SEXTA-FEIRA, 21-07-2017, ANO 18, N.º 6383
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Este futebol foi para o Maneta! (artigo de José Antunes de Sousa, 13)
16:30 - 25-09-2015
José Antunes de Sousa
Digo foi porque um futebol, como todos concordaremos, refém de interesses monstruosos e cada vez mais inconfessáveis, ou seja, interesses cuja actividade prioritária e favorita é mandar às urtigas qualquer vestígio, certamente anacrónico, de uma Ética, sempre serôdia e incomodativa, um futebol completamente sequestrado pela acção tentacular e colonizadora dos impérios do audiovisual cujo único móbil é satisfazer as necessidades compulsivas e primárias de massas indolentes e ululantes de vazio, um futebol assim, meus senhores, tem o seu destino traçado: o mesmo que contemplou a muitos dos presos, certamente por crimes bem mais prosaicos, dos tempos das invasões napoleónicas, que iam parar à(s) mão(s) do Maneta, o General Loison, General de Divisão que acompanhou Junot na primeira invasão e que, segundo escreve Orlando Neves, «perdera um braço em anterior batalha e enquanto esteve em Portugal, se revelou um homem de extrema ferocidade e malvadez, que exercia torturas violentas nos presos e foi responsável por várias mortes».

Sobre este sinistro e popular personagem conta o nosso capitão Raul Brandão (gostava de o promover: se o Valentim foi promovido a major em vida, por que não Raul Brandão a título póstumo?) que Thiébault afirma que fora «um homem hábil, mau como um cão».

Não se poderia mesmo conceber destino mais à medida de um futebol de loucos salteadores! E nem sequer é preciso que o mandem para o Maneta – ele já foi, mesmo que não pareça, porque raramente a data da certidão de óbito corresponde à data da morte efectiva: morre-se antes, às vezes, muito antes! De resto, como está acontecendo com o sistema, dito económico, mas de libertinagem e rapina, que, afinal, o tem sustentado.

Há alguns dias, um antigo assessor do antigo Primeiro-Ministro Gordon Brown, saiu garbosamente da modéstia do seu nome, Damian McBride, para as primeiras páginas dos tablóides e das redes sociais, ao aconselhar as pessoas a armazenarem em casa comida e água como modo de sobreviver à generalizada turbulência nas ruas, em resultado do súbito colapso das principais praças bolsistas. Não querendo elevar este obscuro assessor britânico, ao estatuto de um Nostradamus, de um Manuel Bocarro ou de um Bandarra e, portanto, sem levar à letra o teor da profecia, um mérito tem certamente, reconheçamos: o de chamar a atenção para a previsível derrocada do actual sistema económico – e, nessa enxurrada, vai inapelavelmente este futebol da usura e da especulação.

Mas voltemos ao Maneta, que há ainda uma outra razão para evocar este feroz personagem: é que este futebol, do chá e dos biscoitos, embalado em papel celofane, parece estar apenas reservado a atletas, imaginem, manetas – isso mesmo. Mas com uma diferença em relação ao dito: sem os dois braços. Sim, porque um jogador passear-se na própria grande área, exibindo ufanamente os dois braços com que veio ao mundo, é intolerável provocação – e, ao mínimo toque, mesmo que de raspão, no temível utensílio, outrora tão acarinhado ( os meus amigos já reparam como quase todos os jogadores passaram a ter horror de ter a bola nos pés? Por que será?), ao mínimo toque da bola, dizia, aí está o percuciente apito do inefável juíz a apontar resolutamente para a marca de grande penalidade.

Confesso que, aqui no Brasil, tenho, mesmo assim, notado alguma parcimónia nestes casos e uma menor atracção pelo amarelo, facto que sinceramente saúdo e gostosamente registo. E, nesta cruzada destemperada contra o uso dos braços na sua mais instintiva e básica função – a de defesa -. nem a vizinhança escapa: omoplata e clavícula, num estranho devaneio anatómico, tudo é braço!

Resultado: temos um futebol que, acreditem, já caiu nas impiedosas mãos do famigerado Maneta (que só tinha uma, mas que valia por muitas) por conta dos seus desvarios e da sua compulsiva vertigem autodestrutiva. E a confirmação de que este futebol do leilão de (des)humana mercadoria foi mesmo para o Maneta é apenas uma questão de tempo – pouco.

De facto, como se não bastasse o destempero mercantilista para dar cabo do fascinante futebol, enquanto cinética simbiose de arte e ciência, de talento e força, de beleza e rusticidade, ainda juntaram agora essa estranhíssima fobia colectiva pelos pobres jogadores que têm a ousadia de se apresentarem em campo armados (arms, em inglês) dos seus dois braços, os mesmos que Deus lhes dera para com eles se defenderem de objectos de agressão súbita, entre os quais se tem, obviamente, que incluir a bola, chutada, não raro, com vigor e violência – deveriam, está bem de ver, tê-los deixado em casa, que ainda é mais seguro do que deixá-los no cacifo ( escaninho) dos balneários (vestiários).

Neste futebol sem rumo e, por isso, fragrantemente desarrumado, sem fidelidade às suas raízes, sem pinga de ética (até já se simula grave lesão só para travar um contra-ataque adversário, abusando e tirando, com olímpica desfaçatez, partido do fair-play do jogador da equipa contrária que, ironicamente, prefere deitar a bola fora a prosseguir na acção ofensiva ( eis mais um sinal de contradição, dos equívocos e duplicidades em que vai abundando este maravilhoso desporto!), neste futebol, dizia, o coitado do atleta ( o mesmo, diga-se, que, ao mais leve toque, quando o há, se atira ao chão em acrobático remoinho ao som de lancinantes gritos de «pólvora seca») que ousa apresentar-se de braços abertos e de mãos estendidas e limpas (não, porém, por via do «jogo limpo», mas por tê-las lavado no balneário) é inevitavelmente considerado uma torpe ameaça, como um potencial agressor, disposto a semear pelo campo, muitas vezes mais palco de amável piquenique do que de rija disputa, sangue e lágrimas.

Para não incorrer na óbvia acusação de leviandade e ligeireza, prometo, em próxima oportunidade, dedicar umas palavras à famosa intencionalidade e à espinhosa tarefa de a discernir. Mas, sendo o discernimento do grau de intencionalidade (ou há ou não há intencionalidade) confiado exclusivamente ao soberano critério da interpretação, estamos obviamente a abrir caminho à arbitrariedade. Entretanto, insisto:

Pergunta: será que poderemos contar com a clemência do nosso inseparável Maneta?

Resposta: não há registo de semelhante gesto por parte de tão inclemente personagem!

Meus senhores e meus amigos, todos tão preocupados como eu com o rumo deste futebol, certamente que me perdoareis o tom ostensivamente irónico desta breve reflexão.

Todos entendem, por certo, que o óbvio excesso da ironia apenas exprime o eco de um sentido grito: «Quem acode a este futebol?»
Porque temos uma certeza, sem qualquer ironia: o Maneta espreita – sem dó nem piedade!

Brasília, 22 de Setembro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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