SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
“Quem somos nós?” - a resposta do Desporto (artigo de Manuel Sérgio, 104)
18:11 - 15-09-2015
Redação
Segundo o jornalista Paulo Cunha (A Bola, 2015/9/12), a polémica instalou-se em Old Trafford. “O capitão e o vice-capitão do Manchester United, os pesos-pesados Wayne Rooney e Michael Carrick, respetivamente, abordaram Louis van Gaal para, olhos nos olhos, questionarem uma série de opções do experiente técnico, de 64 anos”.

Outros jogadores, como Falcão, Di Maria, Van Persie e alguns mais têm coincidido nos comentários ácidos, em relação aos métodos de van Gaal, demasiado ríspidos, desagradáveis, sem réstia de tolerância. Quando criei o paradigma (não estou a erguer-me nos bicos dos pés, podem crer) que, para mim, fundamenta o desporto (a motricidade humana, ou o movimento intencional e em equipa da transcendência) logo tentei responder às interrogações seguintes: trata-se de um paradigma positivista ou quantitativo? Interpretativo ou qualitativo? Sociocrítico ou hermenêutico?

Para estudar e definir o ser humano, que o desportista é, todos me pereceram parciais e limitados. De facto, só com processos metodológicos empírico-analíticos, racionalistas, quantitativos; só com um árido clima de férrea disciplina; sem uma eloquente solidariedade com os jogadores; sem a linguagem simples, dinâmica e colorida do futebol – a liderança pode ser opulenta, de espetaculares efeitos mediáticos, mas normalmente não é assumida, nem vivida, nem aceite pelos jogadores. O George Steiner, no livro A Ideia da Europa diz-nos que “a dignidade do homo sapiens é precisamente esta: a perceção da sabedoria, a demanda do conhecimento desinteressado, a criação de beleza, incluindo a beleza moral. Fazer dinheiro (muito dinheiro) e inundar as nossas vidas unicamente de bens materiais não passa de uma paixão profundamente insana e vulgar. Só com números e sem coração, é bem possível que a Europa sinta a necessidade de gerar uma revolução contra-industrial como gerou a própria Revolução Industrial” (p. 53). Poucas linhas adiante, observa o autor que, quando a Europa se libertar da sua ideologia falida. “o sonho pode e deve ser sonhado novamente” (p. 55).

O homem é um ser complexo (aliás, tudo é complexo). Nas palavras de Edgar Morin, compõe-se, numa síntese perfeita, de físico, de biológico e de antropossociológico. Mas dou a palavra ao próprio Edgar Morin: “os dois aspectos fundamentais da complexidade (…) são por um lado a natureza multidimensional dos problemas (o complexus é realmente aquilo que é tecido em conjunto) e por outro as contradições irredutíveis que os problemas profundos suscitam. Existem contradições fundamentais para o espírito e o facto de pensar ao mesmo tempo em duas ideias contrárias representa, em minha opinião, um esforço de complexidade. O físico Niels Bohr afirmou que o contrário de uma verdade profunda é outra verdade profunda. Encontra-se a verdade, ao unirem-se noções antagónicas mas complementares” (in Réda Benkirane, A complexidade - vertigens e promessas, Instituto Piaget, Lisboa, 2004, p. 22). Dada a multiplicidade das fontes, na análise da prática desportiva, e após o confronto crítico indispensável entre todas elas, a maior objetividade possível garante-se, quando o paradigma positivista e o qualitativo ou interpretativo e o sócio-crítico não se excluem, porque todos são necessários e se complementam. Quando se dizia e ensinava que, na medicina e na educação física, o paradigma científico radicava apenas na fisiologia e se pensava que as leis do mundo físico eram, em tudo semelhantes, às do mundo social e humano, o conhecimento, como um pêndulo, oscilava entre a física e a matemática e a qualidade, com todo o seu ímpeto de força criadora, ficava esquecida na preparação do atleta. Alguns cientistas preferem, na investigação e até na prática profissional, a quantidade à qualidade, porque aquela pode ser testada, verificada, medida, experimentada e é de mais fácil manuseio; nesta, descobre-se mais cultura do que técnica, mais arte do que rendimento, mais ludismo do que eficiência, mais criatividade do que repetição, mais sabedoria do que saber, mais sentimento do que razão, um mundo enfim que não se reduz ao quantitativo, ao mensurável, não os dispensando embora.

O domínio da epistemologia positivista, no desporto, durante todo o século XX, dava indiscutível relevo às noções científicas de explicação, previsão e controlo, no treino e na competição de um ser (o ser humano), que procura (em grupo, em equipa) o significado e o sentido do que faz, em tudo o que faz, designadamente quando transcende e se transcende. Vou citar ainda o Daniel C. Dennet, no livro da sua autoria, A Liberdade Evolui (Temas e Debates, Lisboa): “Não há fonte de inquietação mais poderosa, quanto ao livre-arbítrio, do que a imagem das ciências físicas a tragarem todos os nossos feitos, bons ou maus, no caldo ácido da explicação causal” (p. 300).

Gadamer adianta sem receio, no seu Truth and Method, que um “conhecimento objetivo”, como o positivismo o entende, não passa de uma grande quimera. “É evidente que, quando a pessoa é vista apenas na sua autonomia biológica, a sua identidade fica empobrecida e. neste sentido, é mais fácil manipulá-la e instrumentalizá-la”(in Alfredo Dinis, Brotéria, Fevereiro de 2003, p. 133). George Lakoff e Mark Johnson consideram que “a mente é por natureza incarnada (…), somos muito diferentes daquilo que a nossa tradição filosófica nos tem dito” (in Alfredo Dinis, Brotéria, Maio-Junho de 2003, p. 435). E, sobre o mais, porque a nossa identidade pessoal é estruturalmente relacional. É principalmente na amizade, no amor, na vivência de uma grande paixão, de um grande ideal, que a ciência reconhece que, mais do que quantitativa, o ser humano deverá merecer uma abordagem interpretativa/qualitativa. Com efeito, no âmbito do humano, investigar supõe interpretar ações e factos e acontecimentos. Habermas fala-nos de uma “hermenêutica da suspeição” onde no desporto, por exemplo, a técnica e a tática e a estratégia estão sempre em tensão dialética com o húmus cultural e social donde nascem. Assim, o treinador desportivo competente é o que sabe descobrir a complementaridade entre o paradigma positivista e o interpretativo e o sócio-crítico, porque a complexidade do ser humano assim o exige. Uma visão unilateral não abrange a multidimensionalidade da natureza humana.

Quem somos nós? O desporto dá-nos a resposta: seres-de-relação e em permanente relação. Visando a superação, ou a transcendência. No meu modesto entender, o desporto é um dos aspetos do movimento, intencional e em equipa, da transcendência (a motricidade humana). Fazendo desporto, o homem (a mulher) persegue, em equipa, a transcendência. E toma consciência, de forma original e expressiva, de que não é objeto da História, mas sujeito criador da própria história; de que não é apenas reflexo do mundo em que vive, mas projeto de um mundo possível; que é preciso lutar (com regras) para desfatalizar a História. Nenhuma realização, nenhuma práxis deverão considerar-se como o fim da História. Portanto, assim nos ensina o Desporto: em grupo, em equipa, o Homem e a Sociedade são tarefas a realizar e a transformar. Na prática desportiva, no desporto federado ou escolar, o treinador e o professor não deverão realçar tão-só os benefícios físicos e fisiológicos da motricidade humana. Há, no ser humano, no meu pensar (ajoujado de limitações, reconheço) uma estrutura biológica, uma estrutura psíquica e uma estrutura sóciocultural. Numa atitude prévia de compreensão do treino, tanto no desporto escolar como no desporto federado, depressa se conclui que nem todo o conhecimento se esgota na física, na biomedicina, na matemática. Como já há muitos anos aprendi, em Ortega y Gasset, onde acaba a física não terminam as questões. Parafraseando o filósofo espanhol, onde acaba a técnica e a tática não terminam as questões no futebol. A essência do próprio terreno de investigação nestas áreas mantém-se oculto, para os que sabem muito de biologia do desporto, julgando que, assim, dominam todos os segredos da prática desportiva. O desportista (ó suprema contradição!) não passa, neste caso, de mera abstração intelectual. Ciência, hoje, é o que permite ao especialista não abusar do seu saber. Só agora reparo onde me levou uma notícia sobre Louis van Gaal...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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