QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
José António Sousa
Espaço Universidade
Futebol: jogo duplo (artigo de José Antunes de Sousa, 11)
21:41 - 12-09-2015
A propósito de mais uma jornada do torneio de qualificação para o Europeu do próximo ano em França, e porque o assunto é sério e convoca a nossa reflexão, achei oportuno revisitar o texto que se segue e que, na altura, escrevi para a Universidade do Futebol em São Paulo.
Aconteceu há cerca de um ano em Belgrado, capital da “Grande Sérvia”, um inédito episódio protagonizado por um sorrateiro e imprevisto drone que, lembram-se, irrompeu pelo tecto plúmbeo do palco ao rubro, fumegante, de um jogo de qualificação para o Campeonato (Copa, para quem me lê no Brasil)) da Europa de 2016, em França, entre a Sérvia e, imaginem, a Albânia. Nem mais.

Com uma decisão demissiva e aparentemente salomónica, a UEFA, perante a irredutibilidade belicosa das partes, tinha decidido atear, logo à partida, um rastilho: em Belgrado jogo sem albaneses nas bancadas e, em Tirana, sem sérvios – como se a exclusão física fosse antídoto bastante para exorcizar fantasmas do passado. Tanto assim, que o drone os tornou, num ápice, flagrante e explosivamente presentes: com uma bandeira da “Grande Albânia”, projecto consanguíneo do nazismo hitleriano, o famigerado drone, ao que se diz telecomandado pelo irmão do Presidente da Albânia, provocou a explosão raivosa, num primeiro momento, dos jogadores sérvios que, atingidos no âmago do seu orgulho eugénico, pisotearam tão inoportuno símbolo de ódios ancestrais.
Resultado: o rastilho alastrou pelas bancadas e o jogo foi pura e simplesmente cancelado.
Ora, pouco nos importa especular sobre as implicações desportivas do incidente e que serão certamente irrelevantes, como foram de facto, quando comparadas com as ondas sísmicas que tão exótica iniciativa pode reeditar e com as feridas, nunca cicatrizadas, que um tão ousado golpe propagandístico e imperialista pode reavivar. E embora os factos não tenham confirmado tais temores, a verdade é que o perigo era real – e continua sendo.

Importa, por isso, que lancemos, uma vez mais, um olhar questionador e interpelante a este fenómeno humano, que o é, sem dúvida, o futebol.
Muitos se lembrarão da guerra entre as Honduras e El Salvador por causa de um jogo de futebol, como se recordarão, por outro lado, de um pacificador jogo entre a Inglaterra e a Argentina, nos anos oitenta, que funcionou alegadamente como bálsamo para as feridas abertas pela crudelíssima refrega das Malvinas. Isto é: o futebol tem o condão de acirrar os ânimos até ao conflito mortífero, mas , paradoxalmente, comporta também em si o sortilégio da convivialidade, da festa, da fraternidade. Empate? Assim parece. É, pelo menos uma congénita ambiguidade fenomenológica aquilo que parece exibir – uma certa ambivalência. Podemos mesmo apontar para uma duplicidade psicoemocional inerente ao próprio espectáculo do futebol – enquanto actividade eminentemente lúdica, sem dúvida, mas também acesamente agonística, enquanto rija disputa. É neste sentido que se afigura lícito falar de empate: dá para os dois lados, tendo em conta uma certa geometria das emoções.

Mas o que é decisivo – perigosamente decisivo - é uma outra verificação, correlativa àquela: o futebol gera, pela sua própria natureza emulativa e enquanto metáfora bélica (Desmond Morris), uma torrente caudalosa de emoções antagónicas, algumas das quais, dada precisamente essa ressonâcia militarista, de tonalidade pariótica – por si mesmo, repete-se, e pelo clima à sua volta criado. E, como sabemos, a emoção não é, enquanto tal e na sua pulsividade, eticamente qualificada: a emoção é neutra – só recebe um valor eticamente referenciável quando sujeita à intervenção qualificante do sujeito através do exercício libertador do livre-arbítrio.
Podemos dizer, neste sentido, que o desporto só é verdadeiramnente libertador quando a sua prática suscita o acesso a um mais elevado estado de consciência através do qual o sujeito procede à correcção dos excessos sinápticos que condicionam os comportamentos.
Pode-se usar o futebol para o objectivo da paz, sem dúvida – desde que todos os intervenientes aceitem entretanto pacificar-se a si mesmos, o que implica amainar em si o vendaval de paixões que o futebol, no seu paroxismo agonístico, desencadeia. Como se pode promover a guerra: basta atear o rastilho, por exemplo e, como no caso vertente, da paixão identitária e nacionalista.

Mas para isso é preciso banir a hipocrisia: não se pode exibir o logótipo da UNICEF nas camisolas (camisas, no Brasil, que camisola é o que vestem as mulheres à hora de irem para a cama!) e, ao mesmo tempo, andar, ao arrepio da lei, a contratar crianças, futuros talentos, arracando-os, sem pinga de piedade, ao aconchego humano onde deveriam continuar a crescer. Nem mostrar solidariedade com as vítimas do Haiti ou com os imigrantes, vítimas da crueldade da guerra, e engolfinharem-se por dá-cá-aquela-palha em encarniçadas guerras doméstcas, com o ínvio fito de retirar daí dividendos desportivos: pura contradição!
Neste vaivem da sensatez humana, eis o que, aos clubes, desde logo, mas sobretudo à FIFA e à UEFA se lhes pede: um pouco mais de juízo!

Brasília; 10 de Setembro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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