QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Chá e biscoitos (artigo de José Antunes de Sousa, 9)
17:23 - 28-08-2015
José Antunes de Sousa
Vivemos um tempo que poderíamos genericamente caracterizar como um tempo da claudicação: a tropa já não é o que era, nem o que deveria ser, e não vemos um único soldado fardado na rua – nem sequer um marinheiro no Cais do Sodré.

A vida eclesiástica perdeu o seu antigo fervor e não há um uma sotaina sequer capaz de se passear na Baixa, apesar de, ali perto, poder contar com o refúgio da Igreja de S. Domingos, em cujo púlpito o Padre António Vieira pregava os ardores da Fé nos intervalos das suas incursões apostólicas nas reservas dos Tapajós. Ah, e os professores escondem-se como podem – quase nunca podem – do escárnio popular.

Enfim: o militar que obriga o imaculado recruta (que ostenta a reverenciada superioridade que resulta da sua generosa condição de voluntário) a fazer umas flexões na barra da pista de obstáculos coloca obviamente em perigo a sua progressão na carreira das armas; e o professor que reprova o cábula e enfrenta o aluno insolente arrisca, tenha a certeza, o seu bom nome e futuro junto do Ministério da Educação – para não falar na surra às mãos do pai indignado por tão grande temeridade.

Não há dúvidas, insisto: vivemos num tempo da doce covardia – da abdicação. Isto claro que vem a propósito de quase tudo – e também do futebol. Sim, o futebol é, sem dúvida, um jogo fascinante, mas é preciso ter cuidado e não o estragarmos – com mimos e certas mariquices!
O que dá ao futebol esse fascínio é precisamente essa genética dose certa de rudeza, rijeza e contacto físico, enérgico, mas cavalheiresco – além do incontornável padrão gestual transgressivo, o facto incrível de se jogar com a parte mais improvável do corpo, os pés, a que se junta um factor nada negligenciável: a simplicidade das suas regras.

O futebol já tem a sua dose de doçura associada à sua componente de cavalheirismo – e não precisa que o encharquem com maneiras delicodoces - esses maneirismos delicadinhos descaracterizam irremediavelmente um jogo, matricialmente viril e rústico. O futebol, assim, quase se converte num jogo de sopeiras, ou, mais elegantemente, num jogo de “madamas”, da alta e do calote, que, depois de um animado jogo de canastra, amainam os ardores da goela com o chá das cinco.

Falemos claro: há uma agressividade a que Erickson chamou «agressividade saudável», constitutiva da própria gestualidade deste mágico jogo que implica a fortiori o rijo contacto físico, com a proibição liminar e categórica de qualquer contacto que denote clara intenção de magoar.
Sem meias-tintas: cerca de 70% - e tenho bem a noção de estar a ser evangelicamente generoso – das faltas, zelosa e prontamente assinaladas pelos árbitros (acompanhadas quase invariavelmente da componente cromática do espectáculo em que indevidamente se tornou a arbitragem, a exibição de um cartão amarelo) numa partida de futebol não passam de contactos fortuitos e integrantes da dinâmica agonística do próprio jogo e «aproveitados» intencional e maliciosamente pelas pretensas vítimas para dar largas à sua actividade favorita – e, pelo que se vê, compensadora – e que, essa sim, deveria ser punida: cair!

Mas sobre este surto epidémico de icterícia que se abateu sobre o futebol conversaremos numa próxima oportunidade, sendo certo que esta impulsiva profusão do amarelo constitui um dos vários factores de distorção ética da tão falada verdade desportiva – sem dúvida.
Os árbitros, esses, afectados por estranha epidemia, entram literalmente em pânico à mais inocente queda – e apitam!... e com veemência, aquela que vem normalmente associada a um oco autoritarismo, muito mais do domínio do tique do que da convicção.

O mecanismo desde Pavlov que é bem conhecido – o do reflexo condicionado: se o cão na famosa experiência salivava ao mero toque da sineta como se perante carne estivesse, aqui, qualquer pedaço de carne – viva, claro – estendida à frente do árbitro obriga-o a tocar o sirene, leia-se a apitar. Convenhamos, de passo, que a estridência do apito costuma ser inversamente proporcional ao grau de autoridade – como acontece com o polícia desautorizado no meio do caos do trânsito.
Será que esta onda de tão imprevistos bons samaritanos que parecem querer vir em socorro do futebol, livrando-o de alegados maus-tratos, reflecte uma certa má-consciência, resquício daquela peregrina ideia de que o futebol constituía uma séria e perigosa ameaça para a saúde dos nossos jovens?

A este propósito lembremos o que escrevia o Tenente Artur Rebelo de Almeida nos anos vinte do século passado em “O Sport de Lisboa”: «E assim durante longos anos, entre nós o football tem sido o agente fomentador da ruína de muitos rapazes que se não se têm levianamente entregue a tais práticas não iriam tão cedo pertencer ao número daqueles que povoam as ignotas paragens do Além...». Esclarecedor, não é?
Eu, por mim, confesso que, perante o actual processo de efeminização do futebol – talvez com a auspiciosa excepção do que se vai praticando na Grã-Bretanha –me assalta às vezes uma provocadora fantasia: que me dizem se aproveitássemos uma ou outra das incontáveis interrupções motivadas pela «fita» dos jogadores, para fazer entrar em campo umas meninas de avental rendado com as cores da equipas em confronto, munidas de um tabuleiro a servir aos meninos, cansados de tanta queda, um chá de tília, ou mais feminino ainda, Lúcia-Lima, acompanhado, por que não, de uns biscoitos – para adoçar a boca?

Cada jogo se assume como actividade «significante» (Huizinga, 1955) através de determinada intensidade gestual, que exprime, por sua vez, o seu contexto significativo – e o contexto do futebol é matricialmente um contexto de rusticidade, de rija disputa e de um vigoroso contacto físico: por outras palavras, há nele uma certa dose de «violência» natural (não a mesma do râguebi certamente), ínsita na sua própria dinâmica expressiva para permitir justamente a tal chispa galvanizante e, muito importante, a sua fluidez como espectáculo. Porque um concerto a cada momento interrompido vira caos – sem conserto!

E que ninguém pense que estou com isto a desvalorizar ou a conotar pejorativamente o feminino - nada disso: que seria da humanidade sem a doçura e a delicadeza do gesto feminino? O humano faz-se do todo de cada uma das suas partes.

Mas desde que as mulheres passaram a ir para a tropa, para a Guarda e para a Polícia elas tiveram que, a seu modo, assumir uma certa rijeza, uma certa têmpera. A não ser que as coisas tenham sido e continuem sendo feitas ao contrário: em vez de serem as mulheres a adaptarem-se a uma natural dureza da Instituição Militar, seja esta a adaptar-se à delicada fragilidade das mulheres. Só que tudo o que se descaracteriza, se aliena e perde a razão de subsistir – como o futebol: ou se mantém fiel à sua matriz genética e continuará a galvanizar multidões (atenção que disse multidões, que não é o mesmo que massas) ou, maquilhado com rímel e pó-de-arroz, não tardará em converter-se num espectáculo de marionetas – que se vê uma vez, porque ninguém suportará a mecânica previsibilidade, o som estridente do apito, enfim, o tédio, o vazio.

Repito: tudo o que vive só sobrevive como diferença e o que se descaracteriza morre – como a Língua. E este (des)acordo ortográfico (ainda não encontrei um único académico brasileiro que seja favorável a esta aberração), ao descaracterizar a nossa Língua, amputando-a do alimento significativo das suas raízes greco-latinas, colocou esse corpo vivo à mercê dos ventos erosivos e estiolantes da indiferencialidade – que é, como se sabe, o clima raso e típico do cemitério. Se há certeza que posso exibir é essa precisamente: esse é veneno que me nego a tomar!

A propósito da Língua, seja-me permitido dar conta do inspirado suspiro de um admirável poeta brasileiro que tem a generosidade de me dispensar a sua honrosa amizade, José Santiago Naud: «A Língua Portuguesa tem dois montes/e um oceano no meio./Camões,/Pessoa e Drummond/me deram a chave para ser/- se não um poeta bom,/poeta no mundo./Falo.». Dois montes gigantes a espreitar o mundo todo, ligados pelas águas épicas do sonho universalista de Camões!

Eu me confesso: eu não quero este futebol em que o instrumento artístico dominante é o apito nem este acordo ortográfico ao jeito do Google! Insuportável cacofonia! E perigosa miopia!

Brasília, 26 de Agosto de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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