileiro (artigo de Manuel Sérgio, 106)
23:13 - 29-09-2015
Quando, em Setembro de 1983, convidado pelo Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, conheci, pela primeira vez, terra brasileira, não poderia prever que o núcleo central das minhas ideias já fosse estudado por um brasileiro ilustre: o professor João Paulo S. Medina.

“Tomemos, por exemplo, o ato de andar ou correr, instrumento dos mais naturais utilizado pela educação física. Se o profissional da área, seja ele educador em uma escola ou treinador em um clube desportivo, considerar tal ato em sua perspetiva bruta, isto é, no seu sentido fisiológico mais vulgar, como é comum, sem interpretá-lo em sua essência, estará a empobrecê-lo substancialmente. O correr de uma criança não é o mesmo de um adulto, como o andar de uma mulher não é o mesmo de um homem (…). O caminhar da pessoa de uma classe social carente não tem o mesmo significado do caminhar de alguém vindo de uma classe social mais favorecida. O mesmo podemos dizer, a respeito de cada movimento humano, que não se repete de modo mecânico e idêntico (…). O ser humano movimenta-se sempre de uma forma simbólica e expressiva. Aquele que não procura interpretar essas significações não pode saber exatamente o que está fazendo” (João Paulo S, Medina, A Educação Física cuida do corpo... e “mente”, Papirus, Campinas, 25ª Edição e 1ª Edição em 1983, pp. 52/53).

No livro da minha autoria, Para uma nova dimensão do desporto (DGD, Lisboa, 1974) já eu tinha escrito: “Ciência do Movimento Humano, ou seja, Ciência do Homem, os conceitos de (…) esquema corporal, de motivação, de aprendizagem, de treino, de “forma”, de habilidade, de hábito, de tática, de estratégia, etc., etc. - são, antes de mais, problemas filosóficos em que o corpo nos aparece como concretização espácio-temporal de uma sociedade, de uma visão do Mundo, do Homem e da Vida. E em que os gestos desportivos (conteúdo existencial a nascer das dimensões de um pensamento universal) surgem como a narrativa reveladora do ser e do agir do ser humano”. E acentuava eu, com o vigor possível: “Ciência do Movimento Humano - ciência do Homem em movimento” (p. 273).

Nos anos letivos de 1987 e 1988, coube-me a sorte de lecionar, na licenciatura em Educação Física e nos doutoramentos em Filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ora, o professor de futebol da licenciatura em Educação Física era precisamente o João Paulo Medina, o qual, como preparador físico, já trabalhara em equipas de treinadores vários, entre outros, como Rubens Minelli, Falcão, Telé Santana e depois, como secretário técnico, na seleção “canarinha”.

Quando o João Paulo soube (porque eu lho disse) que, para mim, desde criança, domingo não era domingo, sem a minha presença, como espectador, num bom jogo de futebol, logo tratou, através dos seus largos conhecimentos no futebol “paulista”, de reservar-me bilhete para inúmeros jogos de futebol, designadamente do “São Paulo” que era, então, o clube da minha simpatia, no Brasil. E assim do nosso amor pelo futebol e porque trabalhávamos na Faculdade de Educação Física da Unicamp nasceu entre nós um fraterno convívio que me permitiu conhecer, com rigoroso pormenor, as suas ideias, muito próximas das minhas, pois que ambos recusávamos (e continuamos a recusar) que o desporto seja, entre as ciências sociais, a que mais se assemelha às ciências naturais, como era moda naqueles anos já distantes, como infelizmente ainda não deixou de ser moda em tantos trabalhos universitários, que estudam a prática desportiva, sem distinguirem, no atleta, a pessoa socialmente integrada, quer numa determinada equipa, quer numa determinada cultura. O facto de um atleta, ou um jogador de futebol, se observarem como indivíduos isolados, atomísticos, que nasceram com aptidões biológicas especiais e que portanto ao biológico se poderia resumir, sempre, o fundamental da compreensão e explicação dos seus desempenhos, era um “dogma” que encontrava, no João Paulo e em mim, fortes opositores. E relembro que o João Paulo já cogitava, então, na melhor maneira, de intervir, no futebol brasileiro, com as novas ideias que ambos elaborávamos, na luz quieta dos nossos gabinetes da Unicamp, onde nos fechávamos, em estudo sério. Relembro o que ele me dizia: “É preciso uma racionalidade nova, no desporto, onde a pessoa humana assuma um valor central”. E eu prosseguia: “o ser humano à procura da transcendência”.

Nas palavras do internacional português “Maniche”, alcunha que lhe foi atribuída pelo treinador Arnaldo Teixeira, pois que o seu nome de batismo é este: Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro – nas palavras de Maniche, o José Mourinho é o melhor treinador do mundo. Porquê? “Se o treinador tiver uma comunicação direta e frontal, o jogador dá tudo por ele. E isso acontecia-me com o José Mourinho. Depois ia para casa a pensar que ele tinha razão. Por vezes, as pessoas dizem que é preciso ter carisma e uma voz mais ativa. Por exemplo, o Rui Vitória é menos ativo, mas não deixa de perceber de futebol. O que importa é a mensagem, dentro do balneário. Podes ser um tipo muito simpático e a comunicação social gostar muito de ti. Mas, se perdes, achas que isso serve para alguma coisa? Se fores um tipo arrogante, agressivo, as pessoas não gostam de ti. Mas ganhas. O que dizem as pessoas da tua antipatia? Nada! No futebol, são as vitórias que ditam tudo!” (Expresso, 26 de Setembro de 2015).

Oiço os desabafos e os conselhos dos antigos (e muitos de grandeza inapagável) jogadores de futebol. E não é da tática que falam, quando falam das causas das vitórias ou derrotas das equipas que representaram. Normalmente, relembram, sobre o mais, os seus treinadores, com especial realce por aqueles pelos quais passa o tempo com respeito, aqueles treinadores que, para os jogadores, eram exemplo, eram modelo, eram referência sempre presente. E, porque eram exemplo, modelo e referência, podiam ser líderes. Mais do que pelas palavras, o líder convence por comportamentos ambiciosos e de contagiante coragem e ética. Ou seja, o líder motiva porque, antes, se motivou também. A excelência, nos desempenhos desportivos espetaculares, não se consegue unicamente por um indispensável trabalho metódico e rigoroso, ao nível da modalidade desportiva que se pratica, mas também por uma vontade íntima e intensa que responsabilize, comprometa os jogadores, na construção da vitória. No desporto de altos rendimentos, a vontade é a chave de interpretação dos êxitos que se não esquecem. Porque, no passado dia 25 de Setembro, deixou dois pontos o FC Porto, em Moreira de Cónegos? Porque o querer do Moreirense igualou a superior valia técnica dos “dragões”. O que interessa descobrir numa equipa, mais do que a sua fisionomia física, é a sua fisionomia espiritual...

“Sem um absoluto transcendente, que oriente e dê sentido à prática, o futebol, que tanto nos entusiasma, até pode ser uma grande chatice!”. Palavras que escutei ao João Paulo Medina, na sua passagem, há uma semana tão-só, por Lisboa, a caminho de São Paulo. Lidera, hoje, uma equipa de especialistas que repensam os cursos de treinadores de futebol, no Brasil – repensam, para propor a sua remodelação. Ele foi o primeiro treinador, no País Irmão, a insistir na necessidade de um trabalho interdisciplinar num departamento de futebol. “Vim à Europa, para colher novidades” disse-me ele, num improviso expressivo. E simpático acrescentou:”E para falar consigo, também”, E de olhos postos num dos livros que lhe ofereci;”Não me esqueço do que o meu Amigo foi dizer-nos ao Brasil, há muitos anos já: o desporto é para estudar-se, no âmbito das ciências humanas. O jogador é um homem. Não entende o jogador quem, antes, o não observou como homem”. O João Paulo Medina é um “intelectual” simultaneamente treinador de futebol. Sou mesmo tentado a escrever: é atualmente o “intelectual” do futebol brasileiro, onde tem agido também pelo influxo da sua tónica presença, pela simpatia contagiante da sua simplicidade convivencial. Estou certo que vai abrir caminhos novos à pesquisa de universitários e à prática profissional dos treinadores de futebol.

Há muitos treinadores que treinam, mas são poucos os que se treinam. São palavras do Dr. João Paulo Medina, do meu Amigo João Paulo, que é sempre um inesperado encontro com novos rumos, para o futebol e para o desporto em geral. O meu Amigo João Paulo que, sendo um “homem do futebol”, não deixa de ser também um modelo e espelho de humanistas!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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