SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
José Neto (Foto ASF)
Espaço Universidade
A Arte de Comunicar: o Treinador e o resultado!... (artigo José Neto, 15)
00:03 - 24-09-2015
José Neto
Agora que tem vindo à discussão a temática comunicacional (verbal, não verbal) e correspondentes respostas à priori e muitas vezes julgadas de forma nem sempre atestadas de rigor emergente, vou aproveitar a oportunidade para abordar este tema.

Qualquer mensagem para que atinja um objetivo de assertiva resposta deverá estar revestida de clareza, exposta de forma otimista e positiva e sem duplo significado, com uma intencionalidade operante cuja expressão verbal e não verbal tem de demonstrar coerência, devendo fazer a separação dos factos das opiniões, não conter segundas intenções, bem sintonizadas com objetivos positivos de conquista, sendo contudo dotada de abertura e flexibilidade.

No âmbito da exposição das ideias mestras numa comunicação, deve-se ter muita atenção às mensagens não verbais, como seja o contacto ocular, os acenos de cabeça, a postura corporal, e os gestos, muito especial do rosto e mãos; a distância inter corporal, o tom e ritmo de voz (não muito grave mas evitando a monocórdia); a expressão facial (o olhar e colocação dos lábios); o vestuário (procurar nas situações formais e não formais, o asseio) e o contacto físico.

Neste domínio, deteta-se facilmente quando um sorriso é verdadeiro, cujos músculos faciais (zigomáticos e orbiculares) mais ou menos se contraem. Outras micro expressões na face podem ser reveladoras de uma forte carga emotiva que poderá ocasionar contradição ou falsidade, e logo, desprezo e desatenção por quem escuta. Não são apenas os sorrisos que podem ser explorados neste domínio. Em algumas ocasiões as leituras das linhas do rosto podem ser um dado indiciador de medo e falsidade. Sacavém, A. (2014), refere que as emoções genuínas são reveladas de forma espontânea através da contração dos músculos da face e só depois se reage verbalmente. Tudo o que “cheira” a falsidade demora tempo a ser imitado, assemelhando-se a um filme em câmara lenta.

É evidente que tudo isto pode e deve ser testado, treinado, conduzindo a comunicação de forma estável e positiva, desde que o treinador consiga encontrar a calma, estabilidade e libertação das emoções que poderão ocasionar um desespero inoportuno.

Ainda a referir no que concerne às mensagens por parte do treinador, verbais ou não verbais e sua relação com as expressões faciais, deve haver uma congruência. Quando o comportamento verbal (palavras, expressões, afirmações ou negações, … ) não é congruente com o não verbal ( gestos, expressões faciais, …) a credibilidade do comunicador fica extraordinariamente afetada.

O autor referido, juntamente com Wezowski,P. (2014), anotam alguns gestos que podem atestar um maior grau de confiança, autenticidade e congruência no comunicador, neste caso no treinador:

Comunicar de pé com pernas cruzadas – revelador de um estado de maior confiança; Colocação das mãos em pirâmide (dedos que se tocam), alternando com o esfregar das mesmas, pode assumir um padrão de intencionalidade atencional elevado, carregado de um estímulo de confiança partilhada.

Sabe-se ainda que a colocação das mãos e braços, que, ao estarem estendidos ao longo do corpo e/ou colocados atrás das costas, podem indiciar domínio, confiança e presença e sendo muito comum, quando cruzados à frente do corpo, os resultados poderão apresentar-se perante um estado de grande expetativa, ou um estado de dúvida, insegurança e incerteza.

Estes são os gestos mais comuns, que se por um lado podem ajudar a ter um discurso movido pela autenticidade e coerência, por outro lado, ajudam a transformar uma realidade comunicacional como fonte mobilizadora para a potenciação do êxito a conseguir.

Tudo isto faz parte de uma contextualização teórica e conceptual e que na minha opinião poderá não ser validada em termos de personalização, pois cada caso estará sempre dependente de muitas condicionantes que fazem parte da identidade do treinador como comunicador e líder. Os fatores ambientais e emocionais, as experiências passadas, a idade, a cultura, a educação e formação do treinador, a importância do jogo em termos classificativos, o resultado no marcador, as situações de vida, etc, ocasionam situações que não podem ser julgadas como norma porque cada qual responde de acordo com a sua própria identidade.

Gostaria de não terminar esta temática sem vos confidenciar uma experiência no domínio de uma preparação comunicacional na obtenção de respostas que geraram sucesso:

- Em tempos idos, não muito distantes, a dez jornadas do final da época passada, uma equipa da 2ª Liga do futebol profissional, batia-se de forma desesperada pela fuga á descida de divisão e cujo treinador tinha sido um dos meus alunos do respetivo curso. A equipa encontrava-se em estágio e no dia seguinte ia realizar um jogo de elevada dificuldade, já que o adversário era um dos candidatos à subida e jogava em casa.

Solicitou-me o meu amigo treinador, já a horas mais próprias para estar em repouso, uma oportunidade de me deslocar ao hotel no sentido de proporcionar aos jogadores uma palestra motivacional capaz de criar um estado de alerta máximo para os aspetos atencionais a ter em conta para um resultado superior.

É evidente, por mais que “falasse” o coração envolto no desejo de acudir alguém que fazia e faz parte do meu tesouro institucional e humano, não aceitei o desafio. No entanto, nessa mesma noite via skipe organizamos o planeamento da palestra, evocando algumas das técnicas referidas, associando algumas mestrias vivenciadas por imagens de sucesso referentes aos padrões de vida dos seus jogadores.

No dia do jogo ensaiamos de forma repetida o que de mais significativo poderia ser revelado e munido deste código instrumental de ações combinadas, foi ministrada a respetiva palestra. Informou-me o treinador que nunca tal tinha sentido, uma energia magnética coletiva, como fonte propulsora de um entusiasmo que até parecia que se estava a anunciar o sucesso. Ele referiu-me uma frase que pelo significado que a mesma apresenta, vou evitar publicar, mas que é autenticamente arrebatadora…

Entretanto os jogadores deslocaram-se para o relvado, realizando uma planificação e ativação em “aquecimento” superiormente validado em equipas estruturadas para melhor atingir o sucesso. Não vou indicar os items que lhe deram sequência, no entanto posso já afirmar, e sem qualquer tipo de problema disposto a futura discussão, mais de 92% das equipas nacionais, o seu plano de “aquecimento” ou de preparação pré competitiva para o jogo, está completamente desfasado dos elementos que podem e devem ser objeto de intervenção, nomeadamente em equipas que acusam melhores razões para a obtenção do sucesso.

Dada a importância desta minha afirmação devidamente assumida, voltarei em breve com a publicação de um trabalho referente a esta temática.

Falta contudo referir que a equipa em causa empatou esse jogo e nos restantes 9 jogos para terminar a época, os resultados foram sufragados com empates e vitórias, tendo alcançado no final, o meio da tabela classificativa. Das labaredas do infortúnio à docilidade da glória, um caminho iluminado pelas palavras, gestos e atitudes, revestidos por um crescer em humildade e perseverança do seu líder /treinador.

Mas há palavras gestos e atitudes … que se por um lado nos podem aproximar, iluminando os caminhos do sucesso, por outro lado podem resvalar para a mentira, para o fingimento, para a hipocrisia, quantas vezes apelando ao uso e abuso de uma linguagem rasca e truculenta, próxima da ordinarice, sendo muitas vezes servidas em “bandejas de prata”, acompanhadas de sorrisos que as curvas do rosto são incapazes de dissimular.

Porém, também há pessoas capazes de comunicar de forma notável, cultivando o significado do silêncio. Não o silêncio austero do desespero, mas envolto na expressão do esplendor que habita na ternura de um olhar profundo e continuado.

Também ainda existem palavras, gestos e atitudes que se podem transformar em notícias, notícias de paz e de generosidade onde se entronca uma honestidade de processos e em que ali, habita o homem e se venera o cidadão, sendo ele treinador, jogador, dirigente ou adepto.

Esta poderá ser mais uma das funções em que o tal G.I.C. (gabinete de inteligência competitiva), já referido anteriormente, pode e deve exercer.

Observar e qualificar o desempenho através da comunicação do treinador e exposição das suas mensagens e nas lideranças exercidas no decorrer do jogo, tendo em atenção a formulação e consecução dos objetivos de conquista.

José Neto
Metodólogo de Treino Desportivo
Mestre em Psicologia Desportiva
Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol
Formador de Treinadores F.P.F. – U.E.F.A.
Docente Universitário


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